Laurel Hell
2021 • ALTERNATIVO/POP • DEAD OCEANS
POR LEONARDO FREDERICO; 09 de FEVEREIRO de 2022
8.2
MELHOR LANÇAMENTO

Se você olhar para o mundo através das músicas de Mitski, tudo parecerá mais fácil. Um dos maiores talentos da cantora e compositora, nascida no Japão e criada nos Estados Unidos, é sua capacidade de naturalmente converter momentos potencialmente difíceis em fáceis lições de moral que podem ser captadas e entendidas em poucos segundos. Logo após largar o piano que permeou seus primeiros trabalhos, Mitski escolheu a guitarra como principal instrumento de sua criação. Foram essas cordas eletrônicas que a acompanharam em análises solitárias sobre passado e futuro em Bury Me at Makeout Creek, de 2014, e, depois, em suas crises da adolescência de Puberty 2, de 2016, e momentos torturantes da vida adulta em Be the Cowboy, de 2018. Mas, em todos esses casos, suas composições afiadas eram também didáticas e claras, conectando-se intensamente com seus ouvintes. 

Laurel Hell é o sexto disco de Mitski e provavelmente seu trabalho mais comercial até hoje. Se na passagem de Puberty 2 para Be the Cowboy, Mitski e seu produtor de longa data Patrick Hyland deixaram de lado o som distorcido para dar um enfoque nas composições, aqui eles tentam atingir um equilíbrio entre os lados: experimental ou comercial, priorização de seu som ou de suas letras. De certa forma, embora Laurel Hell tenha perdido os brilhos visionários de quebras sonoras e explosões sintéticas, contando com alguns poucos momentos de êxtase empírica, ele ainda entrega um conjunto de qualidade. São canções que, apesar de trabalharem em torno de moldes mais padronizados, ainda são melhores do que as outras coisas que estão sendo feitas.

Para Laurel Hell, inicialmente, Mitski projetava um disco punk, depois passou pelo country, até que finalmente estabeleceu suas formas na música pop eletrônica oitentista. Ela disse para Pitchfork: “Eu precisava de canções de amor sobre relacionamentos reais que não são lutas de poder para serem ganhas ou perdidas”. Dessa forma, Laurel Hell surge não só como um disco mais comercial, mas também mais otimista. No entanto, para isso, foi sacrificado, em diversas faixas, o potencial de Mitski de ver músicas de um jeito diferente das outras pessoas. Enquanto, em “Stay Soft”, sintetizadores ordenados por tendências disco contrastam com a voz mórbida da cantora, “The Only Heartbreaker” atinge a perfeição pop, saindo direto de um disco do The Weeknd, e “Love Me More” trabalha com tendências da sensualidade de Jessie Ware. Embora nenhuma dessas canções seja ruim, pelo contrário, não são exatamente o estilo que Mitski vinha construindo em seus últimos registros. 

Por outro lado, se Mitski parece ter focado em expandir seu alcance, outras canções seguem o que ela apresentou no passado. Na faixa de abertura, por exemplo, os primeiros segundo remetem à “A Horse Named Cold Air” de seu último disco. Em seguida, a canção explode, lembrando novamente uma faixa de Be the Cowboy, “Geyser”. Indo além dos limites do seu próprio universo, “Heat Lightning” ressoa com lembranças de uma canção do Velvet Underground, do seu disco colaborativo com Nico, The Velvet Underground & Nico. Depois de sintetizadores crescerem e explodirem, eles quebram em notas soltas de um teclado, em sintonia com a composição — “And there’s nothing I can do, not much I can change / So I give it up to you, I hope that’s okay”. Surge disso um conflito interno de Mitski: embora ela tenha equilibrado bem seus lados, existe ainda uma indecisão sobre qual caminho seguir. 

Em 2019, Mitski apagou suas redes sociais e decidiu encerrar com sua carreira musical. “Working for the Knife” foi a primeira canção que ela escreveu depois dessa mudança, mas é em “Everyone” e “I Guess” que esses momentos de adeus aparecem de forma realmente concreta. Na primeira, sob influências de ritmos industriais, ela constrói uma reflexão acerca de sua vulnerabilidade dentro da indústria. “Then like a babe in a crib / After some big hand turns out the light”, ela canta e conclui mais tarde: “I opened my arms wide to the dark / I said, ‘Take it all, whatever you want’”. Em complemento, a segunda, por mais que ressoe dentro dos moldes de uma canção sobre relacionamento, não é muito difícil de vê-la como um relato da metamorfose que Mitski passava. “I guess this is the end” ela começa, e depois se questiona sobre sua decisão: “Without you, I don’t yet know quite how to live”. Mas, doravante, apenas o tempo nos dirá se esse é um adeus definitivo, ou se, igual àquelas outras canções da Mitski, é apenas sobre dizer “até logo”.