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Traumazine

2022 •

1501 Certified Entertainment / 300 Entertainment

5.0
O segundo álbum de estúdio de Megan Thee Stallion carece de brilho e criatividade, não aproveitando tudo que uma sessão de terapia poderia ser.
Megan Thee Stallion - Traumazine

Traumazine

2022 •

1501 Certified Entertainment / 300 Entertainment

5.0
O segundo álbum de estúdio de Megan Thee Stallion carece de brilho e criatividade, não aproveitando tudo que uma sessão de terapia poderia ser.
17/08/2022

Desde que o rap começou como uma manifestação popular nas ruas e nos grandes galpões dos Estados Unidos na década de 1970, as composições são voltadas, em grande parte, para exaltação de uma cultura oprimida pelo sistema. Isto é, basicamente, que as músicas de rap foram, por décadas, mais direcionadas a relatar os problemas do mundo externo do que propriamente olhar com cuidado para o interior de quem as cantavam. Todavia, nos últimos anos, um movimento contrário a essa tradição se estabeleceu, com discos do gênero sendo cada vez mais sobre seus artistas, sendo assim uma espécie de sessões de terapia. Registros como Mr. Morale & The Big Steppers, de Kendrick Lamar, e 4:44, de Jay-Z, trabalham nessa máxima, por exemplo, tratando suas faixas não apenas como uma forma de catarse, mas retratando e atuando igual um consultório de um psicólogo. 

Em geral, esses lançamentos sucedem períodos obscuros para esses artistas. No caso de Lamar, questões desde sua infância ganham vida, enquanto para Jay-Z, infidelidade e trauma familiar se tornam recorrentes. Para Megan Thee Stallion, o cenário não é muito diferente: embora ela tenha escalado uma curva constante de sucesso ascendente, isso foi acompanhado de morte, luto, tentativas de assassinato, assédio na internet e fortes problemas na mídia. Em resposta, Stallion optou por apresentar as versões vorazes de si mesma, e, ainda que tenha revivido algumas dessas coisas em seus últimos trabalhos, Good News e Something for Thee Hotties, ela nunca parecia tratar aquilo tal qual um desabafo, mas sim uma maneira de assegurar que todo mundo soubesse que ela era “gostosa e rica”. Traumazine, o segundo álbum de estúdio da rapper, foi definido por ela como a forma pela qual “o mundo vai me conhecer melhor e entender meus sentimentos”, raramente tira proveito do que uma sessão de terapia poderia ser. 

O maior problema de Traumazine e o principal fato de ele não funcionar é justamente Megan quase nunca olhar para si mesma — pelo menos, não do modo que ela deveria. Igual suas outras obras, durante a maioria do tempo, ela está mais preocupada em dizer que está melhor que o resto do planeta por significações mundanas e capitalistas do que propriamente reconhecer o que há de certo ou errado nela. Isso me lembra quando Iggy Azalea lançou, em 2019, In My Defense, um trabalho que supostamente destinado para ela dirigir todas as acusações que havia sido submetida, mas ela resolveu passar mais tempo atacando outras pessoas do que tentar identificar que havia errado. Nessa lógica, Stallion prefere gastar sua energia tentando bater um recorde de quantas vezes ela consegue falar “bitch” e “shit” em um minuto, do que tentar admitir sua própria história.

O que complica, ainda mais, é que Megan já seguiu esse tipo de narrativa catártica anteriormente. Em seu primeiro registro, Good News, de 2020, ela bateu forte nas teclas de quando Tory Lanez deu um tiro nela. Ou ainda, os poucos momentos em que ela faz isso em Traumazine. Em “Anxiety”, ela canta sobre sua condição mental e se torna vulnerável e familiar: “If I could write a letter to Heaven / I would tell my mama that I shoulda been listening / And I would tell her sorry that I really been wilding”. Isso se completa: “Ever since my mama died, 2019 / I don’t really know who I can trust / I was looking for anything, anybody / Looking for something to feel like something”, em “Flip Flop”. Esses instantes derradeiros são completados pelo empoderado feminino de “Plan B” e, finalmente, uma autoconsciência em “Southside Royalty Freestyle”. 

Entretanto, esses momentos são efêmeros, considerando principalmente que esse é um álbum de 17 canções — 18 se você considerar que o single com Dua Lipa, “Sweetest Pie”. O restante das músicas, por sua vez, são peças que soam inacabadas, ideias precoces ou que são totalmente desinteressantes. De “Budget”, com Latto, até “Who Me”, com Pooh Sheisty, essas são faixas que, para além de imemoráveis, não conseguem nem ter alguma coisa pelo qual você possa chamar elas de ruins. Em outra esfera, pelo menos Stallion tem o poder de transformar algumas… bombas… em algo relativamente cativante: “Her” atua como “Body”, que é ridiculamente ruim e patética, mas tem o feito de grudar na cabeça de quem ouve. Por fim, “Pressurelicious” ganha uma menção unicamente por atingir um novo nível de bagunça sonora. 

Os outros pontos bons, são quando Thee não está sendo ela mesma. Em outras palavras, é quando ela deixa suas influências fortes o suficiente para mudar o rumo de suas criação, como se ela perdesse o controle — o que não é ruim, honestamente. “NDA” é uma das melhores daqui, apoiando-se em uma coluna dramática e gótica. No entanto, soa muito afeito com “Press”, de Cardi B, só que… pior. Kendrick Lamar, com DAMN., aparece em “Gift & a Curse”, e o ar refrescante dos vocais de Doja Cat em “Red Wine”. “Flip Flop”, nesse sentido, se mantém também por parecer um mix de Lamar e Kanye West. Dessarte, igual essas músicas, o disco congela uma imagem de Stallion nem sempre consegue ser intimista e original o suficiente. 

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