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#OPINIÃO: O Ministério da Cultura de Lula precisa traçar planos para diminuir o poder dos sertanejos na música brasileira.

A relação desigual do sertanejo com o restante dos gêneros musicais nacionais precisa ser combatida urgentemente.
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EM 18/01/2023

No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, a música sertaneja, sustentada por um ideal vendido pelos grandes latifundiários, passou a dominar todos os setores musicais nacionais. Isso aconteceu, em maior quantidade, durante a onda de fortalecimento da agropecuária, que se estendeu pelo país graças às medidas econômicas adotadas pela pasta do governo da época e que, inclusive, ganhou força também na era petista após 2003.

Na esteira de crescimento do agro ao longo dos anos, o sertanejo universitário tornou-se, então, uma espécie de propaganda do latifúndio. Quem nunca ouviu por aí que o agro carrega o Brasil nas costas? Pois bem, é justamente essa linha de pensamento — no caso, a ideia acerca do dever em cultuar os nossos benfeitores agrícolas — que fez com que a expansão sertaneja atingisse índices que hoje são, de certa forma, estratosféricos, senão alarmantes.

Quando não há espaço para que outras produções culturais, no eixo da música, se desenvolvam com devido reconhecimento, a variedade diminui, e, consequentemente, cria-se um monopólio injusto. Presumindo os fatos, é possível dizer que o sertanejo, no seu patamar atual, consegue dar e receber muito dinheiro sem qualquer regularidade — veja os escândalos envolvendo os contratos milionários das prefeituras com os shows de artistas como Gusttavo Lima.

Hoje, a situação é bem pior. Com o surgimento das plataformas digitais, o monopólio da música brasileira nas mãos dos cantores de sertanejo universitário é extremamente superior a qualquer outro gênero. Nem mesmo o funk, que havia se popularizado intensamente e de forma orgânica nos últimos 20 anos, teve a chance de conquistar tanto espaço assim.

Com o Governo Bolsonaro e o fim do Ministério da Cultura, o sertanejo, amplamente apoiado pelos empresários do campo, conseguiu ficar intacto enquanto acontecia um verdadeiro desmanche cultural em diversas áreas do país. O incentivo fiscal aos cantores do agro mais que dobrou, basta ver como grandes nomes desse segmento não hesitaram em demonstrar apoio ao ex-presidente durante as eleições.

Agora, a Ministra Margareth Menezes, responsável pela nossa cultura nos próximos quatro anos, deve ser incisiva no combate às irregularidades da música sertaneja. Essa relação desigual com o restante dos gêneros musicais nacionais precisa ser combatida urgentemente. É necessário, sobretudo, acabar com a falácia de que o sertanejo é a música povo, pois não é. Pode até ter sido um dia, mas hoje, o sertanejo é a música do latifúndio e precisa ser enfrentado como tal.

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