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Vício Inerente

2023 •

Sony Brasil

8.0
Assim como prometido pela artista, Vício Inerente é um álbum extremamente viciante e cativante.
Marina Sena - Vicio Inerente

Vício Inerente

2023 •

Sony Brasil

8.0
Assim como prometido pela artista, Vício Inerente é um álbum extremamente viciante e cativante.
05/05/2023

 A chegada da continuação de uma obra sempre vem acompanhada de muita preocupação. As redes sociais borbulham de comentários, comumente embasados inteiramente no achismo. Com uma quantidade grande dizendo esperar uma queda de expectativa, esperando uma queda na qualidade, visto que sequências, as quais se dão a continuidade de narrativas tão queridas, costumam ser rejeitadas pelo público — que escolhem ser mais “saudosistas”, fazendo um detrimento do que é recentemente lançado. Está reação deve se dar por conta das decepções sofridas pelos consumidores. É mais fácil lidar com algo ruim que provavelmente venha a acontecer em seu futuro se você se conformar com isso; se você for mais pessimista. Já vimos isso acontecer em filmes, séries, livros e, também, em álbuns; nos discos lançados depois dos excepcionalmente bem sucedidos e avaliados. E, de mais uma de muitas perspectivas diferentes das quais pode ser observado a carreira de uma artista, é dessa forma que vi a Marina Sena — principalmente agora, com o lançamento de Vício Inerente. Após o lançamento de “Tudo Pra Amar Você”, todos meio que já podiam esperar por algo merecedor a excelência do De Primeira. Entretanto, para a felicidade da nação, não é esse o caso.

 Vício Inerente marca gravemente o recente cenário musical brasileiro, trazendo consigo uma riqueza sonora tão abundante quanto a do álbum debutante da cantora. Adentro, percebe-se, contudo, grandes diferenças entre as duas obras em questão. Enquanto De Primeira é mais orgânico e rural, a sua continuação é mais anorgânico e urbano; com produções baseadas na estrutura do R&B contemporâneo e em outros gêneros populares das mais recentes décadas vívidas pelo povo brasileiro — como o pop, pop trap e funk. Lembrando bastante outros lançamentos de uma equiparável importância, como NOITADA, de Pabllo Vittar, e Lady Leste, de Gloria Groove, e também remetendo bastante a outras obras magistrais, sendo elas Te Amo Lá Fora, de Duda Beat, e até Doce 22, da polêmica Luísa Sonza, todavia, possuindo característica próprias o suficiente para se firmar como um disco único e singular, como: a voz de timbre especial da mineira, por exemplo (assim como a sua personalidade artística e postura irreverente e segura de si que assume). E, mais além do que meras coincidências, também há inspirações diretas que a Marina usou para fazer essa continuação — e que ela mesma já admitiu, em comentários que deu nas suas redes sociais pouco tempo do lançamento do disco —, sendo esses: Fleezus (mais principalmente seu EP, BRIME!), MC PH, Djavan e ROSALÍA.

 Com efeito, “Dano Sarrada” inicia muito bem o álbum, e engloba muito bem a maioria dos elementos sonoros utilizados nele. Faixa predileta da artista, a canção é uma solução entusiasmante de drill, trap pop e funk. Modelada perfeitamente com os seus contornos, Marina obtém tudo o que se pudesse fazer necessário para criar um verdadeiro hino sobre sensualidade e pegação. Essa inicia com um verso muito bem pensando, que conduz para um refrão pouco original, mas, ainda assim, muito eficiente: “Olha, eu gosto quando cê me olha / Me filma, eu tô virando star / Do seu cinema particular / A lua desaparece, eu quero mais, baby / Sem flash é só luz natural, baby / O sol na pele é surreal, baby”. É uma faixa bastante épica, digníssima para a função de introduzir o público a obra. Logo após, “Olho no Gato”, próximo single oficial de Vício Inerente, trata-se de um dos momentos mais musicalmente conflituosos de todo o projeto. O refrão do mesmo é bastante eficiente, e as transições feitas durante seu tempo de duração são muito boas, mas a composição despojada de Sena se encontra um pouco confusa e bagunçada. “Olho no gato, não sei se ligo, vou espеrar aqui / Eu não aguento, fala comigo, deixa pra lá, bem / Me conhece, sabe que eu sou pura emoção / Sabe, eu tô aqui no seu portão”. Conquanto, não é nada de tão prejudicial que a faça um fator em evidência que diminua o valor do projeto.

 Passado mais alguns momentos, uma faixa se destaca brilhantemente como uma das melhores de Vício Inerente: “Mande Um Sinal”. Anunciada como já possuidora de um vídeo-clipe, a primeira é um tiro fora da curva no projeto e que, coincidentemente, acertou perfeitamente o seu alvo — ou seja, é um acerto, adquirido de maneira muito arriscada e ousada. A produção dessa canção evoca as baladas românticas de smooth soul e R&B dos anos 70. É nesse momento onde se encontra a cantora em seu melhor momento vocalmente, e um dos únicos em que pode se ouvir a sua voz nua e crua ressonar no microfone em meio ao seu vibrato lindamente executado. Inesperadamente, tal homenagem aos tempos antigos desponta como a mais espetacular e maravilhosa de todo o álbum. Outros capítulos muito importantes e sensacionais seriam: “Pra Ficar Comigo”, hino que exalar amor-próprio e autoestima; a desavergonhada “Sonho Bom”, e sua letra bastante sexual; a renegada do De Primeira, “Me Ganhar”, e suas passagens líricas de rap bastante inspiradas; “Mais de Mil”, a melhor produção sonora; e “Que Tal”, parceria com Fleezus.

 Por fim, vale também ressaltar o talento excepcional do namorado da Marina Sena, Iuri Rio Branco. Co-autor e único produtor musical de ambos os álbuns de Marina, Iuri se destaca para mim por criar paisagens sonoras tão absurdamente lindas. A maneira como ele faz tudo tão bem pensado e executado é de enlouquecer. Se pudesse, o parabenizaria com algum prêmio. Por mais que nos bastidores, e competindo com a força criativa descomunal de Sena, seu trabalho ainda consegue se destacar e ganhar notoriedade. E, honestamente, isso é deslumbrante. Enfim, Vício Inerente é um álbum sensacional, introspectivo e muito divertido. É difícil não sentir saudade do De Primeira, mas, ao mesmo tempo, também é muito fácil se contentar com o enorme esforço que nossa mineira teve para confeccionar uma obra que tanto inovasse, quanto exprime tudo o que ela representa e pensa atualmente.

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