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Star Eaters Delight

2023 •

Sub Pop

7.4
Mesmo que muito repetitivo, Star Eaters Delight ainda oferece uma experiência deslumbrante.
Lael Neale - Star Eaters Delight

Star Eaters Delight

2023 •

Sub Pop

7.4
Mesmo que muito repetitivo, Star Eaters Delight ainda oferece uma experiência deslumbrante.
08/05/2023

Assim como sua autora, Stars Eaters Delight nasceu e cresceu na fazenda de seus pais, na Virgínia, lugar onde a artista se abrigou durante os desastres sociais causados pela pandemia do Coronavírus, em 2020 e 2021. Quando a cantora não estava ajudando a cuidar das galinhas, estava gravando o seu novo álbum, sucessor do bem recebido Acquainted with Night, de 2021. Suas inspirações foram as vistas maravilhosas dos mausoléus de Hollywood Forever, famoso e cultuado cemitério de celebridades mundialmente conhecidas, observadas da perspectiva admirada, e, ao mesmo tempo, intimidada, de uma mulher de origem rural; bem como importantes artistas da cena folk dos anos 70, como Karen Dalton, Velvet Underground e Suicide e as baladas românticas modernas das artistas Angel Olsen e Cat Power, culminando num registro musical de sonoridade muito instigante. 

Stars Eaters Delight tem características instrumentais das canções de folk setentistas dos EUA, mas também de faixas dos álbuns de cantoras cujas carreiras ainda estão ativas na atualidade. Ou seja, junta o passado e o presente e, com isso, cria uma linha de raciocínio de produção muito inusitada que prende a atenção. Tudo bem que junções desse tipo já foram feitas inúmeras vezes anteriormente, porém quando se foi falado sobre tal disco ser “único”, não foi por necessariamente ser inovador, e sim por tal “fusão” ter sido feito muito bem — levando em consideração que aos montes se vem sendo feito obras sonoras desse tipo, mas de qualidade duvidosa.

De acordo com a sua temática, as letras de Star Eaters Delight possuem uma pegada bem efêmera e mórbida. Na faixa “In Verona” — diga-se de passagem, a melhor faixa do álbum —, Lael Neale fala diretamente sobre esse panorama que presenciara durante sua passagem em Nova Iorque: “In Verona / Where we laid / Our perfect death / Let the wine spill down the stone steps”. Indo até mais além, pode-se fazer dessa imagem um conectivo para uma reflexão sobre religião e a busca incessante dos credores por pureza: “How can I ever find my holy way / Through these stone streets / I don’t belong here, I don’t belong here / I don’t belong here, I don’t belong here”. Esse “caminho de pedras”, provavelmente, é uma referência a áspera, dura, cruel e impiedosa viagem que fazemos por este mundo e como a experiência que tiramos disso vai acabando com  a nossa santidade e inocência, nos tornando, assim, pecaminosos e, por consequência, não merecedores da tão falada e sonhada “salvação”. É uma canção muito bonita, mas também muito desesperançosa. Ela constrói de forma excelente esse cenário assombroso na nossa mente e os vocais magistrais de Neale, juntamente de seu incrível lirismo, conduzem o cântico de tal forma que seus longos oito minutos de duração passam num piscar de olhos. Um tremendo destaque, com toda a certeza.

Entretanto, em outros momentos, a musicista se distancia de todo esse drama trágico e passa a falar mais sobre o amor e o romance. É por entre esses tempos onde se encontra “Lead Me Blind”, última canção do disco. Nessa faixa, a cantora canta: “You can lead me blind to the door / To seek the shadow side of love / As I bloom and sway just like a woven tapestry / Flower for the king”. Como observado, a artista canta sobre permitir que o seu amor a guie cegamente, uma jornada linda, dolorida, mas recompensadora da paixão e do afeto. Dizendo para que a guie para “o lado mais escuro”, ou seja, os defeitos de seu amado, ainda enquanto ela floresce e balança como “uma tapeçaria tecida”. É, claramente, uma celebração do amor e o tom apaixonado que a sua entonação vocal denota denuncia uma timidez num cantar de alguém completamente apaixonado — o que ajuda ainda mais a faixa a soar doce e tocante. Porém, por mais que possua todas essas qualidades, esta e mais outras trovas do seu trabalho (como “If I Had No Wings”, “Return To Me Now” e “No Holds Barreds”) perdem força e impacto no disco com o passar do tempo.

Por mais que tenha ótimas ideias e também discutido temas interessantes de uma forma encantadora, Neale acaba se repetindo demasiada vezes durante toda a duração do projeto. As batidas exuberantes de indie pop e indie rock que acompanham o divertido refrão não-lírico do single “I Am The River” são os mesmos tocados na excelente “In Verona” e na inteligente “Faster Than The Medicine” — e dentre mais algumas outras canções do registro. E, consecutivamente, outros sons e texturas ouvidos no início são escutados novamente no final do disco.. Ter saído um pouco mais da zona de conforto e trazido maior variedade teria feito de Star Eaters Delight um álbum verdadeiramente extraordinário e um dos melhores desse ano, porém, infelizmente, Neale não se deu conta disso durante sua criação. Porém, mesmo com esse enorme defeito, o disco ainda surpreende e emociona.

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