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Letrux como Mulher Girafa

2023 •

Altafonte

7.0
Após passar uma noite de climão e ficar aos prantos, Letrux surge como mulher girafa incorporando ritmos dançantes intensificados pela produção solar de João Brasil.
Após passar uma noite de climão e ficar aos prantos, Letrux surge como mulher girafa incorporando ritmos dançantes intensificados pela produção solar de João Brasil.

Letrux como Mulher Girafa

2023 •

Altafonte

7.0
Após passar uma noite de climão e ficar aos prantos, Letrux surge como mulher girafa incorporando ritmos dançantes intensificados pela produção solar de João Brasil.
13/07/2023

A carreira de Letícia Novaes, conhecida como Letrux em atuação solo, não é tão recente se considerar os trabalhos pela dupla Letuce que formava com seu ex-marido, o cantor e compositor Lucas Vasconcellos. Rumar a veia artística para um projeto singular lhe rendeu frutos verdadeiramente autênticos como Letrux em Noite de Climão, lançado em 2017. Muito bem recebido, o primeiro trabalho demonstra imponência pela sua interpretação maleável e sonoridades refrescantes para o cenário brasileiro. No mais, Letrux Aos Prantos, de 2020, se comporta como um caminho sinuoso que comprometeu a desenvoltura e a criatividade da artista, caindo em vícios do disco anterior. Seu mais novo trabalho, depois de três anos, Letrux como Mulher Girafa retoma, mesmo que por espaços desconcertantes, a extravagância novamente bem direcionada. 

Esse material conta com a produção majoritária de João Brasil, este que já havia trabalhado com a cantora nos tempos do grupo Letuce. O nome de Brasil como produtor é um ineditismo na carreira solo de Letrux, já que seus discos passados foram unicamente produzidos por Arthur Braganti e Natália Carrera. Mas não precisa ir muito longe para encontrar ambos nos bastidores comandando a guitarra, o piano, o sintetizador, atuam como coro e fazem de tudo um pouco — espaços que eles também já dominavam nos trabalhos anteriores. Em entrevista ao PapelPop, a multiartista revelou que esse novo projeto tem como intenção fazer uma reflexão sobre o humano a partir do reino animal. O próprio título do álbum é uma ressignificação que Letrux fez do apelido que ela ganhava devido sua altura: “Logo percebi que a girafa era um bicho lindo e quem me chamasse assim estava, na verdade, me elogiando”, conta Letícia.

Estranheza, extravagância, vergonha-alheia, que seja, os materiais de Letrux bebem dessa intenção e fazem disso a peça-chave para firmar sua autenticidade. Quando pensou em ser mais contida, enjaulando a essência animalesca, a artista reprimiu o próprio potencial com o morno Letrux aos Prantos. Desinibida e vindo mais endiabrada que o normal, Letícia Novaes libera toda a visceralidade conversando com a selva na tentativa de buscar a significância humana ao refletir sobre seu estado de espírito. O resultado chega sendo um material dançante, contagioso e expressivo ao máximo, tanta desenvoltura, no entanto, pode ser abstraída de maneira atravessada.

Construído de modo quase que documental, Letrux como Mulher Girafa é dividido entre vários intervalos que separam geralmente um conjunto de duas músicas, excetuando a solitária “Crocodilo” e o trio “Hienas”, “Abelha” e “Teste psicológico animalesco”. Mesmo que justificáveis e alguns até agregadores, o excesso desse recurso prejudica o andamento do disco, em especial “{intervalo a respeito do faro da girafa}” que não possui nenhum elemento enriquecedor a não ser falas indecisas e barulhos do estúdio de gravação. A canção que precede essa faixa, “Crocodilo”, também não tem peso significativo em comparação às demais, assim como a forma que ela foi colocada em meio a duas interludes realmente prejudicou seu potencial destaque. 

A animalidade de Letrux tem como principal acompanhante o carro-chefe “As feras, essas queridas”, canção em que a lírica retrata um ritual de caça e uma relação na qual o amor é tratado pela ótica animalesca, o conhecer alguém e se apaixonar. A composição diz “Te cacei pra mim, te tirei o couro / Tripas pra fora, tratei com amor / Embora não pareça, foi com amor que eu te / Destrinchei”. Facilmente um dos pontos altos do material, logo de início, a música adornada por sintetizadores causa a tensão requerida pela composição, já a percussão e a guitarra garantem a grandiosidade em tom quase que orquestral.

Mesclar idiomas já é marca registrada dos álbuns da artista, neste não poderia ser diferente. A música “Louva deusa” conduz um jogo muito interessante que justifica a adoção de outra língua. Refletindo sobre explicar uma falta de reciprocidade amorosa a alguém, Letrux adota o inglês para desenhar sua enrascada, assim como desvenda uma tentativa de resolver tal problema por outra língua. A letra aciona em sonoridade tropical: “Como se diz pra alguém / Eu não me apaixonei como você? / How do you tell someone / I didn’t fall in love like you did?”. Além do idioma, a composição faz uma relação com o ritual em que a louva-deus fêmea devora o macho após o acasalamento. Letrux pensa nisso para expressar um contato sem amor envolvido, apenas um momento de prazer sexual com outrem.

 Já a balada rock “Formiga” adota o inglês ao deus-dará, como expressa a letra. Em entrevista ao podcast Vamos Falar Sobre Música, a artista justificou o uso de outro idioma apenas para proferir um dito sobre a felicidade ser como uma bola que quando capturada é lançada novamente ao ar. Explica Letrux que, o inglês foi a maneira encontrada para tornar essa expressão menos brega do que se fosse cantada em português: “Happiness is like any kind of ball / Everybody wants it / But when they have, they’ll kick it / And I’m no different from that shit”. Liberdade ou não para essa adoção, a variação de idiomas deixa a música aleatória, apesar da sonoridade ser consistente.

A psicodelia toma conta com a contagiante “Zebra”, canção que vem com a excelente parceria de Lulu Santos em voz grave falando ao fundo, registro que relembra “Flerte Revival” do disco de estreia de Novaes. Em “Aranha”, uma música mais simples sem tantos detalhes, evoca-se uma tentativa de se igualar aos preceitos reparadores dos aracnídeos, ser mais frouxo, menos complicado e buscar conserto em meio ao caos. Temática complementada pela sonoridade acelerada de “Leões” e a reprodução de uma rotina dilacerante em que viver se condensa na desordem capitalista “E dia de a gente tem que matar / Um leão, dois leões, mil leões”. O ritmo corrido da faixa é um reflexo desse modo de vida.  

Chegando ao final do trabalho, o volume alto dos instrumentos se torna exagerado. “Hienas” não é dos registros mais fortes, soa como uma repetição das duas músicas anteriormente citadas. Com tanta referência animalesca, sons de bichos e exuberâncias que só Novaes transmite, o cansaço preenche o espaço de um disco potencialmente interessante. A faixa seguinte, “Abelha”, traz a calmaria que o álbum precisava para não degringolar no excesso. O espetáculo chega ao fim com “Teste psicológico animalesco”, registro que Letrux reflete sobre a possibilidade de suportar viver no Brasil somente sendo um animal. Para isso, ela introduz uma brincadeira que faz com seus amigos consistindo em pensar no bicho que eles seriam. Agitada e em coro intercalado com solo de guitarra na ponte, a canção é o encerramento assertivo para a temática do material.

A mente de Letícia Novaes funciona teatralmente, ela se insere no mundo da música dessa forma. Os títulos de seus discos possuem essência dramaturga, como se fossem espetáculos em que ela é a peça primordial. Após passar uma noite de climão e ficar aos prantos, Letrux surge como mulher girafa incorporando ritmos dançantes intensificados pela produção solar de João Brasil. A animalidade comunica às similaridades humanas encontradas na selva, na fauna, na savana e nos espaços que o ser humano pode frequentar, mas que se distancia por sua racionalidade. Afinal, pertencemos ao reino animal, o que nos afasta, em substância, é uma pretensa civilidade, nem sempre condizente. 

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