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#OPINIÃO: Os remixes de Taylor Swift não são tão ruins quanto todos pensam

Swift não está fazendo nada fora do ordinário, ao passo que também reconquista aquilo que é seu.
Matt Winkelmeyer/GI for The Recording Academy
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EM 06/03/2023

Desde o começo de sua carreira, até 2019, Taylor Swift lançou apenas doze remixes oficias para suas canções — vale citar que estou contando como remixes aquelas novas versões feitas por outros artistas e não releituras para rádio, transmutações para novos gêneros, versões ao vivo ou acústicas. Porém, de 2020 para cá, esse número já é de dezenove. O mesmo acontece para EPs: nos 13 primeiros anos de sua carreira, Swift lançou apenas dois, ao passo que, desde 2020, quinze foram registrados no nome da cantora — grande parte deles são apenas coleções das canções de seus álbuns, mas ainda assim são tidos como EPs. Embora muitos argumentem que isso é apenas uma forma de Swift de lucrar (ainda mais) em cima de própria obra, isso é uma questão que vai um pouco além — ainda que se mantenha em questões de mercado — visto que Swift não está fazendo nada fora do ordinário, ao passo que também reconquista aquilo que é seu.

No primeiro caso, referente aos inúmeros remixes que ela lançou, principalmente para seus últimos singles — “Anti-Hero”, “Lavender Haze”, “Cardigan” e “Willow”, bem como “All Too Well”, que não recebeu propriamente remixes, mas sim novas versões acústicas e com novas instrumentações —, não é difícil ver pessoas acusando a cantora de um “desespero” para assegurar suas posições dentro das paradas da Billboard. Por mais que isso seja, relativamente, verdade, não é como se Taylor fosse a única que tivesse feito e ainda fizesse isso. Desde os anos 1980, é comum artistas e gravadoras lançarem remixes para impulsionar as vendas. Olhando para discografia de, por exemplo, Madonna, canções como “La Isla Bonita”, “Like A Prayer”, “Express Yourself” e “Vogue” receberam vários remixes — um número maior se comparado com Taylor, inclusive. Também, SZA lançou suas versões de “Kill Bill”, ao passo que Ariana Grande e The Weeknd também tiveram sua parcela nisso com uma nova versão de uma canção de 2016, “Die For You”, que também surgiu com diferentes versões — que não são bem releituras no sentido claro, volto nisso logo em seguida — para levantar ainda mais os números da canção. Mas me pergunto: por que o problema só acontece quando é Swift que faz isso? 

Os remixes de Swift, no entanto, sinceramente, são um pouco mais nobres. Digo isso porque se você olhar para os remixes lançados por Madonna, SZA, Ariana Grande e The Weeknd, grande parte deles consistem apenas de versão alternativas baratas. Na maioria, o que acompanha a canção original é o instrumental, vocais e uma versão acelerada — pensando exclusivamente para o TikTok. Taylor, por outro lado, raramente trabalha com essas versões, convidando os mais diversos DJs e artistas amadores para trazer uma nova roupagem para seu trabalho. O melhor exemplo é Elvira, que rapidamente se tornou uma querida de Swift e inclusive chegou a produzir algumas canções da regravação de Red, lançada em 2021. Nomes como: Tensnake, Snakehips, Jungle, Felix Jaehn, Kungs, Roosevelt, Jayda G e outros tiveram oportunidade de trabalhar com a maior estrela pop do nosso tempo, uma oportunidade que cantores como The Weeknd e Ariana Grande não estão dando. Então, me pergunto novamente: por que está tudo bem para cantores lançarem remixes baratos, mas é errado Swift entregar propriamente remix e dar visibilidade para artistas menores? 

Em paralelo, ainda que não seja o assunto principal dessa escrita, os inúmeros EPs que Swift lançou no ano passado também foram vistos como outra forma exagerada dela lucrar em cima, mais especificamente, de seus fãs. Embora eu não o negue, a razão para esses existirem é mais profunda do que apenas isso. Desde 2019, Swift vem se movimentando para reconquistar seus seis primeiros álbuns, os quais ela perdeu os direitos autorais quando migrou para sua nova gravadora, Republic Records. O fato é que, nos serviços de streaming, a separação de faixas não é feita por nome, mas sim códigos na metadata. Por exemplo, “Lover (Single Version)” tem um código, ao passo que “Lover”, tocada diretamente do álbum, tem outro código. Com isso, vê-se que o catálogo antigo da cantora, em linguagem de código, é mais extenso que aquele sob seu domínio. Nesse sentido, as chances dos algoritmos de tocarem algo antigo de Swift é maior do que de tocar algo novo. Assim, os EPs, chamados por Swift de capítulos que agrupam canções que fazem sentido juntas, são uma forma de aumentar o número de códigos que ela tem direitos sobre. Dessa forma, “cardigan”, tocada diretamente de foklore, terá um código, ao passo que “cardigan”, tocada de um dos EPs, terá outro. Com esse aumento no número de códigos de canções que realmente pertencem a Swift, as chances do algoritmo tocar algo que seja genuinamente dela é maior. 

Eu fiz duas perguntas ao longo do texto e penso que a resposta para as duas é a mesma: seletividade. Desde o começo de sua carreira, Swift vem jogando justo no jogo, mas essas jogadas nem sempre são reconhecidas da forma que deveriam. Isso me lembra dois momentos específicos ao longo dos seus quase 16 anos de carreira. Enquanto no primeiro, ela argumentava sobre as pessoas acusarem-na de apenas escrever músicas amorosas sobre término, mas amarem qualquer coisa lançada por Ed Sheeran ou Bruno Mars; em seu discurso no Woman in Music de 2019, ela relembra como as pessoas veem seus movimentos mercadológicos como erradamente calculista, à medida que o mesmo, mas executado por um homem, é tido como expertise. No final, o problema das pessoas com qualquer coisa que Taylor faça é apenas uma tentativa falha de derrubar a mulher mais forte no jogo da indústria musical atual. 

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