Mainstream Sellout
2022 • ROCK/POP • INTERSCOPE/BADBOY
POR LEONARDO FREDERICO; 28 DE MARÇO DE 2022
2.0

Por incrível que pareça, Ed Sheeran e Machine Gun Kelly têm muito em comum. Ambos os artistas, cada um em seu segmento, acreditam realmente contribuir para construção de uma indústria fonográfica melhor. Para eles, seus trabalhos carregam a essência do que é a música popular e o que há de melhor nela. No entanto, na realidade, seus discos, na maioria das vezes, sofrem de uma idealização barata, de um vitimismo módico em que eles são os bons mocinhos de uma sociedade na qual há empresários maldosos que querem tirar proveito deles a todo custo. São registros que seguem modelos pré-definidos pela indústria, criados a partir de uma técnica que visa a monetização acima de tudo. Talvez, a única diferença seja que, enquanto Sheeran gosta de ser visto como o bom moço de família que deseja envelhecer ao lado de sua amada em uma vida monótona, Kelly prefere adotar o papel de um rebelde, de um salvador da pátria, encarnando o sonho de um adolescente de dezessete anos. Embora seus objetivos difiram, seus processos são similares.

Mainstream Sellout é o sexto álbum do cantor americano Colson Baker, sob o nome artístico Machine Gun Kelly. É seu segundo trabalho orientado pelo pop e punk, divergente de seus registros anteriores: Hotel Diablo, de 2019, e Bloom, de 2017, ambos direcionados para o trap, rap e hip-hop. Como =, de Ed Sheeran, no ano passado, Mainstream Sellout é um agrupamento de canções sem personalidade, criadas unicamente com um propósito: suprir, sobretudo, as necessidades do mercado. Dessa forma, embora não seja propriamente ruim e tenha uma produção decente, é um registro sem graça, enfadonho, cansativo, monótono e trivial. Em outras palavras, Mainstream Sellout parece ser criado por meio de algoritmos sem a menor noção artística, mas que entende de dinheiro.

Grande parte das canções em Mainstream Sellout seguem moldes estabelecidos. Não é à toa, inclusive, que Kelly deixou para trás seu lado rapper justamente quando a indústria começou a apreciar mais o pop rock no ano passado, com a ascensão de Olivia Rodrigo e seu álbum de estreia, SOUR, para além de outras artistas, como Billie Eilish, adotando ainda mais as guitarras em suas obras. Desse modo, Mainstream Sellout é um disco feito, basicamente, para lucrar. Logo, diversas canções, ainda que contenham boas produções, não tem nada de especial. “god save me”, por exemplo, é uma das mais genéricas, com Machine cantando da perspectiva de um rebelde sem causa: “God save me, I’m fucked up / Ignoring my problems / You die, you’re iconic / More plaques for their office”. “drug dealer”, por sua vez, não funciona nem em um nível superficial — sua namorada ser uma traficante não é tão legal quanto ele diz ser —, e nem em um nível secundário — uma metáfora que não tem sustentação nenhuma.

Para além disso, quando Kelly não trabalha em canções que sejam blasè, sua entrega é genuinamente ruim. Em “born with horns”, por exemplo, você deseja que ela fosse apenas mais uma música indiferente visto que a disfunção criada pelos instrumentais é altamente atordoadora, para além de uma composição cadente e vocais duvidosos. Ademais, “mainstream sellout”, uma peça onde Machine supostamente responderia todas as críticas que recebeu quando mudou de estilo, o cantor dá mais motivos para essas pessoas parecerem… certas. Ao passo que “emo girl” é uma mistura de uma música qualquer de uma comédia romântica adolescente do início dos anos 2000 com a trilha sonora de um trailer de The Sims 3, “ay!”… bom, vou deixar um trecho aqui: “I cut my hair off like Britney / Sprinkle dust like a pixie, wiped my nose like it’s itchy”.  Mas um dos piores pontos é em “wall of fame (interlude)”, onde Kelly e seus amigos criticam demais Hollywood para alguém que está desesperadamente tentando ser parte dela.

Por outro lado, as canções toleráveis de Mainstream Sellout são só… ok. Enquanto “make up sex” e “5150” não tem nada que faça elas serem ruins, não tem nada que faça elas serem boas também. Os melhores momentos no registro, todavia, é justamente quando Kelly soa minimamente honesto consigo mesmo. Em “papercuts”, por exemplo, ele realmente parece acreditar no que canta: “I spend a lot of nights thinking / I might go to sleep and never wake up / I spend a lot of money on these therapy sessions / Even though I’m not showing up”. Na reta final, felizmente, o álbum melhora: enquanto “die in california” é uma boa música de rap que ornou com todos seus colaboradores, “sid & nancy” e “win flame” contam com uma composição (um pouco) mais interessante. Entretanto, no final eu só conseguia pensar em uma coisa: por que Baker parecia engrossar sua voz o tempo todo?