Dawn of Chromatica
2021• ELETRÔNICO/POP • INTERSCOPE
POR KAIQUE VELOSO; 09 de SETEMBRO de 2021
7.7

Não há como avaliar Dawn of Chromatica como um novo álbum com seus conceitos formados. Não se deve procurar uma linha coesiva, ou um elemento em comum que una as partes desse todo. O projeto encabeçado por Bloodpop é livre à habilidade e às manhas de cada artista responsável por seu respectivo remix. Por isso, criticar o álbum por ser desorganizado é não só uma demonstração de falta de gosto e de aptidão para os subgêneros de pop e eletrônico para cá trazidos, mas também um atestado de tolice e ingenuidade próprios de alguém desinformado ou contrariado pela notícia de que a Mother Monster estaria trabalhando com pessoas desconhecidas pelo grande público.

Na verdade, não é Gaga quem é efetiva e diretamente ligada aos remixes. Bloodpop é o time incumbido dessa tarefa: escolher cantores, produtores e DJs que não só tenham em seus trabalhos o atrativo necessário — obviamente, para um álbum de música dance e eletrônica, é incabível que personalidades de ritmos lentos e românticos sejam convidadas para oferecer uma reimaginação das canções —, mas que também sejam capazes de representar algo que sempre foi caro à Gaga: o movimento LGBTQIA+. Por isso, a lista de faixas conta com artistas das várias letras desse alfabeto furta-cor: Arca, que se assumiu mulher transgênero em 2017; Dorian Electra, uma pessoa trans não-binária; Pabllo Vittar, a drag queen mais popular do planeta, segundo a revista Vogue, e homem gay nordestino; entre outros, os quais são notavelmente estrelas inspiradoras para queers em todo o mundo. Dessa forma, era invariavelmente certa qual seria a roupagem dessas faixas, algo gay e reluzente. Existe algum estilo que abarque mais diversidade de gênero e de sexualidade do que a cena experimental? 

Em “Rain On Me (Arca Remix)”, a venezuelana utiliza o sample de sua música “Time”, a qual se trata de tomar um tempo para si e de entender a importância disso, visto que a celeridade das relações externas e internas ao ser são um fator limitante a essa compreensão — o clipe da música ilustra bem a situação, em que Arca, quase em câmera lenta, aproveita o tempo consigo e com seu ex-namorado. Nesse sentido, é gratificante perceber que Alejandra não se amedrontou e trouxe a “Rain On Me” sua própria tendência, que é revigorante e promissora.

Inimagináveis devem ser a experiência e o sentimento de todos aqueles que receberam o presente de poder participar de uma obra tão grande, que receberia — e recebeu — bastante atenção. A maioria deles, provavelmente, cresceu e despertou seu desejo pela música ouvindo a “Just Dance”, a “Poker Face”, a *Judas”. E, agora, Pabllo Vittar, por exemplo, tem a oportunidade de, juntamente a Brabo Music, introduzir Gaga e o mundo ao forró brasileiro. “Fun Tonight (Pabllo Vittar Remix)” é um dos maiores destaques do disco, à medida que transforma a emocional faixa sobre depressão, e resulta em algo que soa como um grande sucesso das rádios brasileiras. Pabllo foi longe demais, assim como Dorian Electra, alguém que, vale ressaltar, desde os singles do seu álbum de estreia Flamboyant, surpreende cada vez mais e parece nunca falhar. Vorazmente, com toda sua energia caótica, “Replay (Dorian Electra Remix)” acerta o ouvinte como um meteoro. Embora a canção original possa soar um pouco repetitiva e secundária em meio a tantas outras faixas que apresentam a mesma estrutura de verso, refrão e drop de batida no pós-refrão, a reinvenção de Dorian é o completo oposto: singular e especial, torna-se uma forte candidata às melhores do disco.

Sem percalços absolutamente não é o caminho no planeta de remixes. A música tão aguardada pelos fãs, a versão original “Babylon (Haus Labs Version)” não possui nada a mais do que o trecho já vazado há tempos para oferecer. Além disso, a rapper Shygirl é ofuscada e pouco aproveitada em “Sour Candy (Shygirl & Mura Masa Remix)” se comparada ao seu single mais recente, em parceria com Slowthai, a enérgica e sensual “BDE”. Além de outros, dos quais não se pode apontar muitos detalhes, já que são tem pouca movimentação interna ou renovações constantes, como “Enigma (Doss Remix)” e “1000 Doves (Planningtorock Remix)”. Enfim, Dawn of Chromatica é a apoteótica Gaga que certa parcela ama, certa parcela odeia em Artpop. No entanto, uma atualização mais adequada e condizente com o presente cenário eletrônico pós-SOPHIE.