Acoustic Sessions, Vol. I
2022 • ROCK/ALTERNATIVO • INDEPENDENTE
POR LEONARDO FREDERICO; 25 DE MARÇO DE 2022
7.5

Sessões acústicas vão muito além de apenas uma releitura de uma canção ou um álbum. Elas são como uma nova forma de experienciar determinada obra: é como se você estivesse pegando certa essência e colocando uma roupagem totalmente diferente nela, mas, ainda assim, mantendo o que faz ela ser o que ela é. No ventre do lançamento de seu terceiro disco de estúdio, Homogenic, a cantora islandesa debateu a importância de remixes, que para ela não eram apenas uma forma de reciclar uma canção, mas sim uma variação dessa. Da mesma forma, uma interpretação acústica emerge com um caráter diferente das versões normais. Na maioria dos casos, ainda, um viés mais intimista e emocional aflora.

O primeiro disco da banda portuguesa Letters from a Dead Man, Acoustic Sessions, Vol. I, é um ótimo exemplo da potência das sessões acústicas quando feitas da forma mais acertada e harmonizada possível. O grupo é um projeto conceitual de Hugo Piquer Branco, no qual o engenheiro transformou cartas em canções interpretadas por alguém em seus últimos dias de vida. O registro, por sua vez, é um trabalho que ressoa em tonalidades caseiras e familiares, reverberando fortemente sentimentos potencializados por traços de elegância sonora. Quebrando com a abordagem sintética de algumas canções em suas versões originais, o toque aconchegante dos vocais sereno e sossegado do cantor se mescla com as poucas notas de um violão, resultando em uma obra convidativa. 

Desde 2018, a banda vem lançando material, ainda que esporadicamente. O primeiro single deles, “Goodnight, My Dear, Pt. 1”, foi lançado em 2018, seguido por “Wait For Me”, do mesmo ano. Em 2021, mais duas faixas foram lançadas: “Unsafe Shores” e “When the Lights Go Out”. Todas essas peças se encontram em Acoustic Sessions, Vol. I, obviamente, em uma narrativa mais confidencial. Por um lado, algumas dessas canções se beneficiaram dessa nova perspectiva, principalmente “Goodnight, My Dear, Pt. 1”, em que o refrão parece se encaixar perfeitamente com o instrumental, algo que não acontece na versão original — apesar dessa segunda ter uma sonoridade mais interessante. Por outro lado, canções como ”Unsafe Shores” e “When The Lights Go Out” funcionam perfeitamente nas duas versões: ao passo que a primeira tem uma abordagem rock sintética e a segunda sofre com pinceladas das digitais do Beach House, ambas as versões simplistas ressoam como uma íntima varredura em um diário. “Even if you try to change my whole life / I will kiss you at the end”, o vocalista canta em “When The Lights Go Out”, a melhor deles. 

Em conjunto, há outras músicas que, embora ainda não estejam disponíveis no streaming, chegam direto na sua versão acústica — o que se torna ainda mais difícil de entender se elas funcionam ou não nessa nova estética. Felizmente, grande parte delas são boas. Enquanto “Back to Reality” brilha com detalhes na produção, essencialmente nas cordas, “The Inception of Beauty” floresce como uma das mais bonitas, como uma narrativa doce e calorosa: “I will always be the one around your heart”. Em contrapartida, mesmo que eu não tenha ouvido “When We Belong”, essa parece não funcionar muito, talvez pela necessidade de uma abordagem mais rápida e voltada para o pop. Por fim, “A Lover’s Dance” é uma das mais especiais, tanto pela produção que parece jogar Branco para dentro de um gravador amador, quanto pela composição, que retrata a dependência por uma pessoa: “I’m not saying ‘I love you’/ I’m just saying I need you”. Dessarte, conquanto o registro soe relativamente parado, ele ainda brilha na sua capacidade de ser honesto e cordial.