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Let's Start Here

2023 •

Quality Control Music / Motown / UMG Recordings

8.5
Após uma série de fracos lançamentos, Lil Yachty surpreende a todos e lança um álbum de música psicodélica com uma excelente produção e que faz jus aos clássicos do gênero.
Lil Yachty - Let's Start Here

Let's Start Here

2023 •

Quality Control Music / Motown / UMG Recordings

8.5
Após uma série de fracos lançamentos, Lil Yachty surpreende a todos e lança um álbum de música psicodélica com uma excelente produção e que faz jus aos clássicos do gênero.
01/02/2023

Reinvenção, um ato arriscado que, na música, muitas bandas e artistas tentaram praticar, uns saindo muito bem-sucedidos do outro lado, enquanto outros, nem tanto assim. Já houve casos em que a banda colocou o coração e alma na estética nova e, por acaso, acabaram revolucionando um gênero e sendo um ponto de referência para inúmeros projetos que viriam depois. Um clássico exemplo disso foi quando Radiohead deixou todos os fãs coçando a cabeça e se perguntando se o grupo havia enlouquecido, quando eles resolveram mudar completamente o rock alternativo e art-rock que haviam explorado nos seus três primeiros álbuns, por um som muito mais experimental, eletrônico e abstrato que eles aprofundaram em Kid A, um feito que, até hoje, é considerado uma das maiores reviravoltas na história da música. Porém, em outros casos, a necessidade que um artista tem de se reinventar, pode vir ao custo de uma queda considerável em qualidade. Um exemplo bem recente disso foi quando Machine Gun Kelly, até então um rapper e trapper, resolveu abandonar essa cena de que fazia parte e entrar de cabeça no pop-punk, um ato que, vamos apenas dizer, não teve a melhor das recepções.

Mas, afinal, o que leva um artista a se reinventar? No caso de Radiohead, Kid A foi uma resposta direta à frustração e ao cansaço que a banda sentiu após a estressante turnê de seu álbum anterior, Ok Computer. É um projeto que, devido ao seu som pouco acessível e à divulgação quase nula que o grupo realizou na época, pode ser visto como uma espécie de protesto anti-comercial. Já no caso de Machine Gun Kelly, sua transição para o pop-punk se decorreu, principalmente, depois que Eminem lançou sua faixa diss Killshot” contra o artista, essa sendo uma resposta à faixa “Rap Devil”, do próprio Machine Gun Kelly. Esse evento acabou colocando em questão a legitimidade e o respeito que Kelly tinha como um rapper, que, convenhamos, mesmo antes de “Killshot”, eram quase inexistentes.

No entanto, agora nós temos um caso muito interessante, pois, em seu quarto álbum de estúdio, Let’s Start Here, o trapper Lil Yachty, também resolveu que os tempos exigiam uma mudança no seu estilo, e, com essa resolução em mente, realizou o inesperado: uma radical transição de som, este que, previamente na sua carreira, era dominado pelo trap e pop-rap, mas que agora, nesse novo LP, transformou-se em um rock e soul psicodélico que, não só são extremamente bem produzidos, como também fazem jus aos gêneros e às claras influências que o artista teve durante o processo de criação do projeto. E você pode talvez estar se perguntando qual o motivo dessa mudança. Bom, por hora, apenas guarde essa questão na cabeça, antes de mais nada, é necessário entender o porquê dessa transição de estilo que Lil Yachty realizou ser não apenas muito inesperada, como também importantíssima para o gênero em si.

Vamos voltar um pouco as coisas. Em 2017, Yachty lança seu primeiro LP, Teenage Emotions, este que foi recebido com desprezo por maior parte do público e crítica. Vale também mencionar que, a partir desse álbum, na canção “Peek a Boo”, veio a infame letra que se tornaria uma piada durante o resto da carreira do trapper: “My new bitch yellow / She blow that dick like a cello”, na qual ele basicamente diz que o violoncelo é um instrumento que você precisa assoprar para tocar, sendo que, na realidade, violoncelo é um instrumento de corda. E, para piorar a situação, um tempo depois, Yachty explicou em uma entrevista com o site Genius que essa confusão aconteceu pois, nas palavras dele “eu achava que o Lula Molusco tocava o violoncelo, mas ele não toca, ele toca uma flauta”. Lula Molusco, personagem de Bob Esponja, toca um clarinete. Outro fato que também não ajudou Yachty na época, é que esse era o tempo em que o estilo de música que ele estava criando, apesar de muito popular, estava sendo extremamente criticado pela mídia de rap no geral, por ser um estilo com letras sem muita profundidade, substância, ou simplesmente repetitivas. Por conta disso, os próximos três álbuns que o artista lançou no decorrer dos anos, acabaram sendo tão criticados quanto a sua estreia.

Com tudo isso em mente, é fácil entender por que houve um certo espanto com esse novo projeto, afinal, ninguém iria esperar que Lil Yachty fosse lançar algo sequer parecido com “the BLACK seminole.”, a faixa de abertura de Let’s Start Here. Nela, nós conseguimos logo de cara perceber a forte influência que bandas de rock psicodélico, como Pink Floyd, tiveram na criação desse LP, não apenas pela épica atmosfera psicodélica que é criada nessa música, atmosfera essa que também destaca a fantástica produção que perdura pelo resto do álbum, mas também pelos incríveis solos de guitarra, que são dignos de qualquer clássico do gênero. Na parte lírica, Lil Yachty diz fazer parte dos negros seminoles, uma comunidade de nativos afro-americanos, que estão dispersos, principalmente, em Oklahoma, Texas e no Norte do México, sendo eles, na sua maior parte, descendentes de africanos livres e escravos fugitivos. Enquanto isso, no instrumental, temos, em sua base, acordes de guitarra que são quase idênticos aos que estão presentes em alguns trechos da épica canção “Dogs” de Pink Floyd. Apesar de que, quanto mais ouço esta faixa, mais me pergunto se esses acordes parecidos foram uma adição proposital ou apenas uma ótima coincidência. Porém, se tem algo que com certeza não foi colocado nesta canção por coincidência, esse seriam os vocais de Diana Gordon, presentes na parte final da música. Cantando um solo vocal sem letras, ela entrega uma inesperada e fantástica performance, esta que é acompanhada por guitarras e sintetizadores dançando no instrumental ao fundo, criando um momento carregado de energia e emoção, e fazendo uma clara referência à “The Great Gig At The Sky”, quinta faixa do clássico The Dark Side Of The Moon, e a base de inspiração deste momento no álbum.

Apesar de ser menos grandiosa e mais calma que a canção anterior, “the ride-” não perde o nível de qualidade. Um lick de guitarra cerca o instrumental, com notas de sintetizadores aparecendo no refrão, criando uma atmosfera que imediatamente coloca o ouvinte em um estado de relaxamento. O rapper Teezo Touchdown, aqui marcando sua primeira colaboração com Lil Yachty, conta com um verso na segunda parte da música, este que fala sobre fama, e as consequências negativas que ela pode trazer: “All of the things I once enjoyed doesn’t bring joy / It just bring noise, it just bring noise”.

Em “running out of time”, o clima neo-psicodélico abre espaço para um som um pouco mais pop. Esta faixa conta com uma linha de baixo que cria um groove impecável, fazendo deste um dos momentos mais acessíveis e divertidos do LP inteiro. Outro detalhe interessante, é que essa canção é produzida pela dupla de electropop, Magdalena Bay. Isso mostra como Yachty não quis ficar preso com os mesmos produtores de trap com quem ele sempre trabalhou. Neste álbum, ele quis expandir tudo, e entendeu que isso também significa trabalhar com novas pessoas e conseguir diferentes pontos de vista. Dito e feito, na música “drive ME crazy!” o cantor Mac DeMarco é creditado como escritor. Esta canção, que conta com mais uma participação de Diana Gordon, dessa vez cantando um verso e o refrão, é mais uma com um groove impecável, e, dessa vez, pegando vários elementos de soul psicodélico, parecendo uma versão modernizada de algo que grupos como os Isley Brothers fariam lá nos anos 70. Por ser uma simples balada romântica, as letras nesse momento do álbum são bem básicas e talvez deixem um pouco a desejar, mas isso chega até a ser um pouco benéfico, já que essa simplicidade toda, somado ao instrumental cativante aqui presente, fazem com o que o refrão grude na sua cabeça, igual chiclete.

Mac DeMarco novamente marca presença na parte lírica, dessa vez junto ao cantor Alex G, na faixa “:(failure(:”, esta que serve como um interlúdio no álbum. Através de um monólogo, que é acompanhado por vários sintetizadores, acordes de violão, vocais de fundo, todos ecoando e cheios de efeitos, Lil Yachty reflete sobre erros que ele cometeu, ou que alguém pode vir a cometer, e como lidar com a pressão que esses erros trazem. É uma faixa que talvez quebre um pouco o andamento do álbum, principalmente quando você o ouve mais de uma vez, mas mesmo assim, é um momento muito bonito, talvez até inspirador, que serve como uma boa reflexão sobre as várias críticas que Yachty recebeu no decorrer de sua carreira.

Com uma transição bem limpa e agradável aos ouvidos, o álbum parte para “THE zone~”, uma canção com forte ênfase nos sintetizadores e guitarras carregadas de efeitos, criando algo que parece ter saído direto de um álbum do Tame Impala. A cantora Justine Skye faz uma participação no segundo verso, que se encaixa muito bem com o clima da música, um que não é tão explosivo ou épico, mas novamente, graças a impecável produção, consegue colocar o ouvinte em um estado tranquilo e de paz, este que torna a transição para a próxima faixa “WE SAW THE SUN!” quase que imperceptível. E esta canção é um momento altíssimo no álbum, novamente tendo como forte inspiração a banda Pink Floyd no instrumental. Esta é também outra vez em que a produção do LP brilha e se torna impossível de passar despercebida, é difícil descrever todos os efeitos sendo usados aqui, mas entre a sensação trêmula que é aplicada na voz de Lil Yachty, um forte crescente de barulhos estáticos, e o sample de “Echoes” (sim, Pink Floyd de novo) que pode ser escutado em vários momentos na canção, a atmosfera criada é sem igual, e passa ao ouvinte a sensação de realmente estar vendo o nascer do sol após virar uma noite inteira alucinando sob efeitos de LSD. A música termina com mais uma inesperada participação especial, desta vez sendo um clipe de áudio do pintor Bob Ross, dando um discurso bem motivacional sobre não se preocupar ou se estressar muito com algo, e apenas deixar a sua imaginação fluir.

Com toda a atmosfera psicodélica em que o LP aposta, é de se esperar que eventualmente ele iria ter alguma música falando sobre drogas e psicodélicos, no caso, esta música é “IVE OFFICIALLY LOST VISION”. A canção começa com um grito e barulhos distorcidos que, aos poucos, começam a flutuar de um lado do fone de ouvido para o outro e então abrem espaço para uma forte e rápida batida que faz com que essa faixa acabe se destoando do resto do álbum. Na parte lírica, o rapper fala sobre tudo estar girando, que ele foi enviado para um hospício, que ouve vozes na sua cabeça e que, oficialmente, perdeu a visão, claramente referenciando a experiência que alguém pode ter durante uma bad trip.

Entretanto, mesmo acertando em muitas frentes, esse álbum não escapa de ter seus defeitos. Como já mencionei, o interlúdio “:(failure(:” apesar de bonito, quebra um pouco o ritmo do projeto. Existem também momentos que são um pouco desnecessários, como por exemplo a faixa “pRETTy”. Nela, o instrumental, que em boa parte é criado com efeitos na voz de Yachty chega a ser bem irritante, e a canção em si é um pouco monótona, o que faz com que ela tenha quase nada para justificar sua existência no LP. Outra coisa que, infelizmente, também incomoda, é como, vez ou outra, Lil Yachty se inspira demais em um tipo de som, ou em uma banda, fazendo com o que o resultado final acabe se tornando apenas um derivado dessa inspiração, e não algo original ou inovador.

Porém, eu não posso deixar de notar e elogiar a música que encerra o álbum, “REACH THE SUNSHINE”. Aqui, o rapper mais uma vez surpreende o ouvinte, não apenas pela participação especial do cantor de R&B contemporâneo Daniel Caeser, mas também pela interpolação extremamente inesperada e nada menos que genial da canção “Pyramid Song”, do Radiohead, essa que ocorre desde o primeiro verso da faixa e continua até o lindo e grandioso instrumental que termina a canção.

No final das contas, toda a surpresa com este novo projeto, se dá ao fato de que Lil Yachty está claramente disposto a brincar com gêneros e influências novas, apesar de durante toda sua carreira, sempre parecer um artista estagnado no mesmo estilo.  E essa estagnação é algo que parece infectar cada vez mais o rap e trap mainstream, principalmente com o subgênero “rage” e a gravadora Opium, de Playboy Carti, ganhando cada vez mais espaço dentro da cena. A cada semana, artistas nos entregam projetos que, ou soam basicamente iguais aos anteriores, ou são uma versão pior do que Carti já fez em 2020 com Whole Lotta Red. E, por isso, é de extrema importância que outros rappers olhem o que está sendo feito em Let’s Start Here e talvez anotem uma coisa ou outra. Por fim, o espanto com esse novo LP também ocorre pois, como pudemos notar, Lil Yachty nunca foi um dos artistas mais respeitados dentro gênero, sua credibilidade como um rapper e até sua inteligência, já foram várias vezes colocadas em questão, e isso nos faz entender a razão de sua reinvenção: a fim de comparação, assim como Machine Gun Kelly, Yachty não era levado a sério dentro de seu gênero musical, seu espaço, então ele resolveu ir para outro. E, assim como Radiohead, ele também estava cansado, porém, nesse caso, cansado de todas as críticas e comentários negativos que foram sempre feitos em direção à ele. Em conclusão, se tem uma coisa que este novo LP nos ensina, é que nunca devemos julgar um livro pela capa, mesmo que essa capa não saiba ao certo a diferença entre um violoncelo, uma flauta e um clarinete.

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