Pink Noise
2021 • POP/R&B • ATLANTIC
POR LEONARDO FREDERICO; 7 de JULHO de 2021
8.4
MELHOR LANÇAMENTO

Laura Mvula queria que seu terceiro álbum fosse sexy. “Eu queria que fosse. Eu precisava que ele fosse”, disse ela ao Apple Music. Para Mvula, seus dois primeiros álbuns, Sing to the Moon, de 2013, e The Dreaming Room, de 2016, nasceram de um desejo de levar a música a sério, mas talvez sério demais. “Eu tinha ficado tão à vontade com tudo sendo tão focado na música, como se fosse sua própria coisa, e de alguma forma eu estava mais ou menos separada disso”. “Desta vez eu queria estar na frente e no centro”, completou ela. Pink Noise é o resultado disso, o projeto onde ela se permitiu “pintar usando mais cores do que talvez eu tenha me deixado usar antes”.

Pink Noise é o melhor álbum da Mvula. É uma viagem nostálgica para o brilhante e glorioso passado dos anos 80. Com uma produção precisa e espaçada, ao contrário de qualquer coisa que Laura tenha feito até agora, o álbum entrega um sucesso atrás do outro. São canções cintilantes e espontâneas que nascem do desejo intrigante de Laura de se divertir, no entanto, ela nunca desiste de trabalhar em outros assuntos enquanto dança, chora, ou pensa demais. São também faixas visuais que conseguem mostrar cores neon de rosa e azul, ou até mesmo Mvula em um palco luzente cantando um hino de R&B atemporal. A coisa mais irônica é que nada parece complicado ou que demandou muito para atingir este estado de excelência. Pink Noise é um álbum que já nasceu ótimo.

A produção e o som do álbum é o seu ponto mais forte. O mais surpreendente, entretanto, é como os sintetizadores, as cordas, os sopros e as percussões são simples e muito espaçadas, como se estivessem distantes uns dos outros, e, no final, se unem magicamente para criar este som mágico, cintilante e muito cativante. Acho que isso está claro logo nos primeiros segundos da abertura, “Safe Passage”, onde ela canta sobre deixar um passado ruim para trás e seguir em frente para um lugar melhor. No início, aparecem fortes batidas de sintetizador que logo são acompanhadas pela voz de Mvula. Ambos soam muito distantes, mas é fácil sentir uma atmosfera química entre eles. Com o tempo, a trilha vai ficando mais forte, aparecem cordas brilhantes seguidas por coros. No entanto, nenhum parece ficar na frente do outro, tudo parece bem coordenado para criar esta música de abertura deslumbrante.

E felizmente, o álbum quase nunca carece de uma produção surpreendente e impressionante, ou, pelo menos, dançante. A faixa título, por exemplo, apresenta um baixo reverberante, sintetizadores visuais e tambores homogêneos. No refrão, os confetes parecem cair no chão. Mvula, acompanhada por sua banda que também toca trombone ocasionalmente, canta: “I know that you feel it / And you can’t deny it”. “What Matters”, uma colaboração com Simon Neil, da Biffy Clyro, é um dueto bem equilibrado. Neil completa Mvula perfeitamente enquanto eles cantam sobre esta história de amor conflituosa. O mais engraçado, porém, é como a voz de Neil é tratada com vários efeitos, mas não soa prejudicial ou embaraçosa. Finalmente, “Got Me” é a pura definição de R&B — é um banger.

Entretanto, não é apenas a parte sonora que Laura entrega um pacote completo. Sua composição também é algo que brilha. Mais uma vez, a coisa mais curiosa é a simplicidade. Ela não precisa de longos versos cheios de metáforas, mas sim de algumas palavras para encantar o ouvinte com algo que soa propositalmente cru, mas muito honesto. Com cordas diferenciadas, “Remedy” aparece como um grito de ajuda e indignação. Ela canta sobre os assassinatos de pessoas negras e os protestos que tomaram conta do ano passado. “How many more must die? / Before the remedy”, ela canta no refrão e depois acrescenta: “You surround me with guns at every turn / See the system is rigged to shoot me first”. Mas, mais do que nunca, ela também olha para si mesma. Em “Church Girl”, ela se pergunta: “How can you dance with the devil on your back? / How can you move? / Caught up in a picture-perfect / That will never last”. Mas, como um alívio, a faixa final vem dizer: “Remember the night comes before the dawn”, depois que ela confessa: “All I wanted was to feel love / Something I never knew the meaning of”.

No entanto, a melhor canção do disco é “Magical”. Em um trocadilho barato, essa faixa é simplesmente mágica. A produção de Mvula enlouquece aqui, sua composição enlouquece aqui, seu fluxo, seu ritmo, seu olhar e seus vocais. É uma faixa grande que soa como um hino atemporal que facilmente se tornaria um marco para toda uma geração de compositores e produtores. No gancho, quando todos os instrumentos se juntam, Laura aparece no topo de um palco executando um grande show, ao nível da Broadway. Tudo é brilhante e colorido e ela, com seus vocais suaves e doces, parece derreter à medida que a faixa avança. “Do you remember? / The time when we were together / It seemed like something was magic / Never imagined it would be over”, ela canta. Não é apenas a melhor música do álbum, é também facilmente uma das melhores do ano.

Todavia, de certa forma, você ainda deseja que Mvula tivesse se soltado ainda mais. “Conditional”, por exemplo, tem um refrão muito bom, mas se sente um pouco desconectado do resto da canção. “Golden Ashes”, entretanto, apesar de ter um excelente trabalho vocal, tanto de Mvula como dos vocais de apoio, e tendo esta letra sobre o sofrimento e não se decepcionar, você ainda sente que poderia ter ficado um pouco mais louco com ela. Até mesmo “What Matters”, talvez, Neil pudesse ter tido um papel mais presente na pista do que ele teve. “Magical”, por outro lado, nunca poderia ter terminado. Porra, essa música é tão boa.