Sometimes I Might Be Introvert
2021 • RAP/HIP-HOP • AGE 101/AWAL
POR LEONARDO FREDERICO; 10 de SETEMBRO de 2021
9.1
MELHOR LANÇAMENTO

O termo “introvertido” foi introduzido à psicologia moderna por Carl Jung em 1913. Na época, ele havia acabado de fundar seu corpo de trabalho chamado psicologia analítica. Para ele, pessoas com introversão são aquelas que buscam energia de maneira interna, enquanto as extrovertidas procuram essa ao seu redor, sendo plenas aquelas que conseguiam realizar os dois, atingindo o equilíbrio. Contudo, desde então, ambos os termos — introvertido e extrovertido — tiveram seus significados moldados pelas transformações sociais. Segundo Mark Vernon, escritor e psicoterapeuta, Jung ficaria “horrorizado” com os novos conceitos que ambas as palavras assumiram. 

No entanto, dentro dessas diversas novas significações que surgiram nesses últimos, aproximadamente, cem anos, uma das mais interessantes foi a que Little Simz assumiu para o seu quarto disco, Sometimes I Might Be Introvert. O nome do disco tem origem em um dos apelidos de Simbiatu Ajikawo, o acrônimo Simbi. Em uma entrevista para o The Guardian, Simz disse que o álbum é, basicamente, sobre ela ser essa pessoa introvertida que tem todos esses pensamentos malucos, ideias e teorias em sua cabeça, e que, nem sempre, sente-se capaz de expressar isso, senão for por meio de sua arte. E o disco consegue capturar, em essência, esses sentimentos voláteis internos, entregando um trabalho grandioso, desafiador, refinado, elegante e ambicioso. 

A faixa de abertura, “Introvert”, é o melhor exemplo do que o álbum é capaz de concretizar. Em uma entrevista para o I-D, a cantora disse que ‎a canção é essencialmente ela encontrando poder dentro de sua introversão‎. E, de fato, é isso que ela faz, canalizando todos os seus desejos, poderes e ambições, que são cautelosamente arquitetados em sua mente, em uma catarse explosiva, vívida e genial. Com uma entrada triunfal e grandiosa, a música começa com uma orquestra de desfile, agindo quase como se estivesse anunciando a chegada de uma rainha ou rei. Na composição, por sua vez, Simz cria uma dualidade entre as lutas diárias que ela enfrenta dentro de sua cabeça e dentro da sociedade como uma mulher negra. “Sometimes I might be introvert / There’s a war inside, I hear battle cries,” ela começa, e termina depois: “Projecting intentions straight from my lungs / I’m a Black woman and I’m a proud one”.

Essa primeira canção, uma quase faixa-título, reflete também um pouco do trabalho anterior de Simz. GREY Area, de 2019, ficou marcado pela sua união de uma vulnerabilidade poética e responsabilidade política. Em Sometimes I Might Be Introvert esse legado. Enquanto em “Woman”, com Cleo Sol, a rapper faz um panorama sobre várias mulheres negras ao redor do mundo, em “Little Q Pt 2” ela narra, da visão de um jovem negro londrino, as dificuldades do cotidiano. Ela canta: “Imagine being in a hospital, wired up to the machines / They told me I had been in a coma for two weeks / But time is an illusion, my mind told me I’m invincible / But my body reminded me I’m human”. Dentro do grupo dos melhores compositores da atualidade, Simz se encontra como aquela de visão perspicaz que construiu seu próprio estilo narrativo verossímil. 

Todavia, mais do que ninguém, Simz sabe das necessidades humanas e que uma luta constante não é capaz de satisfazer alguém por completo. Dessa forma, sua lírica singular se vira também para o amor. Com um sample de “The Agony and the Ecstasy”, de Smokey Robinson, cenas da cantora ao lado de seu amor, ouvindo Kendrick Lamar, fumando maconha e observando coalas surgem em “Two Worlds Apart”. Essa visão, porém, assume um viés mais sensual em “I See You”, quando ela batidas de vozes sintéticas pairam sobre o ar, e Simz canta: “I’m speakin’ your love language, readin’ body language”. Por outro lado, as definições podem nem sempre ser claras. Colaborando com “How Did You Get Here”,  peça na qual ela narra sua história até os dias de hoje — “All I had was my brain and my hunger, had to use that as tools” —, “I Love You, I Hate You” chega como um dos pontos altos, uma carta direta e grossa da rapper para seu pai. Enquanto uma voz ressoa a antítese que dá nome a música, Simz canta: “You made a promise to give them a life you didn’t live / Never thought my parent would give me my first heartbreak”. Com o tempo, a faixa se torna cada vez maior, construindo-se em paralelo com o sentimento de abandono paternal. 

Uma das coisas mais interessantes sobre Sometimes I Might Be Introvert é como a rapper constrói essa espécie de universo mágico deturpado quando realiza a concretização de seus desejos artísticos. Isso fica claro, principalmente, no papel dos interlúdios, ao longo de todo o disco, que, em conjunto com a faixa de abertura, constroem esse ambiente fantasioso, digno de um longa-metragem de conto de fadas da Disney. Olhe, por exemplo, para o coro de crianças em “Little Q Pt 1” ou para a caixa de música em “Gems”,  que materializam imagens de fadas e uma floresta encantada e cintilante em sua cabeça. Porém, o disco vai muito além de apenas entregar um ambiente bem sustentado, mas também usa ele inteligentemente. Isso porque as composições de Simz aqui, em grande maioria, são fortes críticas sociais, as quais entram em conflito com a imagem que os filmes dos estúdios de Walt Disney sempre quiseram passar. É um contraste mais do que curioso, é impressionante. 

Mas, o erro de Simz, em Sometimes I Might Be Introvert, é sua incapacidade de mensurar seus excessos. Isso se concentra principalmente na segunda metade do álbum, onde as canções param de soar excitantes em todos os aspectos e começam a ser dotadas de apenas alguns pontos. Em outras palavras, olhe para “Point and Kill”, com o cantor nigeriano Obongjayar, e “Fear No Man”, que, apesar de contarem com refrões cativantes e divertidos, não conseguem adicionar nada ao resultado do álbum. Na faixa de fechamento, “Miss Understood”, Simz canta, perguntando para si mesma: “Hey, sis, how’s your day been?/ How’s your love life, who you datin’? / Oh, he fucked up? Girl, I had the same thing / But there’s a bigger picture God is painting”. Para se acalmar, ela promete para si mesma um futuro melhor — melhor do que o presente. Alguns minutos antes, em “The Rapper That Came to Tea (Interlude)”, Emma Corrin anuncia: “Never look back, your destiny awaits”. Simz sabe disso e está preparada, mas sabe que apressar as coisas nem sempre é o melhor a se fazer. Até lá, ela está se divertindo e sendo responsável, tornando-se cada vez mais única.