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The Happy Star

2022 •

Nixie Music

8.5
Em The Happy Star, Lexie Liu surge a partir do ritmo incessante de sintetizadores industriais enquanto percorre por uma temática repleta de simbolismos e religiosidade.
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The Happy Star

2022 •

Nixie Music

8.5
Em The Happy Star, Lexie Liu surge a partir do ritmo incessante de sintetizadores industriais enquanto percorre por uma temática repleta de simbolismos e religiosidade.
14/12/2022

“Somente quando tivermos certeza de quem realmente somos, não teremos medo da incerteza do mundo exterior”, comenta Lexie Liu no momento em que disserta sobre o seu novo álbum, The Happy Star, lançado após três anos de espera. Muito se falou, nesse tempo todo, sobre quais os caminhos que a estrela chinesa iria seguir na tão aguardada sequência do disco 2030, de 2019. Esse questionamento, feito principalmente por fãs, ficou ainda mais intenso quando, no ano passado, Liu surgiu promovendo 上线了 GONE GOLD, EP responsável por redirecionar a abordagem musical tomada por ela em seus últimos trabalhos. Inspirada no EBM (electronic body music), a vimos progredir entre ganchos pesados e dançantes, mantendo, ao mesmo tempo, em todas as faixas do projeto, a energia destemida que chamou a atenção do público tanto dentro, quanto fora da China.

The Happy Star, apesar de não ser 100% focado em uma sonoridade, acaba remetendo muito ao EP de 2021, porém, com diferenças consideráveis no sentido narrativo. Procurando respostas sobre questões existenciais, Lexie mergulha na prática espiritual de algumas filosofias orientais, prezando por meditações e reflexões acerca de tudo ao seu redor. E um dos meios de entender como a espiritualidade reflete intensamente nesse álbum é ouvindo a faixa “Shanti”, que deriva do “Shanti (Pavamana) Mantra”, um mantra geralmente usado na prática de ioga e que, por sua vez, também se faz presente na estrutura da canção “Shanti / Ashtangi”, do LP Ray Of Light, lançado em 1998 por Madonna.

Ao entregar essa proposta recheada de abstracionismo, a artista aparenta não se conter em dimensão alguma do seu discurso recheado de especulações, o que demonstra um excelente repertório do qual pouco vemos ser utilizado no âmbito geral da música atualmente. Em “3.14159”, fórmula do Pi (π), por exemplo, Lexie torna a expor a sua visão em relação aos loops temporais que comandam a natureza — representada na canção “Gaia” —, enfatizando a importância de fugir da rotina diária e encontrar a felicidade ainda que seja difícil nos desvincular dos ciclos da vida — uma referência a figura “O Louco”, das cartas de tarot. Embalada por uma produção electro-punk, ela canta: “Poderíamos ter sido qualquer coisa se pudéssemos parar de fazer sentido”.

Já na abertura, “FORTUNA”, Lexie Liu desponta de sequenciadores acelerados e instrumentos típicos da cultura egípcia, grandiosidade sonora comandada por vocais exuberantes e letras cantadas em inglês, chinês e espanhol. Com ritmo acentuado, “dance dance” explora os caminhos direcionados ao synthpop, outro elemento que, junto do EBM, formam o alicerce das diversas experimentações trazidas em outras canções. Na melhor delas, “MAGICIAN”, vemos o tarot, constantemente referido pela cantora ao longo da obra, sublinhar as letras compostas no material entregue. Dessa vez, a presença de significados divinatórios é ainda maior: “I came with power to create the world”, exclama Lexie pendendo para os simbolismos da cabala.

Nesse momento a imersão temática nos provoca sensações distintas. Afinal, um disco neste parâmetro, recheado de mistérios imateriais, faz com que a experiência provocada pela artista realmente demonstre os seus diversos efeitos em quem ouve. Em “DIABLO”, evidência pura da percepção causada pelos componentes líricos e sonoros do álbum, a cantora assume de vez o desejo pelo pecado e os vícios acometidos. Entre acordes e sintetizadores industriais, Liu, em espanhol, confessa: “Yo sé que quererte es un pecado pero no puedo dejarte ni un segundo, Diablo”.

“MIRA”, ainda que recorra aos elementos seráficos, consegue ser bem construída e fácil de mastigar. Olhando por fora, na verdade, The Happy Star por inteiro parece ser apenas um disco de música pop conceitual. Entretanto, mais do que isso, esse projeto se mostra uma grande fusão de estilos e gêneros trabalhados uniformemente para criar uma atmosfera acessível, porém, profundamente submersa na busca de um ideal comum. O tom monástico, usado para descrever os caminhos de Lexie Liu rumo a extirpação dos seus sentimentos, serve como um chamado aos seus pensamentos enriquecidos de asserções universais. Lexie, indiscretamente, torna-se uma figura altruísta ao nos guiar pela sua indispensável persecução filosófica.

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