Solar Power
2021 • POP • REPUBLIC
POR LEONARDO FREDERICO; 25 de AGOSTO de 2021
6.8

Poucos meses após finalizar a turnê para seu segundo disco, Melodrama, Lorde embarcou para a Antártica. Essa viagem, segundo a cantora, é algo que ela sempre quis fazer visto que ela é apaixonada pelo continente desde que “tinha idade suficiente para ler”. Ela visitou a base de Scott e a estação de pesquisa de McMurdo como embaixadora, conversou com cientistas e observou espécies por lentes de telescópios. Dessa jornada, nasceu um livro de fotografias chamado Going South, o qual conta com fotos de Harriet Were e visa destinar os lucros para um fundo de bolsa universitária. Todavia, muito mais do que uma experiência pessoal única, essa viagem serviu como o principal catalisador e elemento influente para o terceiro disco de Lorde, Solar Power.  “Quando fui para a Antártida, ainda não tinha começado a escrever depois de terminar o Melodrama. Percebi depois da viagem que o que meu cérebro estava desejando era uma visita a um reino alternativo”, disse ela em uma carta mandada para seus fãs em novembro do ano passado. 

Solar Power é o primeiro trabalho de inéditas de Ella Yelich-O’Connor, nome de nascimento de Lorde, desde 2017. É também a maior mudança estética e sonora de sua carreira. Em 2013, ela lançou seu disco de estreia, Pure Heroine, que lhe rendeu os prêmios de Canção do Ano e Melhor Performance Pop no Grammys de 2013. Foi nesse disco que Lorde concretizou sua narrativa de garota que usa (muitas) roupas pretas, gosta de cidades com céus nublados e é apaixonada pela solidão de seu próprio quarto. Quatro anos mais tarde, em Melodrama, ela apareceu com uma composição mais madura, e apesar de ainda seguir a linha estética baseada em distorções proporcionadas por sintetizadores, Lorde fez suas canções soarem maiores do que qualquer coisa que qualquer outra pessoa estava produzindo naquela época. Com apenas dois discos, Ella se concretizou como um dos maiores nomes da música contemporânea. 

Todavia, Solar Power quebra a promessa que Lorde construiu em seus dois primeiros álbuns. Nesse disco, a cantora abandonou quase que inteiramente os sintetizadores que transformavam sua voz em uma espécie de fantasma anacrônico e eram responsáveis pelo charme de suas canções, ainda que, em grande parte do tempo, permaneciam como algo secundário a voz ou composição de Ella. Aqui, Yelich, ao lado de seu produtor de longa data Jack Antonoff, optou por uma tendência mais natural e orgânica, adotando cordas simplistas e sem muito tratamento como o fio principal para toda parte sonora. Na narrativa, a cantora, mais do que nunca, olha para seu redor e consegue estabelecer uma noção precisa de autoconsciência. Porém, o maior problema de Solar Power é que Lorde não soa como ela mesma. 

Essa problemática do disco não conseguir pintar a imagem de Ella como a conhecemos não tem relação com o fato da mudança drástica em seu visual e som ou, como alguns fãs apontaram, com a evolução emocional dela que a colocou, finalmente, em um estado de felicidade. O verdadeiro problema de Solar Power é que as canções e o álbum não conseguem soar atemporais, provocadoras, visionárias e “maiores que a própria vida”, algo que todas as outras canções de Lorde conseguiam captar facilmente. Pela primeira vez, as faixas de Lorde soam passivas ao ouvinte, parecendo carecer do propósito de ser algo muito mais do que aquilo que elas são. Em outras palavras, o sentimento que o disco passa é que ele não está interessado em te surpreender, impressionar cada vez mais, ou te deixar mais e mais apaixonado pelo trabalho que parece ficar exponencialmente mais complexo e poderoso, mas sim em ser algo para ser apenas apreciado, que não liga para nada além do fato de sua existência. É o tipo de canções que pensam “quem quiser me ouvir, que venha me ouvir, não vou me esforçar para nada”. 

Essa condição existencial do disco resulta em canções apáticas. Em “California”, por exemplo, Lorde parece não conseguir satisfazer o caminho que ela mesma constrói ao longo da faixa. A canção começa relativamente bem, com Ella debatendo sua posição de fama por um viés negativo. Contudo, tanto a maneira como ela canta quanto o jeito que o instrumental cresce, você ganha a sensação de que algo grandioso virá no refrão, quando, na verdade, ela entrega algo fora de ritmo e que quebra com todo o clímax. “Secrets from a Girl (Who’s Seen it All)”, por sua vez, age da mesma forma, começando de uma forma muito boa, com Ella falando com si mesma (“Guess it’s been a while since you last said sorry / Crying in the dark at your best friends’ parties / You’ve had enough, gotta turn the lights up, go home”), contudo, o refrão soa chato e usual — e Robyn, que aparece nos últimos segundos, não acrescenta nada no produto final. Por fim, “The Man with the Axe” e “Leader of a New Regime” seguem apenas o arquétipo de filler.

Outro fator que contribui para essa sensação de “falta de Lorde” em Solar Power é essa personalidade que ela pegou para si mesma. Yelich se tornou o tipo de garota de 20 e poucos anos que não se preocupa em atrasar para a aula de ioga, gosta de comida vegana, de fazer arte caseira e de ficar sentada numa tapeçaria com seus amigos fumando maconha na praia. Em conjunto a isso, ela pegou tendências sonoras do final dos anos 1990 e começo dos anos 2000. O problema é que ambas, além de saturadas e cansativas, não parecem se conectar muito bem. Enquanto a primeira não parece “velha o suficiente” para servir como replay nostálgico, a segunda parece algo que ainda está rolando saturadamente no Instagram e Pinterest. Dessa forma, canções como “Dominoes” e “Mood Ring” surgem apenas como elementos que reforçam essa história, não indo muito além de um som e letra que satisfariam o tipo de pessoa que Yelich acha que é. Ella até chegou a apontar que, na verdade, essa identidade é uma sátira. Se isso é verdade, Lorde esqueceu de colocar sátira. Ninguém deveria explicar seus próprios sarcasmos. Ninguém deveria assistir entrevistas para entender o mínimo de um disco. 

Porém, isso não significa que Lorde não conseguiu fazer esses elementos funcionarem em alguns momentos. Na verdade, quando ela faz, executa muito bem. “The Path”, a abertura do disco, é um dos melhores momentos do álbum, contando com instrumental bem rústico, quase místico — uma versão mais trabalhada de Ys de Joanna Newsom. Além disso, a faixa conecta muito bem com a canção seguinte, “Solar Power”, visto que enquanto na primeira ela coloca toda sua esperança no sol, na segunda, aproveita e exalta essa atitude. “Let’s hope the sun will show us the path, path”, ela canta em The Path, e completa em na faixa-título: “Forget all of thе tears that you’ve cried / It’s ovеr”. Por mais que a música que dá título do álbum não tenha o significado tão complexo que muitos apontaram, essa ainda carrega um dos melhores momentos sonoros do disco, seja pelos sons ambientes ou pelo trompete. 

Por fim, enquanto “Stoned at the Nail Salon” tem uma produção que só consegue se manter em pé pelos detalhes que são muitas vezes difíceis de se apreciar, uma história triste e emocional sobre a morte de um cachorro surge em “Big Star”, e o sentimento de ansiedade pelo futuro, mas carinho pelo presente aparecem sob batidas amadeiradas em “Oceanic Feeling”. Ironicamente, “Fallen Fruit” é um dos melhores momentos do álbum mesmo com seu som inacabado e lírica confusa. Isso se dá pelo simples fato de haver poucos momentos onde Lorde soa como ela antiga. Ao longo de todo o disco, Ella parece com saudades  de seu passado. “Don’t you think the early 2000s seem so far away?”, ela canta em “Mood Ring”. Dessa forma, o disco é perfeito em um ponto: na representação confusa do momento atrapalhado que a cantora está. Lorde está ansiando por algo novo, mas não consegue desfrutar totalmente disso por não estar pronta para seguir em frente e por ainda estar presa demais ao seu passado. Um dia ela irá, mas não hoje e não com Solar Power.