And Then Life Was Beautiful
2021 • POP/R&B • LITTLE TOKYO/SONY
POR LEONARDO FREDERICO; 30 de SETEMBRO de 2021
7.3

O significado de felicidade é um dos questionamentos mais antigos da raça humana. Aristóteles, um dos filósofos mais importantes da história, quando perguntado qual era o propósito da vida, disse que era atingir a felicidade. Para ele, todo homem tem o desejo de alcançar tal sentimento acima de tudo e molda suas ações visando esse objetivo, que, segundo ele, também é um sinônimo de prosperidade, riqueza e fortuna. Contudo, ao longo dos últimos séculos, essa palavra e sensação foram se formando, adotando novos atributos com base em contexto. Enquanto para os epicuristas, por exemplo, a felicidade significa tranquilidade e liberdade; no capitalismo, todavia, é o bem material e o capital que são capazes de fazer uma pessoa feliz. Independente da razão, no final, tudo tem um só propósito. 

Em seu terceiro disco, And Then Life Was Beautiful, a cantora, compositora e produtora inglesa Nao entrega a sua própria visão de felicidade. “‎A vida não é perfeita,” disse a artista em um comunicado de imprensa. “É isso que a vida é, e você continua vivendo. Mas, acima de tudo, você tenta entrar em um lugar de gratidão para que você possa ver a vida em toda a sua beleza”, ela completou. Trabalhando com batidas pop e r&b, Nao entrega um projeto dedicado não somente à felicidade por si só, mas nas diversas formas de atingi-la, conquistá-la e encontrá-la. Não é um álbum convencionalmente alegre e otimista. É duramente realista, sendo assim, por consequência, incrivelmente verdadeiro, pragmático e honesto com si mesmo. São faixas descomplicadas e modestas, de uma simplicidade impagável, pois realiza uma varredura nas raízes da alma, de forma a exaltar o processo de cura e de ascensão à epifania momentânea. Ainda que o disco não consiga se manter o tempo todo interessante, ele consegue, a cada instante, manter sua essência. 

Como mencionado, And Then Life Was Beautiful não é apenas sobre um objetivo conquistado, mas sim sobre a jornada até então. E o caminho que a cantora percorreu até aqui, por si só, já é uma trilha árdua de amadurecimento. Em seu registro de estreia, For All We Know, ela examinou cada parte de suas relações com aqueles em sua volta, entendendo e aprendendo com tudo que deu errado. Por conseguinte, em Saturn, seu segundo álbum, ela examina uma nova posição de maturidade, brincando com constelações, astros e planetas. Mas, em seu último disco, ela atinge o ponto mais alto de sua escalada em busca do estado total de discernimento. Apesar de essas não serem as faixas mais fortes de sua carreira, talvez sejam as mais essenciais para a sua vida pessoal. Na abertura, por exemplo, com camadas vocais, ela define sua busca pela alegria em substância, e,  logo em seguida, em “Messy Love”, ela ensina a si mesma e a nós a lição de deixar o que mais te machucou para trás. Com baterias compassadas e marcadas, ela canta: “Gotta heal, gotta see me do my thing / Gotta stay here next to me / God, protect my energy”. 

No entanto, para Nao, a conquista da felicidade não deve ser totalmente ignorada ou tida como vencida. Assim, conceber orgulho por tudo que passou é uma parte essencial do agradecimento, já que, sem isso, você não seria você. Em “Glad That You’re Gone”, por exemplo, ela celebra, ao lado de violinos elegantes, a partida de uma fase ruim de sua vida, resultando em um hit orgânico, acústico e energético. “Burn Out”, por sua vez, apesar de enquadrar uma condição de saúde da cantora, ela canta com leveza, gerando uma faixa que é, simultaneamente, brincalhona e atrativa, mas custosamente verídica. Assim como grande parte do álbum, essas são músicas despojadas que não requerem de enredamento instrumental para sintonizarem em tons bonitos e profundos.

Porém, não é sempre que Nao é capaz de semear o disco com momentos interessantes. A seção mais exaustiva e puxada é a sequência de “Good Luck”, “Nothing’s for Sure” e “Woman”, com Lianne La Havas. Esse segmento é apenas uma reciclagem de ideias com uma sonoridade inerte e repetitiva tocando ao fundo. É justamente o instante em que a produção de Nao deveria ter tomado outro norte, entregando instantes de êxtase fortes o suficiente para não deixar que And Then Life Was Beautiful caísse em uma sensação cíclica de reincidência. Nem mesmo a temática da faixa com La Havas — a celebração das mulheres negras —  consegue impedir o estabelecimento de um cenário de monotonicidade. 

Mas, as melhores faixas do disco são aquelas que não dependem de nada excetuando a atenção em Nao. Artistas podem atrair sua concentração por sonoridades psicodélicas ou letras baseadas em excentricidade. No caso de Nao, ela realiza isso melhor quando tem sua voz preenchida de sentimento de autenticidade emocional. Em “Antidote”, com Adekunle Gold, ambos agradecem suas filhas por serem a luz no meio da escuridão, atingindo uma certa posição de vulnerabilidade, tanto pelas palavras doces jogadas, tanto pelo toque intimista na voz do cantor que parece sair de um gravador amador. É em “Wait”, porém, que a voz dela se torna mais potente. Apesar de um lindo piano e do barulho de lenha queimando ao fundo, é impossível desviar da incrível e forte voz de Nao, especialmente com ela profetizando palavras de sabedoria. Todavia, “Amazing Grace” ganha o status de melhor canção do disco, sendo nutrida de compreensibilidade dramática, implorando, quase religiosamente, para que não deixe a si mesma cair ao fundo do poço. A lição que fica, vem uma faixa antes: “write yourself into remembering that life is beautiful”.