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Jesus Ñ Voltará

2023 •

Independente

8.0
Jesus Ñ Voltará é um retrato introspectivo das memórias de alguém que cresceu na periferia cearense e que encontra, em suas raízes, inspiração para criar.
mateus fazeno rock - Jesus N voltará

Jesus Ñ Voltará

2023 •

Independente

8.0
Jesus Ñ Voltará é um retrato introspectivo das memórias de alguém que cresceu na periferia cearense e que encontra, em suas raízes, inspiração para criar.
20/05/2023

O Fazeno Rock é um selo de produção cultural que reúne artistas periféricos em prol da reafirmação do seu lugar no mundo artístico. Por meio do “rock de favela”, o movimento busca ressignificar o gênero, subvertendo os clichês e incorporando, às suas estruturas mais clássicas, estilos tradicionalmente divergentes, como o funk brasileiro, o reggae e o R&B. Esse conceito foi introduzido no Rolê nas Ruínas — o ótimo disco de estreia do fundador da rede, Mateus — que trazia uma estética grunge aliada à tropicalidade do manguebeat nordestino. Em contrapartida, o novo álbum do artista, lançado no final de Abril deste ano e intitulado Jesus Ñ Voltará, utiliza do lirismo consciente e dos grooves subterrâneos do hip-hop para explorar o imaginário de um jovem que nasceu e cresceu na periferia de Fortaleza. 

Como se fosse um diário, Mateus escreve sobre suas memórias de forma íntima e detalhada, relatando os desafios de viver em um ambiente onde a violência — intra e interpessoal — nunca descansa. “A autodestruição começa quando descobrimos quem somos”, afirma na faixa-título, construída em torno de sintetizadores distorcidos e 808s que alternam com riffs de guitarra intensos e uma bateria mais orgânica. No lead single “Pose de Malandro / Me Querem Morto”, um dos grandes destaques do disco, o discurso político-cultural toma frente. À medida em que discutem sobre os estereótipos impostos a garotos pretos das favelas brasileiras, Mateus e o rapper Big Léo assumem uma postura de resistência contra a repressão policial que, infelizmente, não se restringe apenas às periferias cearenses e contribui para a manutenção do ciclo da pobreza: “Mudar de vida é o plano dos cria / Tirar mais vida é o plano da polícia”. 

Se, por um lado, Jesus Ñ Voltará é um olhar cru e realista sobre a marginalização, com composições intimistas que revelam relatos extremamente comoventes — ouça “Nome de Anjo” —, por outro, o álbum se desdobra em momentos acolhedores que transmitem um sentimento de esperança. Em “Pode Ser Easy”, por exemplo, Mateus volta a atenção para lembranças nostálgicas e despreocupadas de sua infância, as quais, hoje, servem como lembrete de que nem tudo está perdido. Há, aqui, uma relação intrínseca entre a vontade incansável de romper os ciclos e o fazer artístico, expressa na maneira em que o cantor coloca seus pensamentos e reflexões no papel, evocando não apenas memórias, mas também fragmentos de sua ancestralidade e de tudo aquilo que o forma como indivíduo para transformar suas vivências em uma arte que alerta, impacta e inspira. 

Em um cenário onde o rock nacional carece de atos que realmente têm algo a acrescentar no escopo da música popular — o que vemos é um inacabável copia e cola do que já é consagrado —, Mateus Fazeno Rock se apresenta como um dos poucos artistas que buscam transgredir o básico do gênero. Para além da expressão política, seus trabalhos combinam o moderno com o clássico, impulsionados por uma criatividade efervescente capaz de cosmopolizar o regional sem que as características identitárias deste percam destaque. Em diversos momentos, esse polimorfismo de culturas e ideias remete a alguns trabalhos do Rappa do final dos anos 1990 — seja no canto ou na forma de compor, Mateus exprime aquela jovialidade assertiva de Falcão e Yuka. 

Ainda que com referências claras, o que nos é apresentado em Jesus Ñ Voltará tem uma autenticidade que impressiona. É um registro sem filtros, pautado nas experiências cotidianas de alguém que confronta os intermináveis desafios de sobreviver em meio à hostilidade e que, apesar disso, possui a coragem enraizada para transformar o desassossego em um ato de reafirmação. Mesmo com colaborações que pouco agregam à narrativa geral, o álbum raramente perde o foco e o resultado final é fascinante. O potencial que Mateus demonstrava em seu disco de estreia é explorado ao máximo aqui, e o que fica é a vontade de acompanhar de perto os próximos passos dessa carreira que é bastante promissora.

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