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#OPINIÃO: Azealia Banks erra feio ao comentar a indústria musical brasileira

Já passou da hora de alguém rebater as críticas da rapper estadunidense.
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EM 28/10/2023

Em 1976, com um toque incrementado de melancolia dantesca, Belchior lançava Alucinação, que em suas idas e vindas demonstrava uma caracterização sul-americana digna de Torres-García. E na faixa “A Palo Seco” cantava:

“Tenho vinte e cinco anos
De sonho e de sangue
E de América do Sul
Por força deste destino
Um tango argentino
Me vai bem melhor que um blues”

Já em 2021, o sempre impressionante DJ Wizard –  com Léo da 17 e DJ Nogueira – deu vida ao absurdo “ROCK N’ ROLL DO SUBMUNDO DA D27” que segue assim:

Tira o lança da boca
E balança o pote
Levanta a mão pro alto
Faz o sinalzinho do rock”

É óbvio: a diferença entre as duas músicas é gritante, não em qualidade, mas na forma. Isso, no entanto, não impede uma ironia deliciosa de acontecer: ROCK N’ ROLL DO SUBMUNDO viralizou no aplicativo TikTok, e absolutamente tomou uma parcela de gringos (lê-se: norte-americanos) de supetão: que som é esse? E como o Brasil, de todos os países, conseguiu chegar nele? É claro que Belchior vivia em políticas diferentes, em uma América Latina largamente destoante, mas seu pensamento ainda continua atual: nada melhor que um produto interno, algo autóctone, algo tão nosso e tão único que precisamos exportar.  

Nessa leva, um caso que toca nessa noção ganhou relevância na última semana: a artista estadunidense Azealia Banks escreveu sua própria versão do Manifesto Antropófago, comentando – de forma levemente tacanha e amplamente superficial – suas ideias sobre o mercado artístico e fonográfico brasileiro.

A queridíssima dona do hit “212” começa seu texto defendendo a bossa nova, que ela define como um belo gênero musical cheio de “Graça, sofisticação e complexidade”, até aí, até João Donato concordaria. O problema vem depois: Azealia advoga que se o Organismo Brasileiro (que vive, sente, pensa e ouve conselhos dados por celebridades) abraçasse a beleza da bossa, então nosso proto-pseudo-soft-power ia florescer, adjunto ao jazz, para dominar massivamente, de forma musical, o mundo (mundo mesmo, o planeta todinho). É claro que Azealia esquece um ponto importante: a bossa foi exportada,  para lugares tão além-mar quanto o Japão. Alguns críticos diriam até que a nova-moda brasileira foi criada especificamente para ater e agradar públicos no exterior (lê-se: antigas metrópoles coloniais e alguns outros entusiastas da técnica imperialista), tarefa que foi cumprida a esmo: afinal, Tom Jobim tem um álbum de bossa nova com ninguém menos que Frank Sinatra, um dos artistas mais rentáveis da história.

Seguindo, Banks comenta e critica a obsessão brasileira com o anglo-pop e sua estética, pontuando especialmente a atração pelo lado low-quality desse mesmo pop. A artista, entretanto, não entra numa seara importantíssima da questão: o Brasil não toma referências nos EUA, e não, digamos, no tango argentino ou na litúrgica hindu indiana por própria ideação, e sim porque esse é o caminho mais rentável – e sobretudo mais fácil – de ascensão dentro da indústria musical.  

Entretanto, nem tudo são erros no pensamento de Azealia: a cantora acerta de forma ferrenha quando aponta o racismo que permeia as relações socioculturais no campo da arte, afinal, não à toa Vinicius de Moraes demorou para escrever o mísero cumprimento “Porque o samba nasceu lá na Bahia / E se hoje ele é branco na poesia / Ele é negro demais no coração” em Samba da Benção de 1967. O racismo é profundo na ruptura da bossa com sua origem no samba, na afrodescendência, na lida e na luta do povo às margens do belo apartamento de Nara Leão, e também é profundo na escalada farpada do funk até o status de viral do TikTok. Se houve o amadurecimento dos ouvintes e dos músicos, a ponto de necessárias remediações desse problema, houve aí também o embranquecimento, o afastamento de quem labutou para um espaço sob o sol, e hoje se vê descartado, esquecido. A crítica ao Latin Jazz dos Grammy’s também é pertinente. O que configura um jazz latino?

Dados os júbilos, voltemos ao caos. Banks configura batidas ruins de Reggaeton como cópias fajutas de Dancehall, nada de muito errado além da generalização grosseira de ambas as partes, e diz que o desespero cultural (que, penso eu, seja atrás de referências artísticas externas) torna o Brasil um dos mercados mais insignificantes do mundo. Tirando o joio do trigo: o Brasil não é insignificante nem em capital, pois configura no top 10 mundial, nem em diversidade, pois eu aposto que você consegue, ou chega perto, de enumerar 20 gêneros completamente brasileiros. Mas é insignificante frente o arroto prepotente do imperialismo cultural americano. Azealia esquece – e faço questão de pontuar – que nenhuma música moderna existe num vácuo, que mesmo as vanguardas do Progressive a raíz do Proibidão brasileiro ou o Khoomei da Mongólia nasceram longe de influências, de contatos, de trocas. A joia rítmica estadunidense aos olhos de alguns, o Jazz, se transformou principalmente pelo contato com religiões asiáticas, com comunidades hispânicas, com a própria bossa-nova. O eletrônico contemporâneo se delicia com a agressividade de um Bruxaria, com vocais da tropicália, com ritmos bantus, com o caos das grandes cidades, com a beleza do respiro numa sala lotada de gente feliz, dançando.

No término, a rapper se reduz a pedir mais relevância para as Morelenbaums, para as Ludmillas, para as Conkás de nosso país. Todas são artistas em mérito e em estatura – ainda que não houvesse mérito – a arte não se configura baseada na forma ou no conteúdo daquela ou de outra obra, e sei que Banks sabe muito bem disso. 

O que Azealia convenientemente se esquece, é que enquanto a frente monetária da indústria musical continuar indo de jato para Nova Iorque, e depois voltando para Los Angeles, num ciclo que arroga o poder e a ignorância do controle artístico na era do Streaming, então os afoxés, os proibidões, os sambas-enredo, os bakosós, as rancheras, os folclóricos – a raiz cultural – corre risco de definhar. De tanta supressão já não se tem nacionalidade, particularidades, força. Haja Electropop para nos manter.

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