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PORTALS

2023 •

ATLANTIC

6.5
PORTALS traz uma mudança artística necessária na carreira de Melanie, no entanto, que nem em todos os momentos soa tão bom quanto poderia ser
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PORTALS

2023 •

ATLANTIC

6.5
PORTALS traz uma mudança artística necessária na carreira de Melanie, no entanto, que nem em todos os momentos soa tão bom quanto poderia ser
08/04/2023

Dia 18 de fevereiro de 2023, Melanie Martinez retornava às redes sociais, iniciando uma série de postagens enigmáticas com uma estética completamente diferente da apresentada em seus trabalhos artísticos anteriores, os quais eram centrados na vida de Cry Baby, uma garotinha crescendo em um cenário de problemas familiares e que, por isso, experimenta de situações ruins da vida adulta. O primeiro vídeo postado mostrava uma floresta fantástica, na qual, embaixo de um cogumelo gigante que remete a uma árvore, estaria sepultado o alter-ego da artista com uma frase escrita no fungo que dizia: “R.I.P. CRYBABY”. Se isto não tivesse sido o suficiente para mostrar a vontade dela de romper com a personagem presente nos seus dois outros discos, quando apresentada a capa isso tornou-se ainda mais evidente. O visual infantil agora era abandonado para trazer Martinez como uma excêntrica criatura mística.

Melanie iniciou sua carreira em 2012, como participante da edição daquele ano do The Voice dos Estados Unidos, no entanto, foi apenas em 2015 que seu primeiro álbum, Cry Baby, foi lançado. Com ele, a artista fazia uma ótima estreia, com um conceito e letras que, além de bem elaboradas, eram algo diferente para a música pop daquela época. Martinez abordava seus temas de maneira singular comparado com outros nomes do gênero que faziam sucesso naquele período: trazia tópicos fortes como problemas com drogas e alcoolismo por uma perspectiva de uma criança convivendo com isso. Ademais, sonoramente, havia diversos momentos fascinantes, como “Sippy Cup”, “Soap” e “Mad Hatter”. Depois disso, ela ficou anos em hiato e voltou em 2019 com K-12. Nele, a cantora mantinha a abordagem da história de Cry Baby, entretanto, de forma muito menos intrigante que em seu primeiro disco, com suas composições sendo muito genéricas. Com isso, ficou evidente a saturação desse conceito, e Melanie tinha que se reinventar para que seu trabalho não se tornasse completamente desinteressante. E PORTALS é a tentativa de mudança artística que tanto a intérprete de “Dollhouse” necessitava.

De início, com “DEATH”, o disco mostra Martinez tomando uma direção que, além de diferente de tudo o que ela já fez, é bastante surpreendente. Nos primeiros momentos desta, é entregue uma produção com grande uso de elementos de orquestra e guitarras acústicas que tem um crescimento fantástico até o refrão, em que essa instrumentalização é substituída por sintetizadores eletrônicos fortes. Por mais que intrigante, até então o ouvinte não sente uma grande inovação sonora, entretanto, é logo após o refrão que vem a parte mais impressionante da canção, em que é evidente a renovação artística de Melanie: é introduzido a ela guitarras de rock intensas e baterias distorcidas provenientes do industrial — ambos estilos nunca usados anteriormente pela cantora — e, durante o resto da música, é tomado um rumo similar, apesar de com não tanta intensidade quanto este momento. 

Na faixa seguinte, por mais que a utilização de sonoridades inovadoras para a carreira da cantora não seja tão fascinante quanto em “DEATH”, ainda é um destaque. Nela, as influências do rock presentes no momento anterior se mantêm, porém agora estando presente durante todo o decorrer da canção e, embora a produção seja um pouco linear, “VOID” consegue, mesmo assim, fazer uso bastante adorável do gênero. Ademais, conta com uma das melhores composições do disco. Na canção, Melanie se abre sobre sua ansiedade por meio de letras muito bem escritas. “I gotta escape that void / There is no other choice, yeah / Tryna turn off the voices / The void ate me”, canta ela dizendo necessitar escapar deste vazio, o qual representa a doença psicológica. Além dessa, “BATTLE OF THE LARYNX”, “EVIL” e “WOMB” também destacam-se pelo uso do rock, pois, fora merecerem ênfase pela exploração do estilo representar a maior demonstração da inovação artística proposta por Melanie em PORTALS, elas utilizam deste de maneira cativante. 

Apesar de mostrar em diversas canções, de fato, uma mudança sonora, Melanie parece não conseguir largar a sonoridade antiga totalmente. Em certos momentos, a artista entrega algo cativante mesmo utilizando de um som saturado, como em “TUNNEL VISION”, com suas melodias divertidas e uma das performances vocais mais adoráveis do álbum, entretanto, na maioria das vezes em que ela opta por trazer algo mais semelhante à seus projetos anteriores isso é um problema. “THE CONTORTIONIST”, por exemplo, não é ruim, sua produção é decente, por mais que tenha elementos utilizados nela desnecessários, como os ossos quebrando, contudo, soa batida por ser muito similar a algo que estaria em K-12 ou Cry Baby. “SPIDER WEB”, por sua vez, faz o uso do som infantilizado com uma atmosfera sombria característico do trabalho artístico da cantora de maneira tão medíocre que relembra o resultado de nomes como Bella Poarch e Sub Urban trazendo em sua obra inspirações em Martinez. Já “NYMPHOLOGY” é a pior dentre todas que apresentam esta característica, com seus vocais infantilizados e coros de criança intragáveis.

Além disso, outro erro que pode-se notar em PORTALS é em sua lírica. Além da estética de Melanie, que sempre foi algo que se destacou em seus trabalhos mais que a parte musical em si, o mais intrigante em todos os discos anteriores da artista era sempre seu lirismo. Mesmo em K-12 e After School, que apresentaram uma regressão de qualidade nesse quesito em comparação ao Cry Baby, este ainda se mantinha como o aspecto no qual eles mais acertavam. Entretanto, em seu novo álbum, Martinez mostra uma grande piora como compositora, pois, nunca as letras da cantora foram tão mal escritas quanto as daqui. “MOON CYCLE”, por exemplo, é a tentativa dela de abordar o tema da menstruação de maneira a quebrar o estereótipo de que mulheres em seus períodos menstruais são fracas. Ainda que a proposta dela seja intrigante, a composição foi pessimamente elaborada, com esta contando com algumas das piores linhas de todo o registro: “‘Why you always act so serious?’ / I said, ‘Baby boy, you know I’m on my period,’ yuh”, “Blood swimming, turn him amphibious”. Igualmente a essa, “NYMPHOLOGY” tem um dos momentos mais indigestos liricamente do disco: “I’m kicking your ass out / Flutter my wings while I pout / Push your penis into your mouth / I’ll make you choke on your doubt”.

Fora isso, ao analisar a execução do conceito do disco, nota-se outro problema em suas composições. PORTALS representa o falecimento de Cry Baby e sua ressurreição no pós-vida, explorando o ciclo de vida e morte. Entretanto, em diversos momentos, a cantora foge da proposta do projeto em suas letras, como em “EVIL”, que parece falar apenas de seu antigo relacionamento com Oliver Tree, trazendo nada que relacione-a com a parte conceitual. O ouvinte apenas consegue, de fato, perceber a execução da temática do registro em sua introdução, em que mostra o personagem ressuscitando, e nos momentos finais, com “Life is death is life is death is life, is” se conectando com “DEATH”, canção introdutória, que inicia da mesma forma, mostrando o caráter cíclico da vida. Pode-se dizer que, o terceiro álbum da artista traz uma mudança bastante necessária em sua carreira, pois, caso não houvesse a inovação apresentada em PORTALS, este provavelmente tornaria-se mais um lançamento maçante de Martinez em que seria entregue uma estética e som já saturados. Apesar disso, a execução de toda essa nova direção artística tomada por ela poderia ter sido muito melhor.

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No aguardado single “DEATH”, Melanie Martinez exibe sua ambição e determinação em se desvencilhar da persona que a acompanhou em sua carreira ao longo dos anos.
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