Borogodó
2021 • FUNK • UBUNTU
POR KAIQUE VELOSO; 07 de SETEMBRO de 2021
6.0

Carolina deseja provar um ponto: funk é arte. Senão a maior, a capa é uma das grandes contribuições que o projeto tem para esse tema. Nela, a cantora homenageia — ou satiriza, a depender de qual seja seu posicionamento prévio acerca do gênero musical — a pintura do Nascimento de Vênus, com origem no período do Renascimento Cultural, o qual buscava a revalorização dos preceitos da antiguidade greco-romana. O mar do qual a deusa é criada e emersa, aqui, é a favela, ou seja, a funkeira equipara-se ao simbolismo da representação do Mito e mostra que, tão mágicas, cosmogônicas e transformadoras quanto o surgimento de Vênus nas lendas antigas são a sua origem e a sua criação nas comunidades do Rio de Janeiro. As entidades que circundam a obra de Botticelli — Zéfiro, Flora e as Horas — por sua vez, são a representação fiel e desmascarada do contexto demográfico em que vive: jovens negros comuns — que diferente de bons ventos, oferecem à sua divindade um… Toddynho, seja isso uma indireta ou não. De qualquer maneira, Borogodó é a reafirmação do funk como parte da cultura brasileira, quer queira, quer não; goste, ou não; respeite, e, caso não, a mão que recobre os seios de Carol tem algo a lhe dizer.

O feminismo e o empoderamento sempre foram partes presentes nas obras e nos posicionamentos de MC Carol, como em “Meu namorado é maior otário / Ele lava minhas calcinhas / Se ele fica cheio de marra, eu mando ele pra cozinha”, um de seus grandes hits. Em Borogodó, esses temas se estendem por inúmeros momentos, porém em nenhum deles a mensagem é cativante, inspiradora ou, ao menos, importante para a construção de alguma narrativa. Embora o mais que válido esforço em destacar sua realidade como mulher negra e gorda, na música “Levanta a Mina” — a mais singular em termos de produção dentro do álbum, mas, ainda, pouco revigorante aos ouvidos —, o produto final é uma fraca canção política e pessoal, mesmo que seja uma forte concorrente para um novo meme de satirização das pautas identitárias. De forma geral, navegar pelo álbum é como encontrar um iceberg: de longe, pode parecer algo grandioso, mas a profundidade necessária para se conhecer minúcias e significados não pode ser atingida por esse “bote”, que é a rasa execução dos elementos aqui.

Suas polêmicas e grandes repercussões também parecem ser tópicos que a MC deseja trabalhar no seu projeto aspirante ao sincretismo conceitual. Diferente do que costumamente observa-se na mídia, em que famosos têm vazados seus vídeos e fotos íntimos, foi Carol quem propositalmente publicou um áudio de si bastante peculiar. A cantora aproveitou o começo de “Barbaridades” para inserir esse trecho no álbum — para quem não ouviu e ainda não entendeu, o dito material se refere aos gemidos dela durante uma relação sexual. A funkeira de Niterói afirma, no podcast PodPah, que fez o “vazamento” por vingança de um ex, que articulava pelas suas costas. A ideia parece interessante, mas o resultado é apenas risível. Felizmente, uma aura de consciência pairou sobre o estúdio na gravação da canção “Novinho de 17/Pau quebra”, pois, ainda que o refrão seja repetitivo e detestável, Carol escapa furtivamente de uma acusação de pedofilia. Enquanto as vozes masculinas dizem “Elas ‘gosta’ dos dezessete dos ‘boyzinho’ da pirocona”, a controversa cantora imediatamente rechaça a opção: “Dezessete anos comigo não tem conversa”.

Enfim, ao final de tudo, é perceptível que basta muito mais do que uma audaciosa capa para um bom álbum. Usar uma obra de tamanho reconhecimento — focando-se na sua real abrangência, e deixando de lado o viés que qualifica uma obra de arte como boa ou ruim —, de forma a fazer uma paródia com o retrato das favelas brasileiras, é um conceito extremamente poderoso no atual empenho social de revalorização das características marginalizadas da cultura nacional. Isso, porém, demanda um bocado mais de zelo e esforço com a produção das músicas: as batidas incessantes e ordinárias afastam a atenção do ouvinte. Em divergência a Botticelli, que pintou O Nascimento de Vênus à têmpera, MC Carol de Niterói criou Borogodó à base da insípida, inodora e destilada água.