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Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd

2023 •

Interscope

8.8
Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd, seu nono disco de estúdio, não é seu trabalho mais ousado e rebuscado, mas ainda localiza sua cantora perdida no oceano, mas mantida firme pela inércia de crises existencialistas e ânsia e cisma de um futuro melhor.
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Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd

2023 •

Interscope

8.8
Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd, seu nono disco de estúdio, não é seu trabalho mais ousado e rebuscado, mas ainda localiza sua cantora perdida no oceano, mas mantida firme pela inércia de crises existencialistas e ânsia e cisma de um futuro melhor.
29/03/2023

Na cerimônia do Billboard Women in Music desse ano, Lana Del Rey subiu ao palco para receber o Visionary Award. Durante seu discurso, Del Rey enlouqueceu por receber o título das mãos da compositora de “drivers license”; parabenizou SZA, Rosalía e Kim Petras; lembrou dos influenciadores que divertiram ela durante a pandemia da covid-19; e afirmou que, na verdade, ela não tinha tanta visão quanto todos pensavam. No entanto, da sua fala de pouco mais de três minutos, o ponto mais marcante foi quando ela disse ser “muito, muito, muito feliz”. Para aqueles que acompanharam seu trabalho na última década, Lana sempre foi conhecida pelo seu pessimismo referente a sua própria vida e ao mundo que a cercava. Em “Dark Paradise”, de seu primeiro álbum, seu desejo era estar morta, ao passo que em “The greatest”, lançada quase dez anos depois, conferia a cantora em desespero por causa da queda da cultura norte-americana em plena crise política. Nos últimos anos, Del Rey foi não apenas a precursora do movimento populista sad girl, mas foi sua própria definição também. 

Essa declaração de Del Rey é muito mais potente do que parece. Suas palavras vão muito além de um agradecimento tímido e simpático, mas também sinalizam a principal característica que definiu as canções de Lana Del Rey nos últimos anos: finalmente, uma separação de quem realmente ela é daquela persona que todo mundo acredita existir. Lana ainda fala, canta e, até mesmo, experiencia a morte, mas isso não é mais apenas um mecanismo de fuga da realidade, mas sim uma forma de teatralização pela qual ela encontra um caminho para expor suas próprias crenças. Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd, seu nono disco de estúdio, não é seu trabalho mais ousado e rebuscado, mas ainda localiza sua cantora perdida no oceano, mas mantida firme pela inércia de crises existencialistas e ânsia e cisma de um futuro melhor.

Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd é o primeiro projeto de Lana Del Rey, dos últimos anos, que consegue ter um lançamento que carece de qualquer polêmica. Dessa vez, Lana não prometeu prazos que nunca foram cumpridos; não fez postagens duvidosas em seu Instagram; não teve problemas com produção de mídias físicas; e nem tentou lançar dois álbuns em simultâneo. Tirando seu título longo, esse foi um corte rápido e calmo. Jack Antonoff volta para cena — ele tinha previamente recebido elogios pelo desempenho na produção de Norman Fucking Rockwell!, de 2019, mas que rapidamente havia se tornado um vilão quando Chemtrails Over the Country Club foi lançado —, para resgatar um requinte indie, que consegue ser agressivo, mas ainda assim sutil — diferente do que foi apresentado no último álbum de Lana, Blue Banisters. Se em Norman Fucking Rockwell!, Del Rey usou da imagem de Rockwell para uma crítica retórica idílica aos Estados Unidos do final da última década, hoje ela usa a si mesmo como ponto de ironia. 

Dessa forma, a própria discografia de Lana Del Rey surge como um ponto de referência para suas novas canções. Se no passado ela olhou para os grandes astros do rock e figuras da cultura Americana, em suas novas músicas, principalmente neste novo registro, Del Rey olha com celebração e referenciação para o próprio trabalho dela. “The Grants”, canção de abertura do álbum, por exemplo, remonta os cenários de suas narrativas mais antigas: a cantora no papel da outra mulher, perguntando para um homem casado se ele pensa nela da mesma forma que ele pensa nele. No entanto, o ponto de fuga aqui é que ao invés de adotar a romantização que colocava ela em posição lateral em seus relacionamentos, tratando-se desvalorizadamente, Lana surge mais autoconsciente do que nunca: ela tem o desejo que esse amor seja recíproco, mas entende que caso não, nada disso vai realmente importar no final. “My pastor told me when you leave, all you take / Oh-oh, is your memory”, ela canta no refrão, certificando que sua vida vai continuar apesar dos pesares e que manter tudo que ela um dia tenha almejado em sua memória será o suficiente por um tempo. 

Essa metalinguagem se estende para os mais diversos pontos do álbum. “Candy Necklace”, por exemplo, tem pitadas de “Cinnamon Girl”, enquanto que “Fishtail” parece ser um descarte de Norman Fucking Rockwell! — no bom sentido. Indo mais além, a colaboração com Father John Misty foi teorizada ser sobre uma mulher que se apaixona por um homem casado, divergindo da premissa de um romance mais simplista. Por mais que essa persona seja, novamente, saturada na discografia da norte-americana, a maneira pela qual sua personagem enfrenta essa situação é, novamente, o destaque: ela não quer se sujeitar ao papel que não lhe pertence: “Ooh, turn your light on / Look at us, you and I, back at it again”. “Taco Truck x VB”, por fim, desvenda uma versão mais sombria e ambiciosa de “Venice Bitch”. De certa maneira, Del Rey, pessoalmente, reconhece que seu trabalho está prestes a entrar para o clássico. 

Durante toda a sua carreira, Lana Del Rey construiu sua imagem junto da reputação dos Estados Unidos. No governo de Obama, ela reconhecia os impasses, mas ainda assim se sentia orgulhosa de performar na frente da bandeira do país que ela tanto cultuava e romantizava — o que se manteve até o governo de Trump, quando ela retirou a bandeira de suas costas. Embora isso, temáticas nacionalistas ainda seguem sua discografia. Na delicada e orientada pelo classicismo faixa-título, o resgate da memória de túnel abandonado de Jergins Tunnel, em Long Beach, é usado metaforicamente para preocupação da artista de se um dia as pessoas vão lembrar dela ou se ela simplesmente irá desvanecer, igualmente o túnel (And I’m like / When’s it gonna be my turn?). 

Por outro lado, Lana foi uma das cantoras mais honestas que surgiu nos últimos anos. Suas declarações em canções mais antigas, seja o famoso desejo de morrer ou sua fascinação por sexo com homens mais velhos, por exemplo, dão pistas sobre uma veracidade e intimidade visceral. Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd, por sua vez, é, talvez, o disco mais pessoal da cantora. “A&W” (abreviação para “American Whore”) é facilmente uma das melhores canções da carreira de Lana. Partindo de uma análise sobre seu corpo, roupas e comportamento, passando pela cultura do estupro, e chegando na recriação imagética da potencialidade de drogas e sexo, ilustrada por um sample da canção “Shimmy Shimmy KO KO Bop”, do Little Anthony & The Imperials, a cantora concretiza uma ode sobre o que ainda é ser uma mulher. “If I told you that I was raped / Do you really think that anybody would think / I didn’t ask for it? I didn’t ask for it”, ela canta.

Ainda nesse segmento, há duas canções no coração da obra que são um chamariz: “Kintsugi” e “Fingertips”, ambas as quais são os instantes mais genuinamente verdadeiros e emocionantes do álbum, direcionados apenas por cordas espaçadas e opacas. Ao passo que a primeira constata a cantora lidando com a perda de pessoas que ela ama enquanto lida com crises internas de depressão; a segunda aparece um pouco mais leve, talvez, onde a ansiedade do futuro toma conta e faz ela aconselhar todos os que ainda estão vivos. “Charlie, stop smoking / Caroline, will you be with me? / Will the baby be alright?”, ela canta. Ademais, “Grandfather please stand on the shoulders…” e “Margaret”, com o Bleachers, também surgem dentro desse pacote, seja uma por Del Rey reconhecer as polêmicas do seu passado (Regrettably, also a white woman / But I have good intentions even if I’m one of the last ones), seja a outra por ser uma simples peça escrita para um amigo e sua amada. 

Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd é o registro mais longo de Lana Del Rey lançado até hoje. Com 16 músicas, ele se estende para mais de 75 minutos de duração. Por mais que grande parte dele seja facilmente digestível com gula, outros instantes parecem se perder por linhas tortas. O pior momento do álbum é um conjunto de três canções: “Judah Smith Interlude”, “Candy Necklace” e “Jon Batiste Interlude”. Enquanto os dois interlúdios são essencialmente desnecessários — o primeiro sendo de mal gosto por dar espaço para Judah Smith, chefe de uma religião estadunidense que luta contra a comunidade LGBTQIA+; e o segundo não conseguir se manter interessante por nenhum instante —, “Candy Necklace”, com Jon Batiste, demanda muita energia para conseguir chegar em um significado realmente edificador — ao ponto de você pensar: “Lana realmente pensou nisso ou eu que estou lutando contra a realidade para captar algo significante?”

Já fazem por volta de oito anos que Lana Del Rey faz parte do meu consumo pessoal de música — e, mais especificamente, quatro que escrevo sobre os projetos e trabalho da cantora. Me tornou claro que, ao longo desses dez anos da carreira dela, cada um de seus ambos terminam com promessas de um futuro melhor, seja por meio de alegar sua insistência em esperança ou a simples atitude de entender que amanhã é um novo dia. Diferentemente, Did you know that there’s a tunnel under Ocean Blvd não entrega tanto esse sentimento. Pelo contrário, a sensação é um conforto nostálgico no passado, um enfoque em tudo que aprendemos e deixamos para trás. Sempre haverá um futuro e um amanhã, mas o passado só é nosso enquanto nossa memória perdurar. Lana, mais do que ninguém, sabe disso e, enquanto pelo menos uma pessoa a tiver em sua memória, ela irá continuar “muito, muito, muito feliz”.  

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