Animal
2021 • ELETRÔNICO/POP • CHRYSALIS
POR KAIQUE VELOSO; 04 de AGOSTO de 2021
8.0

O grupo é formado da união do produtor pouco conhecido Mike Lindsay, caracterizado por sua roupagem folktrônica, e da brilhante liricista e intérprete country Laura Marling. Apesar disso, quando combinados, o som que esses dois criam não é nada habitual ou ordinário para eles. LUMP é a extrapolação e a “deslimitação” da mente criativa de ambos os artistas; é, portanto, a mais pura liberdade de imaginação. Se em Song For Our Daughter, Laura pisava em solo firme e seguro com sua pegada acústica e crua, bem como com a tangibilidade de suas composições sobre relacionamento; em Animal, ela flutua alto nas nuvens, o que torna complexo alcança-la, entendê-la e juntar-se a ela.

Em seu predecessor e autointitulado, LUMP parecia plástico e hermético demais. Cada detalhe soava calculado e esvaziado de espontaneidade, o que, embora não seja um efetivo problema, compromete a experiência e a deixa estéril. Existe muito espaço durante as músicas, as quais geralmente só adquirem certo sabor a partir de sua segunda metade ou de seu último quarto. O presente álbum do projeto de Marling e Mike demonstra uma evolução nesse quesito: o uso do baixo e de melodias mais aceleradas preenchem e alicerçam a construção das faixas. Robustos e cativantes. Os 10 itens que compõem Animal impulsionam-se em bases mais sólidas e saltam mais longe do que o primeiro álbum já conseguiu.

“It took one god seven days to go insane”. A música de abertura, “Blossom At Night”, é perturbadora com a sobreposição de sons eletrônicos, no bom sentido, isso significa que é intrigante e cativa o ouvinte a se atentar mais à letra. Como em todas as vezes aqui, nada é objetivo e pouco faz realmente sentido. Marling abusa de abstrações e frases desconexas, sendo praticamente uma característica dos trabalhos da dupla. Na faixa inicial, a cantora desenha sua perspectiva sobre a incessante busca por atenção na atual era: são tão afoitos por uma foto com “a flor que só desabrocha à noite”, que não se importam ao menos em saber qual é o verdadeiro nome dela. Esse conceito de Laura é carregado por uma bateria, que ganha ainda mais força na canção seguinte, “Gamma Ray”. “What you seek will only speak the words of doubt”, enquanto ela toca no assunto desejo, mais especificamente do aspecto de incerteza e de variabilidade que esse traz, a batida continua forte e ríspida, com uma abordagem rock, por certo. Os efeitos vocais sombrios e malévolos, no final da música, por sua vez, ressoam como algo que Gazelle Twin faria em seu álbum experimental Unflesh, de 2014. 

Em algumas músicas, têm-se estruturas mais pop e previsíveis, e menos retalhadas ou indiscriminadas. Os primeiros vislumbres lançados antes da data oficial do disco, os singles “Animal”, “Climb Every Wall”, por exemplo, destacam-se nesse aspecto. Mike afirma que We Cannot Resist” — canção que pisa em corda bamba ao relacionar a profanidade do instinto e do corpo às primeiras experiências de uma pessoa jovem, como os primeiros beijo e coração partido — é como um faixa pop quebrada, que não sabe ainda a sua própria forma, e isso é mais claro em outros momentos do projeto. Os outros singles, nesse sentido, também funcionam como a volatização da forma pop, nas quais, em ambos os casos, crescem para um refrão impactante no contexto sonoro interno. Dessa forma, tal versão de Lump menos estática e mais fluida faz a experiência mais aprazível e confortável.

Entre os momentos mais sóbrios do CD, é relevante salientar dois: “Oberon” e “Hair On The Pillow”. Este, uma faixa instrumental que caberia perfeitamente no último álbum da islandesa Björk, Utopia, de 2017, que serve como um fôlego entre as bombásticas Paradise” e “We Cannot Resist”; aquela, uma balada sutil e terna, na qual os vocais memoráveis de Laura sobressaem mais uma vez. But Oberon you let me down”, canta ela decepcionada e desesperançosa, surpreendentemente inteligível, visto que, segundo Marling, essa música foi produzida “bagunçando” trechos de uma composição que ela havia guardado do seu último altamente aclamado álbum Song For Our Daughter. É devastadoramente calma e reflexiva.

Enfim, o segundo álbum do projeto do produtor eletrônico e da estudante de psicanálise é definitivamente um salto à frente. Desde que continuem a incrementar a construção das faixas, deixando a espontaneidade fluir, não há por que pensar que esse seria o último grande ato de sua discografia. Afinal, LUMP é um produto, e se virem possibilidade de crescimento, seus criadores o farão.