HEY WHAT
2021 • ROCK • SUB POP
POR LEONARDO FREDERICO; 16 de SETEMBRO de 2021
8.0

Em 2018, Low lançou um dos melhores trabalhos de sua carreira, o Double Negative. O disco surgiu em um contexto conturbado, principalmente depois que o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, utilizou o nome do álbum em um discurso após se contrariar ao falar sobre a interferência da Rússia nas eleições norte-americanas de 2016. Porém, o que poderia ter sido visto como má publicidade rapidamente enriqueceu ainda mais o disco. Em uma entrevista para o The Wire, o vocalista Alan Sparhawk disse que o ex-governo estadunidense o fez questionar a humanidade e a sociedade moderna, e que o projeto, após uma menção de Trump em seu pior momento, apenas agregava significado ao álbum. No final, Double Negative se manteve como a prova de que após décadas de carreira, eles ainda eram capazes de materializar uma obra surpreendente que reflete toda esperteza e sagacidade que eles vinham construindo desde sua estreia em 1993. 

Três anos depois, contudo, a banda entrega a continuação do sucesso do excepcional Double Negative, o HEY WHAT. Enquanto o primeiro foi o contato inaugural com o experimentalismo do eletrônico e pop ao lado do clássico rock alternativo, o segundo consegue mesclar ainda mais essas duas faces, concretizando Low como uma das melhores bandas em mais um terreno. Se sustentando por duas colunas principais — abstração e experiência —, HEY WHAT chega com produção de BJ Burton — que trabalhou no último disco da banda e também com Charli XCX e Bon Iver —, essa qual consegue elevar ainda mais as emoções e turbulências retratadas aqui, atingindo um nível quase transcendental, mas ainda sendo capaz de manter as composições simplistas e diretas que por muito tempo foram o grande destaque da banda do Minnesota. É uma fusão perfeita entre o classicismo próprio e uma visão futurista única. 

Como mencionado, são duas as colunas principais que sustentam e mantêm o estado do disco como uma mescla atemporal. A primeira delas é justamente a abstração, algo que a banda introduziu em seu projeto passado, mas que, aqui, leva para novas esferas, entregando combinações que transmitem emoções conturbadas através de irrequietações. Isso pode ser visto logo na abertura, “White Horses”, que tem como segundos iniciais uma mistura curiosa: simultaneamente, os sintetizadores e cordas, que logo no começo já perdem suas delimitações, soam como uma TV chiando e um CD riscado, travando. Com o tempo, tudo fica mais forte e potente, chegando a pontos quase ensurdecedores. O mais irônico ainda é que você não entende o que está acontecendo e o motivo daquilo estar ali, mas por alguma razão você sente que tudo está certo.  Em outras palavras, o que Low faz aqui com seu som parece um movimento artístico futurista. Porém, a diferença é algo próprio e singular, feito por eles, para eles e que provavelmente só irá funcionar dessa forma com eles. 

Por consequência, toda essa abstração resulta na segunda base do disco, a experiência. Nesse caso, isso se refere a todos os sentimentos e sensações que essas canções fazem você sentir. Ainda que, talvez, Double Negative tenha entregado algo ainda mais intenso, HEY WHAT é totalmente capaz e eficaz em concretizar um cenário de — quase — total imersão. Olhe, por exemplo, para “Disappearing”: enquanto a composição utiliza metáforas de oceanos para retratar crises existencialistas, sons sintéticos explodem violentamente, quase como se fosse o próprio oceano prestes a te engolir. Em “Hey”, por outro lado, sintetizadores assumem formas de espíritos sendo puxados para outro plano, enquanto a voz de ambos, Sparhawk e Mimi Parker, carregam um tom saudosista, como quase se estivessem se despedindo desses sons que vibram em frequências de adeus. 

Entretanto, não é somente na sonoridade que Low entrega algo de qualidade, com as composições também sendo dotadas de significados e potências, sendo pelas palavras em si ou simplesmente pela entoação que elas assumem. No primeiro caso, podemos citar “Don’t Walk Away”, que, além de soar como leitura singular e contemporânea de uma canção clássica arquetípica, possui um dos momentos mais poderosos, liricamente falando. Enquanto no som ouvimos espectros sussurrando ferrozmente para os cantores, na letra, essa angústia toma forma da ausência. “I have slept beside you now / For what seems a thousand years / The shadow in your night / The whisper in your ears”, eles cantam. No segundo, “All Night” é um reflexo da importância da interpretação da sua própria escrita, com as duas palavras do título soando mais potentes do que são, quase transvestindo para o molde de um culto religioso. Com isso, eles provam que suas letras, seus diálogos, os quais são simples e diretos, mas profundos, não só somente verídicos, mas também rudemente honestos. 

Por fim, o único obstáculo de HEY WHAT é o fato de que apesar de incrível, ele não é nada acessível. Diferente dos trabalhos anteriores da banda, principalmente o incrível e atemporal Things We Lost in the Fire, de 2001, esse disco deixa de lado a certeza de fazer algo fácil e certeiro para optar pela experimentação e ambição. Contudo, apesar desse fator da carência de compreensibilidade do público geral, até mesmo “More”, a pior faixa do álbum, é melhor que a grande parte da média. Em “Dinosaur Act”, de seu álbum de 2001, eles cantam sobre coisas que, com o tempo, deixaram de ser divertidas e animadoras. Com HEY WHAT, todavia, eles provam não ser uma dessas coisas.