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O Resgate do Maestro

2023 •

SoundFood Gang

8.8
O Resgate do Maestro: O álbum mais nILL da discografia de nILL.
Nill - o resgate do maestro

O Resgate do Maestro

2023 •

SoundFood Gang

8.8
O Resgate do Maestro: O álbum mais nILL da discografia de nILL.
08/08/2023

Davi Rezaque de Andrade, mais conhecido como nILL, surge em Jundiaí ao lado do coletivo Soundfood Gang e dos integrantes Yung Buda, Nikito, Chinv, ManoWill e DJ Buck em uma das cenas de rap que mais cresce no país. Seu primeiro projeto, Negraxa de 2016, já apresenta uma ideia do que virá a se tornar nILL. Porém, é apenas no lançamento de Regina (2017) que o artista marca seu espaço na cena.  As faixas “Wifi” e “Nego Drama pt II” são destaques dentro do seu projeto, com uma sonoridade única que surge a partir da mistura de uma série de elementos da cultura pop, como animes, filmes e músicas de diversos gêneros; influências digitais como jogos de videogame; e de sua trajetória ao crescer enquanto um jovem nerd na periferia.

Seus próximos projetos seriam marcados por uma expansão da sua sonoridade sem perder suas referências e versatilidade. nILL é um dos poucos artistas que conseguem fazer funcionar um trap sombrio como “Descendentes de Yasuke”, colaboração com Yung Buda, e ritmos mais lentos e inspiradas no  vaporwave como “Mulher do Futuro só Compra Online” de seu álbum Lógos de 2019. Em Blu, de 2021, podemos observar o mesmo contraste com o boom bap “Lenda” frente a “Control”, marcada por influências do neo-soul.

Outro importante exemplo da diversidade sonora de nILL está na série Good Smell, que conta com dois volume, lançados com 2 anos de diferença, sendo projetos que, ao mesmo tempo que parecem  universos completamente diferentes, orbitam temáticas parecidas. Tendo, de um lado, uma sonoridade mais “acanhada”  e do outro parece que o artista elevou à décima potência tudo que o torna único, contando com uma produção muito mais grandiosa. Para exemplificar, destaca-se a diferença de músicas como “Tia Ciata” frente à “Rosetta Tharpe”. Desta forma, é possível afirmar que a única constante do artista é que ele continuará expandindo seu som para as mais diversas vertentes, sem perder do horizonte suas referências.

Nesse sentido, O Resgate do Maestro surge como seu sétimo trabalho, dois anos após seu último álbum Blu.  nILL ressurge como um grande MegaZord no meio da periferia, passando quase despercebido, mas depois que se vê é impossível não perceber. Sendo produzido majoritariamente por “O Adotado”, nome de produtor usado por nILL, e pela dupla de DJs Deekapz o projetomarca uma sonoridade disposta a passear por diferentes estilos, mas sempre muito rodeada por samples e sintetizadores, reafirmando a capacidade de antropofagia do artista frente a multiplicidade de estímulos da televisão ao mundo digital que esse Maestro foi exposto. Dessa forma, é difícil dizer sobre o que é O Resgate do Maestro, entretanto, é fácil afirmar que esse é um álbum do nILL a partir do momento em que a maioria das características que fazem o artista, desde músicas mais introspectivas e lentas, até aquelas mais energéticas voltadas para o trap. Uma produção que bebe de diversas fontes, expandindo para além do hip-hop, porém, sem se distanciar dele, ao passo que, o boombap marca presença no disco; até mesmo o sample de dragon ball que o artista incorpora nas faixas dos discos anteriores está presente nesse projeto.

 nILL abre o  álbum com uma faixa mais introspectiva, marcado por elementos do neo-soul, com violino e teclados, nILL e Amariiniciamo álbum lembrando do passado e falando da construção de um presente, marcados por um discurso de vitória. “Pros nossos tá sem dúvidas / pros nossos tá sem dívidas / Sem dúvida / sem dívida, /põe ênfase no S!”. O disco segue para “PS1”, canção que possui o sample do som de abertura do console da Sony. Com uma sonoridade marcante e com a  narrativa sobre a vivência do jovem negro, periférico e  nerd™, ele vai rimando sobre Counter Strike, Racionais MC’s, Jedis, bancos, saques, cadeia alimentar e pessoas.

O álbum continua com a dupla “O que seria de nós” e “manga&maçã”, sendo a primeira, a nossa menção honrosa nos destaques do álbum, e não entrando nesse hall somente porque, quando ouvida dentro do disco, a transição entre “PS1” e ela soa levemente truncada. Essa dupla, somada a “18 horas de luz” compõem uma parte mais tranquila do álbum, bebendo de sonoridades múltiplas e discutindo pandemia, lockdown e o ritmo acelerado e imediato no qual vivemos. Essa primeira metade do álbum é encerrada por “Maestro”, faixa que já prepara o ouvinte para uma nova virada, com beat mais contínuo e uma forte influência melancólica.

A segunda metade do álbum abre com “Onipotente”, marcada por um instrumental forte, especialmente baixo e sax. nILL fala sobre a importância do seu trabalho, trajetória e amor-próprio, a faixa  já indica que o Maestro está mais maduro com esse sentimento. A partir desse momento o disco segue para a sua melhor sequência musical. Produzida juntamente com Deekapz e com participação da Mc Luanna, “Meia Milha” é um destaque mais do que positivo do álbum, contando com um beat forte, flows energéticos de ambos os artistas e versos que falam sobre raça, racismo, vitória e ancestralidade. Todas essas temáticas são abordadas de maneira criativa no refrão quando nILL rima: “Meia milha nessa idade, deixa um gole pra mais tarde / Meus irmãos compraram um iate, são da cor de chocolate / Se nos deram nível hard, trouxemos memory card / Cada linha, aumenta o passo, nome disso ‘cê já sabe”, encapsulando a ideia de que a realidade para pessoas pretas é mais difícil, nivel hard, porém, quando canta sobre não desistir, o artista também está falando sobre carregar consigo aqueles que vieram antes dele e sobre o jogar o jogo a partir de seus termos. Vale ressaltar aqui que o verso da Mc Luanna renova um flow já conhecido na cena paulista, cimentado pelas gêmeas Tasha e Tracie, porém, mudando sua cadência ao longo do verso, dando assim, um novo arranjo para a faixa.

O projeto segue com o interlúdio “Zero Zero 7”,  marcando a presença já antiga do artista na aposta em sons que se aproximam do House. A próxima faixa é destaque absoluto do álbum, produzida em parceria com Bonbap e Mbeatzz,  com ritmo de baião, marcado por um triângulo e rabeca e inspiração na sonoridade de Chico Science. “SOL” aparece como um refresco sonoro, com uma letra criticando a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro em relação à pandemia e a subversão de valores humanos.

O álbum se encerra com as contrastadas “City Hunters” e “Simples” em que, na primeira, em cima de um sample do anime Hunter X Hunter, nILL troca versos com Jota Ghetto e Jamés Ventura e os três tratam de temáticas já clássicas para o hip-hop, girando em torno da vida urbana e periférica, além de  suas mazelas para com os artistas enquanto homens negros. Já em “Simples”, uma faixa mais intimista, nILL canta sobre amor em um instrumental mais animado, de novo, investindo em sonoridades que se aproximam do House. nILL  aborda o amor sob uma perspectiva mais impaciente, em que, o ritmo mais acelerado ajuda a elaborar o senso de imediatismo do robô, que agora, se vê disposto a amar, mas segue atravessado de dúvidas e inseguranças.

Por fim, O Resgate do Maestro, é um álbum que parece servir de acompanhamento para a vida cotidiana, quase como uma trilha sonora de um jogo de console, de fato um álbum de pessoas nerd, que se mistura com os ambientes e situações que nos encontramos, se mistura tanto que é possível que o álbum passe despercebido enquanto se vive. Porém, quando se escuta com atenção é possível perceber sua imensidão e profundidade. É possível atribuir várias  interpretações para o que é ou quem é o robô, cuja narrativa acompanhamos ao longo do disco, ele pode tanto ser um robô no sentido literal, que caiu na terra e está aprendendo os costumes, como pode ser um jovem nerd da periferia. Mas também pode representar as pessoas em geral, no pós-pandemia, que saíram do isolamento sentindo uma espécie de desconexão com o mundo, tendo que  aprender de novo a se relacionar com o mesmo. Dessa forma, nILL apresenta em seu último trabalho um trabalho profundo, impactante de camadas múltiplas, mas, que por ter ciência do seu tempo histórico, pode quase não ser percebido, em uma primeira ouvida, mas quando se percebe, é impossível desviar o olhar.

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