o temporal EP
2022 • POP/ROCK • MARÃ MÚSICA
POR LEONARDO FREDERICO; 04 de MARÇO DE 2022
7.5

Os anos 1980, após décadas de incubação, foram o momento mais prolífico para o rock no mercado nacional. De uma burguesia ascendente no triângulo São Paulo, Rio e Brasília, bandas (quase) independentes surgiram no cenário mais propício para a produção cultural que tanto visavam: a ditadura. Na época, grande parte desses grupos, formados por jovens influenciados tanto pelos movimentos dos novos cinemas mundiais, quanto pela esquerda, se viam como responsáveis por trazer uma nova visão para a juventude brasileira, com intenção e caráter de justiça social. Pelas dificuldades por serem artistas sem grandes gravadoras, as fanzines, revistas amadoras de trabalho voluntário sobre determinado assunto, foram responsáveis pela divulgação desses artistas. Um legado histórico nascia dali.

Quase quarenta anos depois, os mesmos moldes se repetem. Em um cenário político-social tenso da decadência social brasileira, novos artistas e bandas surgem de forma totalmente independente, muitos desses em universidades públicas, usando o contexto da derrocada da nação como plano de fundo para seu trabalho. Embora essas características tenham se espalhado para todos os outros gêneros, o rock ainda segue sendo o mais forte. Nesse sentido, a banda brasileira o temporal, formada pelo vocalista Guilherme Prado, guitarrista Gabriel Scafi e baixista Marcelo Feliciano, em Campinas, São Paulo, emerge desse panorama. Seu EP de estreia autointitulado é uma amálgama de odes sobre autoconhecimento e amadurecimento perante o caos. 

Em suas entrelinhas, o temporal é sobre medo. O sentimento é o eixo emocional principal, o agente essencial para essa narrativa substancial clara de anseio pela maturidade: o medo de nunca ser quem você é, de ser esquecido, de não ter um legado, de abrir os olhos e dar os passos de cada dia. É um espelho acertado sobre aquele momento em sua vida em que você não é nem um jovem e nem um adulto; quando você percebe que a vida não é como uma flecha que segue caminhos retos, mas sim que ela faz curvas que farão você se odiar. Enquanto na abertura “Olhos cansados”, Prado estabelece uma ambiguidade entre quebrar com sua vida para estar com alguém que você ama e o desejo de fugir de uma alienação; na canção seguinte, “Tela azul”, ele percebe que a jornada nem sempre é tão fácil. “Sou medo de não ser capaz, enfim / E nunca me sentir / Inteiro, em paz com quem eu quero ser”, Gabriel canta.

Em sua página oficial do Instagram, o temporal se define como: “uma banda de indie rock? rock malhação? a volta do emo? vc decide”. De certa forma, seu primeiro registro é uma mistura de todos esses gêneros. Ao passo que “Olhos cansados” ecoa como os primeiros trabalhos do Beach House pela supressão dos vocais pelos instrumentais, que cria uma sensação onírica; “Maior”, a música mais desinteressante do EP, soa como algo feito pelos astros de Malhação nos anos 2000. Nesse ínterim, as duas melhores canções, “Luzes” e “Alguém”, se contrastam: a primeira é complexa, com pianos que lembram trilha sonoras dos anos 1990 e vocais atmosféricos, e a segunda trabalha com a simplicidade de cordas cruas. No entanto, o ponto forte é a composição, com ambas conversando como epifanias. “Me lembro e volto a esquecer / Que o tempo sabe mais que eu”, Gabriel canta na primeira e segue na segunda: “O escuro dá mais medo antes do sol raiar”. Na última peça, eles ainda não chegaram ao seu objetivo — “Sem medo de partir / Sem ter aonde chegar” —, mas foram fortemente honestos até agora.  Desse modo, o temporal é poderoso sem muito esforço, justamente por causa da sua sinceridade.