SOUNDX

NO THANK YOU

2022 •

Age 101 / AWAL / Forever Living Originals

7.8
NO THANK YOU, seu último álbum lançado no final do ano passado, dá continuidade a essa busca insaciável de autoconhecimento, mas ele torna difícil de recordar os passos que você deu.
Little Simz - No Thank You

NO THANK YOU

2022 •

Age 101 / AWAL / Forever Living Originals

7.8
NO THANK YOU, seu último álbum lançado no final do ano passado, dá continuidade a essa busca insaciável de autoconhecimento, mas ele torna difícil de recordar os passos que você deu.
27/01/2023

Uma das frases mais marcantes do quarto disco de estúdio de Little Simz, Sometimes I Might Be Introvert, é uma questão de relacionamentos intrapessoais que também reflete crises internas de autoconsciência. “Simz the artist or Simbi the person?”, a cantora de 28 anos canta na música de abertura do registro, “Introvert”. Em princípio, essa pergunta é destinada àqueles que conhecem apenas um lado da artista. Ela completa algumas em seguida: “To you I’m smiling, but really, I’m hurting”, teatralizando o viés de seus versos afiados serem voltados em crítica para aqueles que desconhecem ela em sua totalidade. Essa é uma abordagem saturada para endereçar uma certa desconexão indesejada entre seu público e você, mas que também pode ser trabalhada por outra lente: e quando nem você sabe direito a diferença entre as mais diversas facetas que existem dentro de sua mente? 

Por toda extensão de sua relativamente curta, ainda que ótima, carreira, Little Simz vem tentando buscar pela resposta de sua palavra. Sometimes I Might Be Introvert, vencedor do prêmio Mercury no ano passado, foi o primeiro esforço de Little para concretizar uma resolução. No meio de críticas políticas que refletiam a difícil situação de mulheres pretas, Simz ainda tinha tempo para pincelar sobre suas crises internas (“There’s a war inside, I hear battle cries”) — não que ambos elementos estivessem desvinculados, mas ainda havia uma dupla direção que contemplava a maioria as faixas. NO THANK YOU, seu último álbum lançado no final do ano passado, dá continuidade para essa busca insaciável que todos nós temos: descobrir quem realmente somos e nosso verdadeiro propósito. Esse é um disco ainda mais introspectivo e contido, mas que carrega como sua consequência ser mais cansativo e difícil de recordar. 

 NO THANK YOU traça o caminho da introspectividade. O que difere, dessa vez, é que, se antes esse desenvolvimento do autoconhecimento era secundário as batalhas sociais de Simz como mulher preta, aqui isso toma as rédeas da carroça. Em “Angel”, com seus toques de soul, ela debruça-se em analisar as relações e promessas da indústria musical contemporânea, e como, em oposição, ela agradece e prefere jogar do lado seguro e fora dos holofotes — “Never cared about bein’ immortalised”, ela começa. No entanto, esse sentimento de andar em falso e pisar em ovos não é limitado para dentro de brilhos de premiações e plataformas de streaming, mas em escala pessoal em “Silhouette”, sendo minimamente vingativa em seu teor: “Your insecurity won’t break me down / You only see the silhouette, but don’t hold your breath”. Esse segmento se concretiza em duas faixas na metade do álbum, “X” e “Broken”, que acabaram sendo essas duas bíblias de versos rápidos, ácidos e afiados em que Simz discorre sobre uma ampla variedade de temas — trauma geracional, crises mentais e a perda de solidariedade —, construindo um repertório quase que inigualável nos dias de hoje. 

Todavia, se liricamente o registro consegue manter o nível de seus outros registros, ainda que olhando para outro lado, sonoramente existe uma carência clara com relação à presença de algo memorável e que se mantenha. Voltando nessas mesmas canções, “Angel”, por exemplo, é sutil até demais, dificilmente dando o vislumbre que as palavras da artista precisam. Enquanto isso, “Silhouette” soa vaga e oca, e “Broken” confia além da conta em deixar-se ser toda sustentada apenas nas palavras. No final do disco, claro, há momentos de gás, como os sintetizadores experimentais de “Sideways” ou o piano da balada da canção final, mas ainda assim não conseguem despertar um desejo de voltar para essas canções — pelo menos não da mesma forma que ocorre nos outros discos de Simz. De forma geral, por fim, isso é um esquema que acaba se refletindo em toda canção do disco: acerta em um ponto, mas peca em outro. Penso que eu gosto de ver NO THANK YOU como uma pequena joia: ela brilha, mas sempre tem algo mais brilhante e chamativo ao lado. 

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