2022

Atlantic

Special

Em seu quarto disco, Lizzo dá continuidade à sua narrativa de amor-próprio, embora ela não tenha mais nada interessante para dizer.

4.8
EM 05/08/2022

Grande parte das canções de Lizzo são elaboradas em cima de suas próprias experiências. Logo na infância, ela lidou com as pressões de uma sociedade opressora, tendo que encarar comentários acerca de seu próprio corpo e etnia. “Como uma mulher negra gorda nos Estados Unidos, eu tive muitas palavras odiosas usadas contra mim, então posso entender o poder que as palavras podem ter”, ela disse. Isso fez com que ela usasse suas músicas como uma forma de expressão e empoderamento, uma maneira de escape dos olhos de terceiros e um caminho para se encontrar. Nesse sentido, suas faixas de autoestima se tornaram um dos melhores traços de suas composições. Desde “Juice”, de Cuz I Love You, até “My Skin”, de Big GRRRL Small World, todas carregavam uma energia de profundo desejo de fazer as pessoas entenderem que tudo que elas precisam realmente fazer é se amar.

Ok, mas o que acontece quando seu discurso se torna redundante e você soa como um disco arranhado?

Special, o quarto registro de Lizzo, é o que acontece. Produzido majoritariamente por Max Martin e, inicialmente, chamado de In Case Nobody Told You, Special dá continuidade para incansável — e agora irritante — narrativa da cantora de espalhar amor-próprio. Diferente de suas outras obras, que andavam na linha entre boas intenções e uma forma de canalizar traumas, esse novo disco é pleonástico, clichê e fortemente esquecível. “Ela (mãe de Lizzo) sempre me fez sentir especial. Caso ninguém tenha te dito ainda… Você é especial. Continue. Estou orgulhosa de você”, disse a cantora sobre a inspiração para nomear seu último lançamento. Mas, diferente do que Lizzo acredita, Special, com suas músicas apáticas de curta duração, é tudo, menos especial.

Posso falar seguramente que esse é o pior álbum de Lizzo até agora. Se, em seus primeiros trabalhos, ela era desafiadora por seu estilo e visão não convencional e tinha uma mão realmente firme para tratar a respeito do seu passado, em Special, ela aparece quase inofensiva, com canções que estão longe de serem provocadoras, mas perto de serem vídeos educacionais para crianças — claro, sem os palavrões. “Grrrls”, por exemplo, trabalha com a ideia de suporte feminino entre mulheres, mas não consegue sustentar isso pela sua produção tenebrosa e pelos sons que Lizzo e os vocalistas de fundo ficam fazendo repetidamente. “Birthday Girl”, por sua vez, tem uma proposta interessante, mas a execução é… esquisita, com o refrão parecendo uma cantada ruim (“Is it your birthday, girl? / ‘Cause you lookin’ like a present”). Em outros casos, “Break Up Twice” é extremamente chata e “Everybody’s Gay” não cria uma metáfora muito legal entre as máscaras da covid e gays enrustidos. Em geral, grande parte de Special é sonso.

Mas se por um lado algumas dessas músicas serem curtas é algo positivo, por outro é o maior problema que reprime as ideias de Lizzo, não deixando elas correrem livremente. “The Sign” é assustadoramente desesperada, parecendo correr para conseguir fechar antes da marca de 3 minutos. O resultado é uma faixa que não aproveita seus vocais, composição ou instrumental, fazendo tudo passar batido. Por outra tangente, “I Love You Bitch” é curta ao ponto de ser difícil identificar sobre o que Lizzo está cantando, e até mesmo seu sucesso, “About Damn Time”, apesar de suas influências de disco e funk, não parece ter espaço para construir uma progressão, tendo um gancho anticlimático. 

No final, há momentos genuinamente honestos em Special. Nesses instantes, Lizzo olha para seu passado, entendendo quem ela é e com ela chegou até onde chegou, e não simplesmente celebrando uma felicidade que não é acessível para todos do jeito que ela acredita ser. Na faixa-título, a melhor canção do registro, ela canta para si mesma e para nós: “In case nobody told you today / You’re special”, enquanto uma instrumentação complexa de sintetizadores, baixos e sopros se desenvolve fluente no fundo. Da mesma forma, “Naked” lida com uma certa autoestima, mas também insegurança dentro de um relacionamento (I’m naked / Love how you look at me naked / Come make this body feel sacred / I’m a big girl, can you take it?) e “If You Love Me” conta com o refrão mais potente do álbum: “When the world can’t love me to my face/ When the mirror lies and starts to break / Hold me close, don’t let me run away / Don’t be afraid”. Entretanto, mesmo em seus momentos mais altos, é difícil encontrar algo especial. 

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