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20

Taylor Swift: Red

Não é nenhuma loucura dizer que Red é o melhor e mais complexo disco de Taylor Swift. Ele surgiu de um período de puro amadurecimento na carreira da cantora, no  qual ela estava abandonando as narrativas de contos de fadas e explorando temas mais intricados e realistas. Red é a imagem de uma jovem mulher determinada a explorar todas as emoções, sendo essas boas ou não. Suas músicas são divertidas e honestas e suas narrativas são postas em cenários de situações em que Swift está disposta a correr risco pelo processo de se tornar uma adulta. Esse foi seu primeiro álbum com DNA mais pop: ela finalmente atingiu o topo das paradas com o sucesso “We Are Never Ever Getting Back Together” e suas canções, agora, eram resultados de uma mescla entre country, pop, rock e eletrônico. Por outro lado, faixas como “Begin Again” e “Sad Beautiful Tragic” deram continuidade para o intenso storytelling característico dos primeiros trabalhos de Swift.

Embora sua multiplicidade, Red mantém uma linha narrativa quase mitológica, construída por adereços cinematográficos. Vermelho se torna uma metáfora para sentimentos, bem como cores de elementos de uma história extremamente detalhista. “All Too Well” é a melhor música de Swift — se desconsideramos a versão estendida desta mesma faixa lançada em 2021 —, e o ponto em todas as melhores qualidades convergem: essa conta com a melhor composição do álbum e progressão e a sinceridade emocional mais forte. Mas, mais pertinente, é seu poder de atemporalidade, tanto dentro de seu próprio universo (“But you keep my old scarf from that very first week / ‘Cause it reminds you of innocence and it smells like me”), quanto fora dele. Depois do lançamento de Red, Taylor se tornou uma figura inconteste da música nos Estados Unidos. Entretanto, no final do dia, o importante não é como Red mudou todo seu mundo ao seu redor, mas sim como moldou a visão da própria cantora. — Leonardo Frederico

19

Charli XCX: Charli

Charli é uma completa bagunça. O álbum no qual a garota desconcertada de True Romance encontra a superestrela futurista e mente brilhante do hyperpop, ao mesmo tempo em que se inclina às tendências comerciais da música pop do fim dos anos 90 e início dos anos 2000. A verdade é que, embora Charli XCX tenha se esforçado bastante em sua confecção — em entrevista à Paper Magazine, Charli disse ter ficado noites em claro com A.G. Cook no estúdio —, este é seu disco menos coeso. Isso tampouco significa que seja insuficiente ou coxo, uma vez que, excluindo suas mixtapes, pode-se afirmar categoricamente que Charli é seu melhor LP. Ao tempo em que foi lançado, era o mais próximo que a cantora havia chegado de trazer canções pessoais, com conteúdo lírico sentimental e relacionável. Por vezes, a britânica focou muita atenção em bangers instantâneas para se curtir na balada; aqui, no entanto, viu-se o lado humano da femmebot em faixas como “Cross You Out”, com a icônica Sky Ferreira, a antêmica “White Mercedes” ou a confessional “Silver Cross”, com seus violinos sintetizados e metálicos. Há muito o que se debruçar sobre cada uma de suas 15 faixas, mas, no geral, Charli é uma completa bagunça… e isso é o que há de melhor nele. — Kaique Veloso

18

Ana Frango Elétrico: Little Chicken Electric Heart

Little Chicken Electric Heart, segundo álbum de Ana Frango Elétrico, é o projeto mais hipnotizante e arrebatador da artista. Com uma fusão fora do normal entre rock alternativo, MPB e jazz, Elétrico cria um ambiente sonoro cativante e único. Em especial, suas composições inteligentes e poéticas se entrelaçam com  sua voz delicada e expressiva, transportando assim o ouvinte para um universo introspectivo e lúdico. A musicalidade complexa e criativa do álbum, com arranjos peculiares e melodias inesperadas, revela a artista como uma das vozes mais originais e promissoras da música brasileira contemporânea. — Brinatti

17

Solange: A Seat at the Table

Cercada de vulnerabilidade e, por vezes, delicadeza, Solange traça um paradoxo sonoro com A Seat at the Table. Disco responsável por revigorar e mudar os temas e abordagens da sua carreira, o escopo dele é perfurante. Sincera, ela tira o véu e as distrações sobre temas que atormentam a comunidade negra, e começa o processo de diálogo e cura dessas feridas. O cansaço psicológico e emocional, que se transfere para todas as esferas da vida de uma pessoa preta, é perfeitamente sintetizado em “Cranes in the Sky”, pois tentamos de tudo para afagar: beber, dançar, comprar, trabalhar até cansar, tentar se ocupar. Mas não apenas, pois as diversas nuances dessa questão ganham vida durante a obra, como o direito de sentir raiva abordado em “Mad”, a emancipação pessoal de “Don’t Touch My Hair” e os interlúdios, que dividem e complementam a narrativa. Esta é uma obra fundamental do R&B e neo-soul da década passada, que imprime com convicção o poder de ser vulnerável para um povo que, muitas vezes, adoece sem perceber. — Felipe Ferreira

16

Björk: Vulnicura

“O que Björk fará em seguida?” é a pergunta prima realizada em cada um de seus brilhantes lançamentos. Depois de Debut, veio o primoroso Post; então com o lendário Homogenic, que se seguiu com o favorito pelos fãs Vespertine, que, enfim, foi continuado pelo transformador Medúlla. Daí, vieram dois de seus discos menos apreciados e, até, malquistos por alguns. O que Björk faria depois disso certamente definiria se sua carreira seria ativa ou remanescente de um legado. Por sorte… digo, por puro talento, Vulnicura chegou mais colossal do que nunca. Este foi um álbum que demonstrou emoção na composição acima de tudo. Um retrato visceral e excruciante da dor de se encerrar um relacionamento, melhor dizendo, de se encerrar uma família. Em “Family”, a islandesa compara o término com seu marido e pai de seus filhos a um processo de luto no qual ela precisa enterrar a própria família: “Is there a place / Where I can pay respects / For the death of my family?”, ela canta. Embalado pela produção eletrônica da venezuelana Arca e pelos violinos tristemente resignados característicos do início de sua carreira, Vulnicura estabeleceu-se com a assunção da dor sob forma biológica, animada, viva e passível de morrer. Este é um dos 20 melhores registros da década de 2010. — Kaique Veloso

15

Frank Ocean: Blonde

Blonde é um fascinante exemplo de como expressar seus sentimentos em relação a um relacionamento rompido. A forma como Frank Ocean aborda os temas apresentados nas canções, de modo a conseguir, com maestria, demonstrar suas emoções sobre àquelas situações é surpreendente. Fora isso, a parte sonora, especialmente na segunda metade do álbum, conta com uma criatividade ímpar em comparação  a outros artistas de R&B — principalmente por apresentar referências incomuns ao ritmo, como o dream-pop em “Seigfried” e psicodélico em “Nights” de forma bastante formidável. Desse modo, ele se destaca não apenas como o melhor lançamento do gênero de 2016, mas também, como uma das peças mais fantásticas do estilo musical na década passada. — Davi Bittencourt

14

Fiona Apple: The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do

Fiona Apple, após quase 7 anos desde seu último projeto, retornava em 2012 com o famigerado The Idler Wheel…. Nele, Apple dá uma cara nova a sua discografia, com uma produção um pouco diferente do que estava acostumada a fazer. Vemos mais instrumentais além do piano ganhando vida, e graças aos belos vocais da cantora, sutis e cheios de camadas que acrescentam um ar mais dramático, nos impressionam com ela cantando músicas sobre suas experiências de vida, como relacionamentos que não deram certo trazem consigo a capacidade de fazer quem ouve compreendê-la e se emocionar com seus relatos. É um álbum bem denso e coeso, apesar da demora da artista em lançar trabalhos, valeu a pena a espera. Cada música do disco é uma experiência única que apenas Fiona Apple poderia proporcionar. — Lucas Lima

13

Charli XCX: Pop 2

Pop 2 mostrou Charli em seu ápice de excelência na exploração do hyperpop que a cantora estava trazendo desde 2016, ano anterior ao do lançamento da mixtape. O gênero, resumidamente, introduz ao pop elementos eletrônicos não convencionais ao cenário mainstream, como percussão metálica e sintetizadores distorcidos com uma aura futurista, além de uma produção usualmente caótica e vocais extremamente processados de maneira a soar desumanizados. O mais fascinante na obra é como ela representa tão bem esse movimento musical, sendo uma excelente síntese desse. No registro, a britânica, junto a A.G Cook, que produziu o álbum, fazem um fantástico trabalho ao explorar essas características citadas — configurando-o como um lançamento de maior caráter experimental — ao mesmo tempo que conseguem manter um surpreendente equilíbrio com o aspecto acessível e cativante da música pop. Nesse sentido, Pop 2 destaca-se, não apenas como o projeto que consolidou XCX como uma artista muito habilidosa a trabalhar com essas influências, mas também, como, no geral, um dos discos mais fascinantes do estilo. — Davi Bittencourt

12

Kendrick Lamar: good kid, m.A.A.d city

Em Section.80, álbum de estreia de Kendrick Lamar, o rapper mostrou que tinha potencial para dar e vender, já em good kid, m.A.A.d city, ele demonstrou, não apenas, que era capaz de fazer jus a esse potencial, como, também, superar as expectativas que todos haviam colocado nele. Com participações especiais de Drake, Jay Rock, Pharrell Williams e Dr. Dre, good kid, m.A.A.d city retrata Kendrick contando a história de sua dura infância, crescendo na cidade de Compton e tentando se encaixar no ambiente, rodeado por crime e drogas. Neste LP observamos, pela primeira vez, um Kendrick Lamar com o objetivo de fazer algo maior com sua música: de um ponto de vista artístico, gkmc passa ao ouvinte uma grande sensação de estar vendo um filme, principalmente com os trechos de áudio, no começo ou fim da maioria das faixas, nos quais podemos ouvir os personagens da história de Kendrick — sua mãe, pai e amigos — dando continuidade à narrativa. Agora, de um ponto de vista social, Kendrick aqui mostrou ao mundo que, com sua arte, ele não queria apenas criar uma experiência agradável, e sim, algo tocaria no coração de quem ouve, e que inspirasse as crianças pobres de Compton a ouvir sua história, e saber que, um dia, elas também poderiam sair daquele mundo. — Matheus Henrique

11

Kanye West: My Beautiful Dark Twisted Fantasy

Em 2009, Kanye West se tornou a pessoa mais odiada dos Estados Unidos — e mais de uma década depois, ele ainda é uma das pessoas mais odiadas da América. Embora hoje em dia não tenha um motivo bom para defender as atitudes de West — essas quais tangenciam entre fascismo e surtos bipolares —, no começo dos anos 2010, a história era um pouco diferente. Tudo se engatilhou depois de Kanye subir no palco do VMA de 2009 e interromper o discurso de Taylor Swift para “defender” Beyoncé. Rapidamente, a mídia e indústria se virou contra o rapper — até mesmo o presidente Obama teve sua fatia do bolo quando chamou o rapper de “imbecil”. Em menos de uma hora, Kanye passou de um dos artistas mais talentosos da história para a “abominação da nação Obama”, como ele mesmo gostou de pensar.

Mais excitante do que observar o efeito manada odioso para cima de Kanye West, porém, era pensar na resposta que ele daria para toda essa situação, visto que em momento algum ele aceitou um acordo de cavalheiro e havia se desculpado. Logo depois de todo esse episódio, West se exilou no Havaí, onde gravou My Beautiful Dark Twisted Fantasy, seu registro de resposta para toda a situação que tinha se desenrolado. Desde o primeiro single, “Power”, lançado em julho daquele ano, o sentimento era que West estava funcionando em sua potência máxima — e quando o álbum saiu, isso foi uma comprovação. My Beautiful Dark Twisted Fantasy ainda é o melhor álbum do rapper, uma obra-prima multifacetada que bebe das influências barrocas da música pop eletrônica e do rap clássico dos anos 1990 e 2000 para construir sua narrativa. O disco é uma experiência de catarse emocional orquestrada cuidadosamente até o último detalhe, funcionando não apenas como uma forma de West contar seu lado da história e as consequências, mas também como uma carta para toda América, que já apresentava seus sinais de decadência perante a hipocrisia do governo de Obama.

Grande parte das canções de My Beautiful Dark Twisted Fantasy são músicas de grandiosidade independente. Ou seja, essas são canções que, dentro de sua própria diegese singular, são capazes de contar suas histórias de maneira fluída. No conjunto maior, elas formam um cenário cuidadosamente projetado para armazenar cada fase do drama, ponto de vida e da complicada persona de West. “Power” é um deboche que soa mais potente que a própria existência, enquanto “Runaway” é um arquétipo de canção de término de quase dez minutos cantada perante a perspectiva de todos que se denominam “rebeldes sem causa”. “All of the Lights”, uma das melhores músicas da história, debruça-se em falar sobre a lente negativa pela qual a vida pessoal de West foi posta, e “Monster” mostra Kanye em seu instante mais consciente. No time de colaboradores, a lista é extensa, saindo de Bon Iver, até Nicki Minaj e Jay-Z. My Beautiful Dark Twisted Fantasy é um trabalho carregado de perfeccionismo e o resultado é proveitoso: existiu uma América antes desse disco e uma totalmente diferente depois dele. — Leonardo Frederico

10

FKA twigs: MAGDALENE

O segundo disco de FKA twigs, MAGDALENE, apresenta uma coleção intensa de músicas sobre a dor de um rompimento amoroso. No entanto, muito mais do que canalizar os sentimentos de um coração partido e vislumbrar o passado, o álbum serve também como um elemento norteador para o triunfo de outsiders: se uma vez twigs cantou que nunca viu uma heroína como ela em filmes de ficção científica, MAGDALENE surge para suprir essa carência. Essencialmente, esse é um trabalho de material rico e complexo direcionado não apenas para investigar formas de superar o tormento, mas também encontrar caminhos para encontrar seu verdadeiro “eu”. Ele combina uma produção pop-barroca inovadora e experimental com escritas singelas e claras, destacando a vulnerabilidade e a resiliência de FKA. Ela explora temas de fidelidade, abandono e dependência emocional, sensualidade e autodescoberta: “home with you” é um diário crônico da luta entre os polos de uma relação; “sad day” demonstra o afastamento do companheiro, até que “cellophane” encerra perguntando se, depois de tudo, ela foi suficiente para algo ou alguém. O símbolo principal do álbum, porém, não é simplesmente transmitir dor, mas sim transformar ela que vale a pena de alguma forma. — Leonardo Frederico

9

Weyes Blood: Titanic Rising

Através de Titanic Rising, o caleidoscópio musical de Natalie Mering é refletido, principalmente, em sua condição enquanto liricista, utilizando de um processo de aproximação e se apropriando de uma linguagem que se apossa tanto do individual — com Natalie empregando seu eu lírico para transportar suas experiências pessoais —, quanto de uma estética coletiva, em que a cantora se permite dizer pelo outro: “Let me change my words / Show me where it hurts”. Em Titanic Rising, Natalie expressa sentimentos de solidão, romance e paixão pelo desconhecido, sentimentos naturalmente universais, fórmula que se repetiria em And In the Darkness, Hearts Aglow, de 2022, mas com sua máxima ainda mais concretizada, compartilhando pela vivência global da pandemia. Através de arcaísmos culturais, Mering opera sua magnum opus com o uso de melodias que consistem em variadas camadas musicais, lírica complexa e um sentimentalismo ímpar na sonoridade pop atual. — Alisson Nunes

8

Frank Ocean: Channel Orange

Channel Orange do cantor Frank Ocean é um marco significativo na história da música contemporânea. Lançado em 2012, o álbum conquistou tanto crítica quanto público, deixando um impacto duradouro na indústria musical. O projeto é uma obra-prima sonora que mergulha em temas profundos e complexos, explorando questões como identidade, amor, sexualidade e a experiência humana em geral. A habilidade de Frank Ocean em criar narrativas vívidas e emocionalmente carregadas é evidente em cada faixa do álbum. Sua voz suave e cativante, combinada com letras honestas e introspectivas, transporta os ouvintes para um mundo de reflexões e emoções cruas. Uma das maiores conquistas de Channel Orange é a capacidade de transcender gêneros musicais. O álbum mescla habilmente elementos do R&B, soul, pop e até mesmo influências de jazz e música eletrônica. Essa fusão de estilos musicais cria uma sonoridade única e inovadora, que desafia as convenções e estabelece Frank Ocean como um artista visionário. ー Gerson Monteiro

7

Elza Soares: A Mulher do Fim do Mundo

A Mulher do Fim do Mundo marca o retorno triunfante de Elza Soares depois do seu último álbum em 2003 intitulado Vivo Feliz. O álbum é uma explosão poderosa e visceral, na qual samba e rock se mesclam de uma maneira audaciosa. A voz inconfundível e enérgica de Elza transmite a força e resiliência da mulher brasileira de forma arrebatadora, enquanto as letras impactantes abordam corajosamente temas sociais e políticos, com uma autenticidade impressionante. A produção impecável, a fusão de estilos musicais e os versos comoventes criam um retrato do Brasil contemporâneo. A Mulher do Fim do Mundo é um marco na carreira de Soares, sendo essa uma poderosa declaração e uma reinvenção que ecoa através das gerações. — Brinatti

6

SOPHIE: OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES

O álbum de estreia de SOPHIE distancia-se muito de sua primeira mixtape PRODUCT: desta vez, a cantora, produtora e DJ responsável por uma das grandes revoluções na música eletrônica enfocou suas energias na criação não de sons esquálidos e mesmo paródicos — como nas faixas “VYZEE” ou “HARD” —, mas sim de mundos completos em um futuro distante, embora possível. OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES, que convenientemente soa como “all of every pearls, an insight”, flutua pelas bases do eletrônico, ambiente, industrial e mesmo o pop convencional de Madonna na referenciável “Immaterial”. Para tanto, SOPHIE traçou perspectivas que vão além da música em si e passam a tratar da realidade e do conceito de existência. Para defini-lo, muitas pessoas podem utilizar as palavras “de outro mundo” ou “sobrenatural”. Estariam enganadas. Este é um disco encantador e mesmerizante, mas tal coisa só poderia ser realizada, aqui, na Terra. O nível de complexidade das camadas sonoras, por exemplo, da balada ambiente e assombrante “Infatuation”; ou do comentário social e filosófico escondido atrás de batidas eletrônicas pesadas e vocais distorcidos de “Faceshopping”; ou, por fim, a sentimentalidade original e genuína de “It’s Okay To Cry”, tudo isso é obra da imaginação humana. Somente o poderia ser. Na descrição da transmissão do álbum no YouTube, SOPHIE declara: “This is an album for myself, my friends, and all of the sweet people that have supported me and inspired me, I love you. Let’s celebrate.”. Apesar da trágica, cortante e, infelizmente, definitiva partida de Sophie, OIL OF EVERY PEARL’S UN-INSIDES deve ser imaginado não com tristeza, pesar e consternação; em vez disso, a alegria pura de se ter sido possível compartilhar aquilo que provavelmente viveu solitário durante anos na mente de um dos maiores gênios artísticos que a história já presenciou. Vamos celebrar. — Kaique Veloso

5

Beyoncé: Lemonade

Lemonade, o revolucionário álbum de Beyoncé lançado em 2016, solidificou seu lugar como uma das maiores artistas de todos os tempos. Com uma narrativa pessoal profundamente emocional, o álbum explora as nuances do amor, da traição e do empoderamento, permitindo que os ouvintes façam uma conexão íntima com a jornada da estrela norte-americana. Ao revelar sua vulnerabilidade e força, Beyoncé se destaca como uma artista autêntica e corajosa, transcendendo as expectativas da indústria do entretenimento.

Além de suas experiências pessoais, o projeto traz uma relevância cultural poderosa. A cantora usa sua plataforma para promover o empoderamento feminino e abordar questões fundamentais relacionadas à experiência da cultura negra. O álbum se tornou uma ferramenta para discutir temas como o feminismo interseccional e a luta contra a discriminação racial, mostrando o impacto significativo que a música pode ter na conscientização e no ativismo social.

A musicalidade do álbum é excepcional, apresentando uma fusão habilidosa de diversos gêneros musicais. Do R&B ao hip-hop, do soul ao rock, Beyoncé demonstra sua versatilidade como artista e eleva cada faixa com sua poderosa voz e letras perspicazes. As colaborações com outros talentosos artistas como Jack White e Kendrick Lamar adicionam camadas extras de profundidade e significado ao álbum, destacando a habilidade de Beyoncé em unir vozes diversas em uma narrativa coesa.

O lançamento foi acompanhado por um filme visual, uma abordagem inovadora que enriqueceu ainda mais a experiência do público. Ao combinar música, narrativa cinematográfica e mensagens sociais, Beyoncé demonstrou sua genialidade como artista completa. Lemonade é, portanto, uma obra-prima que transcende os limites da música, elevando a cantora a um patamar incomparável na indústria do entretenimento e reforçando sua posição como uma das maiores artistas e influenciadoras culturais de todos os tempos. ー Gerson Monteiro

4

Lana Del Rey: Norman Fucking Rockwell

Quando Lana Del Rey lançou Norman Fucking Rockwell!, em 2019, ela já era uma pessoa totalmente diferente da artista que era quando estreou quase dez anos antes. Nessa quase uma década de carreira, Lana lançou cinco álbuns de estúdio, mas redefiniu os símbolos da cultura pop incontáveis vezes. Seu primeiro registro, Born to Die, de 2012, e o seu sucessor, Ultraviolence, de 2014, foram marcos entre os jovens consumidores do mercado underground e não demorou para que ela atingisse o mainstream — mais rapidamente, ainda, suas polêmicas e o lema “queria estar morta” se popularizaram dentro da cultura pop emergente da última década. Isso, no entanto, teve um preço: enquanto seu estilo se concretizava como um dos mais marcantes, sua autenticidade e caráter era igualmente questionado. Alguns anos depois, com Norman Fucking Rockwell!, Lana não só sedimentou de vez sua assinatura, bem como provou seu triunfo e valor como a melhor nova grande compositora estadunidense. 

Esse, sendo seu quinto e mais elegante registro até hoje, não é apenas um reflexo de anos e anos de trabalho duro, lutando por seus próprios ideais, mas também uma carta aberta para cultura e sociedade norte-americana decadente. Norman é um registro pautado por um saudosismo californiano setentista e suas estruturadas seguem padrões acadêmicos, quase elitistas, mas que ainda são capazes de espalhar suas raízes para todos os lados: as letras de Lana podem sair de grandes livros de poesia, mas também respingam fácil em legendas de Instagram. Na mais de uma hora de duração, Del Rey mesmeriza sobre amor, perda, morte, paixão, violência e esperança, sistematizando um conjunto de temas que encapsulando perfeitamente o que o “sonho americano” se tornou — ou o que ele sempre foi. Seu som, por sua vez, produzido por Jack Antonoff, é um pop indelével e teatral, composto por pianos de calda, violões empoeirados e arranjos quase visuais. 

Norman soa como um agrupamento das melhores canções já lançadas por Del Rey. Na canção de abertura, a figura de Rockwell é usada como metáfora para um homem imaturo apaixonante, ao posso que “Venice Bitch” é um monstro de quase dez minutos de duração composto por crescendos de sintetizadores que dão vida ao imaginário de uma Califórnia paradisíaca. “The greatest” é seu comentário mais ácido e direto para o seu país (“The culture is lit and I had a ball / I guess I’m signing off after all”) e “hope is a dangerous thing for a woman like me to have — but i have it” é sua análise mais profunda de si mesma (“Don’t ask if I’m happy, you know that I’m not / But at best, I can say I’m not sad”). No final, porém, muito mais do que redefinir a carreira de Del Rey, Norman Fucking Rockwell! estava também reconfigurando toda cultura e indústria norte-americana de sua época. — Leonardo Frederico

3

Lorde: Melodrama

Em 2013, quando Lorde estreou com seu ótimo primeiro disco de estúdio, Pure Heroine, ela rapidamente se tornou uma protagonista de uma nova geração. Por décadas, jovens garotas talentosas foram postas de lado por não se encaixarem nos padrões impostos pelos chefões da indústria: “seu cabelo não é liso”, “seu corpo não tem curvas” e, simplesmente, “você não parece feminina o suficiente”. Lorde, por sua vez, desafiou essas limitações simplesmente por lançar sua música. Seu primeiro material era afiado, criticava cultura enquanto dava passos em direção a uma maturidade precoce. Embora ela não tenha sido a primeira mulher a fazer isso, a forma pela qual ela abordou tudo isso e conseguiu estourar sua bolha foi, definitivamente, um game changer: pela primeira vez, o grande público iria escutar o que uma jovem garota tinha para falar.

Se Pure Heroine foi o desenvolvimento de uma personalidade mais fortificada, o segundo registro de Lorde, Melodrama, deu alguns passos para trás para investigar não apenas o primeiro amor, bem como sua quebra e suas repercussões. Nesse movimento, Lorde permitiu-se ser mais vulnerável do que nunca, sem necessariamente perder tudo que aprendera nos últimos anos, entregando seu trabalho mais pessoal até hoje. O registro é uma manifestação flamejante de um relacionamento imaturo, iluminado igualmente por incertezas e esperança. No trajeto, Lorde compartilha sua experiência de sair da adolescência para se tornar uma mulher adulta e os empecilhos do processo de encontrar sua verdadeira “eu”. Por meio de suas composições singulares, a cantora nascida Ella O’Connor canaliza a energia frenética da juventude, enquanto enfrenta as complexidades de suas próprias emoções. Produzido por Jack Antonoff, Melodrama mescla ritmos new wave com toques de pop alternativo: “Green Light” abre o registro com uma progressão de piano barroco, que concretiza sua potência apenas no refrão; “The Louvre” transmite o êxtase compartilhado no amor; e “Hard Feelings/Loveless” é a projeção sonora sinestésica de finalmente permitir-se ter encerramento. Por esse fim, se com Pure Heroine, Lorde permitiu que jovens fossem ouvidas, em Melodrama, ela ensinou que nossas emoções também merecem espaço para falar. — Leonardo Frederico

2

Janelle Monae: The Archandroid

O afrofuturismo é, talvez, uma das ferramentas mais brilhantes que a cultura da diáspora africana já criou. Muito mais que uma estética cultural, ele também é uma filosofia, que traça uma confluência da negritude com a ficção científica através de artefatos artísticos e produtos culturais. O termo foi cunhado pela primeira vez pelo crítico cultural Mark Dery, no ensaio “Black To The Future”, de 1994, em que ele entrevista Samuel Delany, Greg Tate e Tricia Rose sobre a falta de autoria negra em obras do gênero. Desde então, o movimento ganhou forma e passou a ser propagado por diferentes acadêmicos e artistas. A premissa parte do princípio da herança escravagista e do terror racial que as pessoas negras vivem em todo o mundo, e de que, para criticar a realidade e construir alternativas, é preciso imaginar um lugar no tempo-espaço onde esse futuro já existe. Antes e depois da publicação de Dery, muitos trabalhos solidificaram os elementos propostos durante o século passado: o romance Invisible Man, do escritor Ralph Ellison, a HQ Pantera Negra, as pinturas de Jean-Michel Basquiat e o visual andrógino de Grace Jones, que se tornou um ícone inestimável da moda.

Na música, o jazzista Sun Ra é o ponto de partida. Na década de 1980, veio o techno, música eletrônica criada por DJs e produtores negros de Detroit, e, logo depois, artistas do mainstream passaram a incorporar os elementos dessa corrente. Seja pelo visual chocante e fora das convenções sociais, ou pela musicalidade vanguardista e que mirava o futuro. É o caso de Missy Elliott, com o clipe de “Supa Dupa Fly” e seu icônico macacão preto inflável com os óculos de sol cheio de strass. Porém, os estúdios de gravação da Bad Boy Records tinham uma preciosidade iminente chamada Janelle Monáe. Nos primeiros meses de 2010, ela lançava oficialmente seu primeiro álbum de estúdio e, com ele, formatava e mudava todas as estruturas do afrofuturismo dali em diante. Um projeto transgressor, opulento, composto por 18 músicas e inspirações diretas no filme Metropolis, de 1927, e Alice no País das Maravilhas.


Em uma empreitada pretensiosa, The ArchAndroid dilui as fronteiras artísticas possíveis e é grandioso em sua totalidade. Há uma transfusão de R&B, soul psicodélico, art-pop e funk, com produções únicas e que constroem uma experiência sonora cinematográfica que aproxima passado e presente. O tom é dado através de overtures instrumentais, interpretadas por orquestra e que dividem os dois atos da obra, pela mistura implacável de voz cantada e rap e a dinamicidade harmônica entre as faixas. Com uma narrativa não-linear, o álbum trata de partes importantes da história de Cindy Mayweather, uma androide de 2079 residente da cidade de Metropolis. Passeando por alegorias, metáforas e muita linguagem poética, a artista injeta sua influência nas veias que guiam o afrofuturismo e faz um comentário sobre as vivências atuais de pessoas marginalizadas, principalmente queer negras — e isso está representado na euforia de “Dance or Die” e “Tightrope”, passando pela ludicidade de “Sir Greendown” e “Wondaland”, e chegando ao final arrebatador de “BaBopByeYa”, uma música épica de nove minutos, dividida em quatro partes. É uma honra pensar que, logo no começo da década, uma das estreias mais emblemáticas e poderosas aconteceu, capazes de influenciar um movimento por inteiro. Existe um marco que separa o Afrofuturismo do Neo-Afrofuturismo, e ele se chama Janelle Monáe. — Felipe Ferreira

1

Kendrick Lamar: To Pimp a Butterfly

Nos últimos anos, a indústria fonográfica e os segmentos de arte e entretenimento dos Estados Unidos têm visto um movimento acontecer: o chamado Renascimento Negro. Músicos, atores, diretores e todos os agentes fomentadores de cultura preta estão assumindo protagonismo, criando várias das melhores produções artísticas dos últimos anos. Em 2021, o historiador Ibram X. Kendi se aprofunda sobre o tema no projeto “The Renaissance is Black”, realizado em parceria com a revista TIME. Em seu artigo próprio, ele desenha o panorama contextual e histórico sobre a arte negra estadunidense e retrata que a direção atual é sobre a identidade: “o Renascimento Negro está instigando pessoas negras a serem elas mesmas. Totalmente. Sem remorso. Livremente”. 

Por coincidência, Kendrick Lamar lança To Pimp a Butterfly no mesmo ano em que o Black Lives Matter se torna um movimento concreto, momento que Kendi define como o ponto de partida do Renascimento Negro começar de verdade. Antes, o rapper trazia suas vivências de adolescência para o centro narrativo dos seus projetos. Agora, como homem adulto e direcionado ao estrelato, ele precisa lidar com as armadilhas que o capitalismo, a cena do rap e a indústria como um todo articulam contra os seus talentos negros. Ao lado de grandes colaboradores de peso, como Dr. Dre, Pharrell Williams e Thundercat, o melhor álbum de hip-hop da sua geração nasce a partir de um eu-lírico que se perdeu: deixou de ser uma voz do seu povo para se tornar o estereótipo de rapper recém-rico, ludibriado pela luxúria da fama. Em pouco mais de uma hora, uma jornada de tirar o fôlego comanda os rumos desse personagem, que trilha um caminho imperfeito e cheio de nuances para interpretar.

Amor-próprio e ódio, fama, depressão, violência, raça e política são os temas basilares que guiam as rimas rasgadas e as metáforas culturais contundentes de Lamar. Jazz, funk e poesia falada se misturam ao hip-hop politizado, proporcionando texturas sonoras e combinações instrumentais refrescantes ao gênero. Do sample de “Every Nigga Is a Star” em “Wesley’s Theory” à simulação de uma entrevista reflexiva e empoderadora com Tupac Shakur em “Mortal Man”, os desdobramentos da narrativa são tortuosos e agonizantes, mas o destino final é de autoconhecimento. É um projeto catártico, dotado de complexidade e, por vezes, sem medo de se contradizer ou despertar sentimentos negativos em relação ao seu protagonista. E essa é a sua beleza, que o torna tão fundamental e o põe como uma obra essencial da década passada. Ele é, em sua essência, formado por algo que nos foi negado por tanto tempo: humanidade. — Felipe Ferreira

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