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Paixão Nacional

2023 •

Mateus Carrilho

8.4
Em seu disco de estreia, Mateus Carrilho percorre o passado da música brasileira ao passo que almeja o futuro, entregando um dos projetos mais ousados e criativos dos últimos anos no cenário nacional.
Mateus Carrilho - Paixão Nacional

Paixão Nacional

2023 •

Mateus Carrilho

8.4
Em seu disco de estreia, Mateus Carrilho percorre o passado da música brasileira ao passo que almeja o futuro, entregando um dos projetos mais ousados e criativos dos últimos anos no cenário nacional.
08/06/2023

Olhar para a história da música brasileira é, também, fundamentalmente olhar para um leque de diversidade. Por mais que, fora do país, a produção musical nacional seja sempre investigada pelo contato com a MPB dos anos 1960, no último século o material surgido foi de uma complexidade e variedade enorme: desde 1920, com a subida popular do rádio — que trouxe consigo a ascensão do samba e do caipira —, perpassando pela bossa nova e Tropicália das décadas de 1950 e 1960, e chegando até os dias de hoje, com a circulação massiva do funk. Claro, isso nos centros populacionais, São Paulo e Rio de Janeiro, porque fora atenta-se para ainda mais variedade de gêneros locais e regionais que incorporam suas determinadas culturas e movimentos. Mas, no final, a verdade é uma só: seja você um infiel que consome apenas o produto estrangeiro, ou um apaixonado pela música popular clássica brasileira, ambos têm um problema em reconhecer todas as potencialidades dessa produção.

Mateus Carrilho, por outro lado, é uma das poucas pessoas em atividade no mercado que consegue ter a perspicácia de compreender a música brasileira para além de um produto e características soltas, mas sim como ideias e movimentos circulares de atributos culturais. O jovem, nascido no interior do Goiás, sempre teve seu lado artístico aflorado, mas foi ao lado Candy Mel e Davi Sabbag que Mateus, formando de tecnobrega — um gênero nascido no norte —, fundou a Banda Uó. Durante sete anos, entre 2010 e 2017, o grupo trabalhou em cima de um estilo extravagante, com letras bem-humoradas e uma mistura intensa de diversos gêneros. Depois da separação, Carrilho, assim como seus ex-colegas de banda, seguiu carreira solo, lançando por volta de dez singles, dos quais nenhum conseguiu emplacar um sucesso considerável, ainda que mantivessem sua identidade. Seu disco de estreia, Paixão Nacional, por sua vez, chega após anos e anos de experimentações, pondo Mateus no ponto certo.

Uma parte significativa de Paixão Nacional reflete seu título e a pegada de Carrilho: uma paixão pela cultura musical brasileira. Escoando por diversos gêneros que construíram a identidade da música do Brasil nas últimas décadas — como, por exemplo, MPB, axé, pop e funk —, Mateus traça um percurso de diversidade sonora, ao passo que transcorre também seu interior. Segundo uma matéria feita pela Folha de São Paulo, o cantor contou que a “maturidade trouxe uma vontade de explorar e conhecer o que é nosso”. Ele completou dizendo que se jogou de cabeça na “herança da música brasileira que não conhecia para fazer música contemporânea”, usando das discografias de Jorge Ben Jor, Caetano Veloso e, até mesmo, João Gomes para construção do repertório para o álbum. 

Essa vasta diversidade é o que sustenta o projeto, sua substância principal. Os acenos para o passado aqui são incontáveis. Em “Noite Perfeita”, uma cena do pop do final dos anos 2000 surge, não apenas pelo som, mas também por sua composição (“Liga a luz negra / Segura no pescoço / E olha no meu olho / Lança a boa / Põe mais cerveja / E deixa o povo mundo olhar / Quando cê me beijar”), enquanto elementos mais atuais, como distorções de vocais, dão uma atualizada na faixa. Isso segue para o final do disco, em “Nós Dois E Um Litrão”, parceria com Hiran, na qual sintetizadores estrelados criam sons cintilantes facilmente remanescentes das canções da época de 2005. Da mesma forma, “Beijar Sua Boca”, com Luísa e os Alquimistas, é um axé de refrão pegajoso, que atua nos modelos tradicionais, mas sem soar cansativo.

Muito além de apenas fazer essa movimentação de resgatar esses gêneros, Carrilho também atua em favor de atualizá-los por meio de misturas. “Sedento”, por exemplo, dá continuidade para a instrumentação erudita da faixa-título, mas transforma ela em uma fusão atemporal quando joga com batidas de funk e com o contraste entre uma arte elitista e algo marginalizado. “Rio De Janeiro”, por sua vez, tem uma construção pop animadora, mas que encontra com um entrave lo-fi no refrão. É justamente nesses pontos de fusão conflituosa que Carrilho mostra seu talento: olhar para o passado não é uma tarefa fácil, mas fazer conflitos com os elementos estruturais da história é ainda mais complicado. Ponto máximo dessa execução é em “Coração De Biscate”, que olha para o som extravagante da Banda Uó e traz pinceladas de João Gomes, sem perder toda diversão e humor de uma letra que é simples, mas marcante. 

Por conseguinte, esses elementos só conseguem ser canalizados graças a produção. Paixão Nacional foi escrito e produzido majoritariamente por Carrilho, mas há rabiscos de Diogo Strausz, co-diretor do projeto. Logo no começo, na faixa de abertura do registro, uma atmosfera cinematográfica, que reflete um requinte carioca dos anos 1950 e 1960, surge pelo toque de uma orquestra. Mais tarde, depois de quebras pela introdução dos ritmos do funk e axé, “Menino” volta com essa estética e cria um cenário que mimetiza o Rio de Janeiro do meio do século passado. Não só nesses momentos — mas principalmente neles —, a sensação que as canções de Carrilho passam é de que estamos vendo filmagens antigas da capital carioca, ao passo que a trilha sonora escolhida são essas faixas. 

Mateus, no entanto, não vive apenas de sons, e sua composição também é afiada. “Menino”, ponto central nesse quesito, usa do samba e da MPB como plano de fundo para contar uma história de um romance gay. Carrilho começa: “Menino, cê não sabe como mexe comigo / Sua pele, seu bronze, seu suor e seu sorriso”, encarnando o que seria uma versão moderna de “Garota de Ipanema”. O encanto é maduro, mas, ao mesmo tempo, existe a inocência de uma paixão verdadeira: “Mas, menino, vem aqui e me faz logo de abrigo / Desliza sua língua na minha falta de juízo / Me deixa tentado e faz o que quiser comigo”. Na faixa seguinte, “Boate Qualquer”, o samba se torna mais intenso e sedutor, mas a história se entristece: “Eu nunca fui opção / Eu só fui distração”.

Olhando para esse disco de estreia de Carrilho e para todo cenário da música popular atual, é de certo desespero conferir a ainda presente massificação da música sertaneja, que, nos últimos vinte anos, perdeu toda sua essência advinda da música caipira. Se, por um lado, há essas inúmeras duplas, que quase sempre entregam o mesmo material padronizado, sem sal e sem o mínimo de essência e consciência da própria nacionalidade, um produto refém do ainda forte agronegócio de latifúndios; do outro há cantores, compositores e produtores como Mateus Carrilho que vislumbram um futuro promissor para a música, e que sabem que esse caminho está na exaltação do próprio passado. 

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