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Riderless Horse

2022 •

Temporary Residence

8.6
Em seu primeiro álbum em doze anos, Nina Nastasia dosa ilustrações de amor e ódio, revivendo seu relacionamento abusivo de 25 anos.
Nina Nastasia - Riderless Horse

Riderless Horse

2022 •

Temporary Residence

8.6
Em seu primeiro álbum em doze anos, Nina Nastasia dosa ilustrações de amor e ódio, revivendo seu relacionamento abusivo de 25 anos.
16/11/2022

O processo de desenvolvimento orgânico de Riderless Horse, o sétimo disco de Nina Nastasia, começou há 25 anos, quando Nina Nastasia entrou em uma relação amorosa com seu ex-colaborador criativo, ex-agente e ex-marido Kennan Gudjonsson, com quem ela manteve uma relação abusiva por mais de duas décadas. Seu relacionamento começou antes mesmo da estreia de Nina, em 2000, com Dogs, disco que, como seus próximos seis lançamentos, teria as marcas de Gudjonsson, tanto em som, quanto em letras. Desde 2010, depois do lançamento de Outlaster, Nastasia e Kennan se mudaram para um pequeno apartamento em Nova Iorque, onde ela não só deixou sua carreira musical totalmente de lado, como também sua própria vida, vivendo subordinadamente sob agressões verbais e morais de seu companheiro. 

Todavia, no começo de 2020, pouco antes da pandemia se estabelecer, Nina deixou Kennan de uma vez por todas. No dia seguinte, menos de 24 horas depois, ele se suicidou. Logo em sequência, Riderless Horse começou a tomar forma, com Nastasia usando de suas letras honestas e sonoridade crua para relatar os primeiros meses de sua vida sem seu ex-companheiro, bem como relembrar os momentos mais intensos de sua relação. É um álbum de equilíbrio entre terror e paixão, doce e amargo, amor puro e ódio. Com um violão esparso acompanhando sua voz ocasionalmente gritante, a cantora procura, em Riderless Horse, atestar seus motivos para ter ficado e, posteriormente, ter fugido. Ela não tenta criar um manifesto final sobre os últimos 25 anos de sua vida, mas sim elaborar em cima dos sentimentos que explodem logo depois das erupções vulcânicas. Riderless Horse é dolorosamente verídico, mas um passo essencial para seguir em frente. 

Embora Riderless Horse seja o primeiro disco de Nastasia em vinte e poucos anos, seu calibre lírico apenas se refinou. Seu colaborador de longa data, Steve Albini, apresentado para Nina por Kennan, exerce grande presença nessas canções, na engenharia e produção, esse último dividido com a artista. Essas são canções de imaginário que andam em uma linha tênue entre pinturas imagéticas e metáforas. Em “This Is Love”, Nina se pergunta se sangue e socos são elementos formadores do amor (“Drawing blood until we both see black” e “Throw a punch or two and take a few, then rise above”), completando como a violência pode ser um fetiche e como isso tirou toda sua vida (“The violence excites him” e “And like a doll, I stand lifeless”) em “Nature”. Por fim, em “Ask Me”, quando aqueles perguntavam para ela porque ela nunca deixou ele antes, ela respondia: “But I can’t, I can’t / I know what’s next / I keep you alive as best as I can do”. 

Porém, são as canções que nem sempre retratam momentos turbulentos as mais dolorosas. “Just Stay in Bed” é a faixa de abertura do disco — se você desconsiderar o prólogo “Cork and Pour” e o epílogo “Creek and Chimes”, nas quais garrafas de vinhos são abertas e as águas correm. Nessa, Nina canta sobre os momentos amargos, mas que são disfarçados com beleza. “I like it here in bed, don’t push me out instead / If you miss me, I will pull down the sheets / There’s much we can do here, alone or together / Whatever you please, it will please me, I’m sure”, ela canta. Mais tarde, em “Blind as Batsies”, seu abusador vira um companheiro que ela nunca teve: “Tomorrow is a new adventure / Hearts of sorrow, hearts of pleasure / I love you and I know you love me”. Essas palavras que retratam os sentimentos mais bonitos, mesmo em meios aos ruins, doem mais do que os outros por seu contexto: seria genuinamente lindo se isso não tivesse terminado como o desperdício que terminou.

Em “Lazy Road”, Nina canta “I feel like I’m happy for the first time”. Dentro do cenário, não é tão preciso dizer se ela remete essa felicidade por seu companheiro estar vivo ou morto. Riderless Horse é um disco que não segue linhas retas e não se organiza da forma convencional de narrativas, mas isso não impede que seus sentimentos progridam gradualmente. “The Two of Us”, mostra possivelmente o primeiro episódio de confronto entre Nina e seu parceiro: “It’s hard to watch you be alone / But that’s on you / Don’t be telling me I’m wrong / They’re only choices”. Mas, o trecho mais forte se dá apenas na última canção, “Afterwards”, onde ela sumariza toda sua dor: “Now you’re dead and gone […] You still won’t let anyone but you / Hold on to me until it’s hard to breathe”. Chegando ao final desse texto, percebi que fui brando e me mantive apenas a citações. No entanto, penso que Riderless Horse, com toda sua simplicidade, não é capaz de ser descrito em formas convencionais. Para todos os casos, esse é um registro que você deve ouvir uma vez, pelo menos. Sua segunda ou terceira ouvida, entretanto, serão difíceis. 

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