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#OPINIÃO: O hyperpop não é mais o que costumava ser

Por mais avassaladora que tenha sido sua ascensão, o cenário hyperpop enfrenta um período conturbado atualmente.
HDStudio/for Reflections photoshoot
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EM 11/03/2023

Então… há esta coisa: nos dias de hoje, o cenário pop e hipereletrônico está demasiadamente carregado e estufado de artistas que não necessariamente cumprem os mínimos critérios para se caracterizarem como hyperpop. Não basta apenas saber usar o autotune para tornar seus vocais agudos e esquálidos. É necessário possuir uma certa identidade, a qual não deve ser tomada erroneamente como parte de um grupo que apela para sons estrondosos e modificados, mas que faça uma reflexão — ainda que descontraída e divertida — sobre a contemporaneidade permeada pela tecnologia, pela Internet e por sua configuração cada vez mais individualista, fria e consumista.

Mas, primeiramente, é preciso entender o que é esse subgênero da cultura pop. Baseado em influências do bubblegum bass do final dos anos 2000 e eletropop do início dos anos 2010, essa massa amorfa e inconstante de pop e eletrônico — com vocais notavelmente alterados até a sua completa desnaturação e letras ligeiramente infantis ou fúteis — nasceu sem nome, mas com uma grandiosa pretensão: fãs de pop fazendo pop da forma mais exagerada e caricata possível. A ideia é que, se, por muito tempo, a cultura popular musical foi subjugada por outros gêneros — com o movimento de críticos musicais especializados em rock e hip-hop, o Poptism —, era hora de mostrar que, na verdade, o pop era a mais fiel representação da vida moderna irrealista mediada pelo capitalismo fatigado e fatigante. “Hey QT”, pode exemplificar isso bem, já que nela se foi criada uma modelo para vender uma marca de refrigerantes fictícia chamada “QT”, que também dá nome a cantora. A atriz, que é interpretada por Hayden Dunham — anos depois, lançou-se também pelo pseudônimo de Hyd —, canta, com voz aguda como os sapatos novos num corredor de escola, sobre sentir a presença de sua paixonite mesmo quando ela não está lá com você. Foi com esse sentimento que ela teve o desejo de espalhar essa ideia em forma de líquido gaseificado no mercado das massas.

Nesse ínterim, aliás, que o nome hyperpop, nasceu propriamente dito, o fruto de uma marca do mercado das massas: o Spotify. Esse subgênero da cultura pop flutuou por muito tempo em suas bases não planejadas até que uma playlist do Spotify reuniu esses artistas — vindos principalmente da PC Music, gravadora britânica fundada por A.G Cook — em um único espaço chamado hyperpop. Demorou bastante até que os artistas de fato se identificassem com esse rótulo, afirmando que o que faziam era, na verdade, apenas música pop. Charli XCX até brincou desconhecer o ritmo quando tuitou: “What is hyperpop?”. 

Em fato, vejo que o movimento mudou muito desde seu surgimento. No começo, de volta a 2013, até 2017, o hyperpop era mais focado em músicas sutis, fofas, superficialmente infantis e inspiradas no pop coreano e japonês. Nessa época, os artistas mais expoentes foram A.G Cook, Charli XCX, Hannah Diamond e SOPHIE, que podem ser considerados, de fato, fundadores dessa vertente. Em seguida, num cenário pós-2018, percebo que houve a introdução de guitarras extremamente distorcidas com volume muito alto, experimentação ainda maior com sintetizadores e sons metálicos, aproximando-se, assim, os gêneros do rock, do noise-pop e do industrial. Das personalidades que mais se destacaram, com certeza vale pontuar 100 gecs e Dorian Electra.

No entanto, é a partir da década de 2020, que os problemas começam a aparecer. Diversos artistas estão em hiato incessante, a perda trágica e súbita de SOPHIE, outros passam a desatar do gênero e uma porção expoente de jovens que querem fazer música com seu laptop. O hyperpop está em crise. Quando todo um estilo se baseia na construção de piadas, ironias e sarcasmos, mas quem chega depois não entende como fazê-los, o objeto da piada deixa de ser a música, deixa de ser divertido, interessante, instigante ao ponto em que não se sabe mais do que se está rindo. Houve uma avalanche de adolescentes, com sua paixão por música e o desejo de ser edgy, que entraram para a cena hipereletrônica. Contudo, esses não faziam hyperpop, mas um bedroom pop, com influências do rap e, óbvio, o autotune que mascara sua falta de relação social. Ainda que eles estejam caminhando sobre a rota errada, na minha opinião, a culpa disso deve ser dividida com outras pessoas. 

Expliquem-me: de que maneira razoavelmente lógica “Where Are Ü Now?”, de Justin Bieber, se encaixa na playlist hyperpop? Esse é apenas o exemplo mais extremo, porém, na minha visão, também é um erro classificar Arca como uma artista de hyperpop. Ela não o é. Ora, em seus trabalhos mais melancólicos, Arca é art-pop; em seus trabalhos mais abrasivos, como KiCk iii, Alejandra trabalha as vertentes da música eletrônica experimental e IDM, mas que nada tem a ver com as bases do hyperpop. Em outro exemplo, você provavelmente já se deparou com um vídeo no YouTube intitulado: “Hyperpop: How Charli XCX Created a New Genre”, mas o intrigante é que, na capa do vídeo, vemos uma colagem de álbuns que inclui SAWAYAMA, de Rina Sawayama. Isso é sério? Rina atingiu a perfeição pop em seu primeiro EP e a combinou com o rock em seu álbum de estreia — e, para adiantar, não, Hold The Girl também não é um álbum hyperpop.

Enfim, lembra-se quando você abriu seu Spotify Wrapped de 2021 e viu “Metropopolis” como um dos seus gêneros preferidos? Ninguém sabe o que isso significa até hoje. Assim como o Spotify tentou reunir artistas pop da cena alternativa e fora do mainstream em uma única categoria de nome impronunciável, uma parte do público viu no hyperpop uma oportunidade de reunir tudo aquilo que era esquisito, ousado, que usasse o mínimo de distorção vocal e pudesse ser chamado estupidamente de “bate-panela”. Ver até Björk sendo encaixada nessa posição — quando a maior parte de seu trabalho está mais próxima de Johann Sebastian Bach do que de Dylan Brady e Laura Les — é ultrajante. E, quando Charli tentou e conseguiu irromper no mainstream com um álbum comercial, CRASH ainda ouviu ressalvas questionando se ele era ou não um álbum de hyperpop. Apesar de tudo isso, essa não é uma sentença de morte. Todos os anos ainda veem-se grandes e ótimos lançamentos no cenário. Entretanto, ainda resta uma fagulha saudosista que acende o questionamento: o hyperpop não é mais o que costumava ser.

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