Sinner Get Ready
2021 • EXPERIMENTAL • SARGENT HOUSE
POR LEONARDO FREDERICO; 13 de AGOSTO de 2021
8.4
MELHOR LANÇAMENTO

Uma das maiores contribuições que o diretor indiano, naturalizado nos Estados Unidos, M. Night Shyamalan deu ao cinema foi sua obra A Vila, de 2004. No filme acompanhamos um pequeno vilarejo isolado, onde todos os cidadãos são conscientes da vida dos outros. Nessa ínfima comunidade, a religião é algo mais do que importante, sendo a grande ditadora irrefutável de todas as leis que comandam as pessoas. O ambiente é silencioso, triste e obscuro. O isolamento humano, por sua vez, passa a sensação de que a única vida humana que existe e já existiu são aquelas pessoas que estão ali. É um cenário assustador, mas que consegue ser bizarramente intrigante e convidativo. 

O quarto álbum de estúdio de Kristin Hayter sob o nome artístico de Lingua Ignota, SINNER GET READY, é a versão sonora do famigerado filme de Shyamalan. O disco, segundo a cantora, foi inspirado por comunidades religiosas rurais de Inglaterra. “‎SINNER GET READY, no qual procuro, mas não consigo encontrar Deus no próprio País de Deus, no qual encontro traição e abandono, medo e solidão, julgamento”, disse ela na publicação de divulgação pelo Instagram. “Eu dei um lugar à minha dor, e o lugar se chama Pensilvânia, e o disco se desdobrou em conjunto com a dor, e a paisagem me envolveu ainda mais”, ela continuou. E, de certa forma, Hayter conseguiu construir tudo isso na sonoridade e composição do disco. O álbum é assustador, potente e muitas vezes perturbador, mas é igualmente fascinante, hipnotizante, imersivo e atmosférico. Há tempos um álbum não soava tão singular assim.

Para aqueles que acompanharam o trabalho de Chelsea Wolfe nos últimos anos, é fácil lembrar de Birth of Violence, de 2019, enquanto você ouve esse disco. Nele, Wolfe assume o papel da mãe da violência, sendo pintada na capa do álbum como uma espécie de entidade maligna prestes a se esfaquear. Contudo, em SINNER GET READY, Kristin parece levar não apenas o contexto, mas também si mesma a novos patamares. Ao longo de todo o projeto, Hayter concebe uma personagem que não obedece nenhuma lei universal conhecida até hoje. Ela é o bem e o mal, o mecânico e o orgânico, o sintético e analógico, é vulnerável e poderosa, o tudo e o nada em simultâneo. Nos primeiros segundos do disco ouvimos sintetizadores distorcidos, verdadeiramente semelhantes aos de You Won’t Get What You Want, o quarto álbum do Daughters. Em seguida, ainda na abertura “THE ORDER OF SPIRITUAL VIRGINS”, testemunhamos a voz da cantora sair de dentro de uma grande catedral, enquanto os vocais de fundo soam como jovens gritando em agonia. Na letra, Hayter surge como uma catástrofe sobrenatural: “Hide your children, hide your husbands / I am relentless, I am incessant, I am the ocean”. Depois, ela anuncia: “All who dare look upon me swear eternal devotion”, e você acredita nela. 

Mas a personagem que Kristin adota em SINNER GET READY é muito mais do que a combinação improvável e muitas vezes intangível dos opostos, mas é também mutável. Em “REPENT NOW CONFESS NOW” ela deixa sua aura de entidade que se colocou acima de toda a humanidade e assume a identidade de um padre, gritando para seus fiéis: “Repent now, repent now / Remember this body is not your home”. Em “PENNSYLVANIA FURNACE”, contudo, ela parece desistir de seus poderes e assume o papel mais vulnerável do álbum, fazendo uma relação entre uma lenda local da Pensilvânia em que um ferreiro jogou seus cachorros na fornalha e os tais voltaram para arrastar ele para o inferno. Na canção, ela compara o sofrimento dela com os cachorros do mito e canta: “Me and the dog, we die together / Within the lord, I cast off all my earthly bonds”. 

O contexto e o cenário em que Hayter trabalha os eventos do álbum também são construídos excepcionalmente. Para ela não importa apenas que você entenda o que ela quer falar, mas sim que você também seja imerso em uma experiência completa. Ademais, é interessante observar que Kristin dá ao ouvinte apenas o básico para fazer a imaginação florescer, o restante está por ele. Em “I WHO BEND THE TALL GRASSES”, por exemplo, a cantora grita com uma voz forte e grossa, quase como se tivesse tendo sua alma arrancada de seu corpo. Graças ao órgão sombrio que toca ao fundo, você consegue pintar facilmente a cena, em sua cabeça, de Kristin dentro de uma igreja destruída, criando um teatro taciturno.  

Todavia, por mais que as palavras e descrições injustas realizadas aqui tendam a conduzir você a entender que o álbum mostra Hayter em oposição ao cristianismo, não é muito bem isso que acontece. Na verdade, ela não confessa sua lealdade, amor ou confiança ao diabo, mas raramente elogia Deus ou pinta ele como um ser totalmente livre de defeitos. Ela não é satanista, mas prega para si mesma que confiar cegamente em deuses não é algo sábio a se fazer. “MANY HANDS”, um dos momentos mais potentes no álbum, mostra a cantora em uma espécie de conversa hierárquica com Deus. “The Lord spat and held me by my neck / ‘I would die for you, I would die for you’ he wept / The Lord held me by my neck / ‘I wish things could be different’ he wept”, ela canta. Nessas curtas palavras, ela parece simbolizar que apesar de Deus conseguir acabar com todo o sofrimento dela, ele não vai fazer isso. 

Outrossim, as críticas e desconfianças de Kristin não são reservadas apenas para a nata da religião, mas sim para aqueles que decidem ser cegos e continuar sem enxergar uma suposta verdade. Os primeiros segundos de “THE SOLITARY BRETHREN OF EPHRATA”, o fechamento do álbum, mostram uma entrevista da CNN realizada no ano passado na qual um jornalista pergunta para uma mulher se ela não estava preocupada em frequentar a igreja com outras pessoas, correndo o risco de se contaminar com o vírus da COVID-19. “I’m covered in his blood! Thank you very much”, a mulher responde. Em um caso mais grave, “MAN IS LIKE A SPRING FLOWER” reproduz um trecho de uma entrevista de Debra Murphree para o programa Good Day! sobre o caso de Jimmy Swaggart, um evangelista acusado de escândalo sexual. Hayter não está preocupada apenas com o fato das pessoas não enxergarem o seu redor, mas também o que isso as levam a fazer. Acima de tudo, os comentários dela são ácidos para aqueles que não enxergam, mas libertadores para aqueles que escolhem acreditar nela.