Born This Way
2011 • POP • INTERSCOPE
POR LEONARDO FREDERICO; 5 de JULHO de 2021
8.1
BORN THIS WAY THE TENTH ANNIVERSARY
2021 • POP • INTERSCOPE
POR LEONARDO FREDERICO; 5 de JULHO de 2021
5.7

No final dos anos 2000 e início da década de 2010, ninguém era tão marcante quanto Lady Gaga. Quando ela entrou no VMA de 2010 com seu clássico e memorável vestido de carne crua, ninguém brilhava mais do que ela. Enquanto Cher, uma vegana, segurava uma bolsa feita de carne em suas mãos, Gaga agradeceu por ter ganhado o prêmio de Vídeo do Ano pelo clipe de “Bad Romance” e anunciou a promessa que ela havia feito a si mesma. “Eu prometi que se ganhasse isso, anunciaria o nome do meu novo álbum”, disse ela antes de cantar um trecho da faixa título do seu próximo projeto. Esse disco era o Born This Way, um marco na cultura pop de 2010. Este ano, Gaga anunciou a chegada da edição do décimo aniversário de Born This Way, que sem dúvida não faz jus à versão original.

Born This Way é o melhor álbum da Lady Gaga. Talvez, dentro de toda sua discografia, esteja apenas atrás de seu lendário EP The Fame Monster. É o álbum no qual Gaga entregou as canções mais fortes e marcantes de sua carreira. É o disco onde ela materializou e imortalizou o visual caricato icônico que ela vinha construindo desde o The Fame Monster. Além disso, foi um dos únicos momentos na última década em que o Pop mainstream soou realmente forte, grandioso e ambicioso. Em outras palavras, Born This Way, ao lado do Teenage Dream, da Katy Perry, e do 1989, da Taylor Swift, é a definição pura do que é a música pop, aquela que foi a mais diferente e inconfundível de toda a história. Em um discurso ainda menos técnico, Born This Way é a definição de Lady Gaga.

Born This Way tem um dos inícios de álbum mais poderosos em toda a história da música pop. A faixa título é uma das melhores músicas — se não a melhor — da carreira da Gaga. A canção ganhou um vídeo de mais de sete minutos onde ela declarou: “Este é o Manifesto da Mãe Monstro”, iniciando o prólogo. Ela então explica que está em “Government Belonging Alien Territory”, e que o nascimento de uma nova raça está começando. A cantora está sentada em um trono acima de um planeta, com pernas separadas, dando origem a essas pessoas. Ela é então dividida em duas metades, e sua nova face dá luz àa uma metralhadora. O prólogo termina com Gaga perguntando: “Como posso proteger algo tão perfeito sem o mal?”. A canção, por sua vez, conta com uma produção afiada, tão precisa que Gaga nunca fez nada tão grandioso desde o lançamento desse álbum. À medida que a faixa avança, a cantora brinca com o francês, pinta cenas de minorias oprimidas, prega o amor próprio e o fim do preconceito. Por mais simples, redundante e mundano que isto possa parecer, vale a pena notar que é igualmente poderoso. “I’m on the right track, baby / I was born to survive”, ela canta na ponte.

E a maioria das primeiras músicas são tão boas quanto a faixa título. A abertura, “Marry the Night”, é tanto uma sinopse sobre como aproveitar a noite quanto uma narrativa sobre Lady Gaga enfrentando seus piores medos para chegar ao amor-próprio. A música tem um vídeo de 13 minutos que começa com Gaga sendo hospitalizada, que pode ser uma referência à vez em que ela foi sexualmente assediada quando tinha 19 anos, o que a levou ser hospitalizada e a ter “pausas psicóticas”. Já “Government Hooker” apresenta uma produção mais experimental, com sintetizadores voltados para tendências eletrônicas e digitais brilhantes e distorcidas. A composição da música é inspirada no relacionamento de Marilyn Monroe e Kennedy. Ela canta: “I wanna fuck, government hooker / Stop shitting me, government hooker”. “Judas”, traz um pouco de “Bad Romance”, com Gaga usando onomatopeias para criar momentos memoráveis e cativantes. A trilha toma o ponto de Maria Madalena que se divide entre Judas e Jesus, sendo uma alegoria para escolher entre o bem e o mal. “Jesus is my virtue, and Judas is the demon I cling to”, ela canta.

“Americano”, no entanto, é o primeiro sinal de que Born This Way, ainda que atemporal, não é perfeito. Em poucas palavras, esta faixa, embora legal, não pode deixar de soar como uma canção barata de algum musical da Broadway. Por mais que conte com disparos de armas e influências latinas que contam uma história de amor lésbico, você não pode deixar de sentir que ela está tentando desesperadamente ser muito mais do que realmente é. Mais tarde, no disco, você volta a ver os outros pontos negativos do álbum. Gaga sempre foi comparada a Madonna, mas em “Electric Chapel” é inegável que ela tenta soar como a Rainha do Pop. “Bad Kids”, por sua vez, parece o sentimento do resto da faixa título, com Gaga cantando para seus fãs: “Don’t be insecure baby”. Além disso, várias vezes, Gaga soa como Miley Cyrus e você só consegue pensar em como ela poderia ter feito um uso mais incisivo da guitarra que apenas faz algumas pontas aqui.

Um lado muito forte de Gaga em Born This Way é sua ambição que chega aos limites de uma experiência com potencial. “Scheiße” é um dos destaques, com essa começando como um remix feito para as baladas subterrâneas alemãs progressivas. Entretanto, quando Gaga chega aos versos, ela parece se desprender e virar seus olhos para algo mais usual e não tão vistoso. Enquanto isso, “Bloody Mary” mistura bem os elementos mais normais do pop e da eletrônica com os terríveis coros da igreja que gritam incessantemente: “Gaga”. “Heavy Metal Lover”, enquanto isso, mostra a cantora enviando uma carta para seu ex. A faixa apresenta sintetizadores poderosos que até afogam a voz da Gaga com sua turbulência sônica. Todavia, talvez o maior erro da música seja, às vezes, tentar soar como uma faixa de metal por meio de alguns elementos super genéricos e estereotipados. Em resumo, estas são boas experiências que não são concretas o tempo todo, fazendo parecer que Gaga se apaixonou por uma mistura acidental de nuances e tentou colocá-la em qualquer faixa. O melhor exemplo é “Highway Unicorn (Road to Love)”, que, embora cativante, soa realmente confuso.

Porém, enquanto a segunda metade de Born This Way é um pouco monótona, ela tem algumas peças boas, localizadas principalmente no final. “Yoü and I” é um dos momentos mais memoráveis do álbum. A canção mostra Gaga apaixonada, mas o ponto forte são as influências sônicas, como a bateria do Queen e algumas passagens que alguém pode até ousar dizer que são inspiradas por Björk. A faixa final, assim como “Hair”, conta com inspirações de Bruce Springsteen. Enquanto a primeira soa como um sintetizador prático, “The Edge of Glory” soa como um pop perfeito. A faixa foi dedicada ao avô do Gaga e é o último trabalho do saxofonista Clarence Clemons. O pacote completo faz lembrar o pop-rock do Springsteen dos anos 80. Ela canta enquanto o saxofone explode, “I’m on the edge with you”. Foi neste momento que Gaga concretizou sua imagem na eternidade.

No entanto, por mais icônico, memorável e progressivo que seja Born This Way, a edição de 10 anos do álbum é ao mesmo tempo enganosa e revoltante. BORN THIS WAY THE TENTH ANNIVERSARY, também conhecido como Born This Way Reimagined, apresenta seis novas faixas, todas elas reinterpretações de algumas canções do álbum por artistas LGBTQIA+. E embora esta seja uma ótima maneira de celebrar o álbum por ter sido um grande aliado dessa comunidade, o resultado final é devastadoramente decepcionante. Não só é um exemplo do que não se deve fazer para celebrar o aniversário de um disco, mas também é algo que tanto Gaga como seus fãs vão querer esquecer — e nós esqueceremos.

“Marry the Night” ganha vida por Kylie Minogue e você pode facilmente pensar que isso estragou totalmente a canção. A voz de Minogue não só soa bizarramente eletrônica e irreal, mas ela também parece forçar a música a se encaixar em seu último álbum, DISCO. No final, esta nova “Marry the Night” parece ser branda. O “Judas” da Big Freedia parece mais um remix que eles fizeram para Gaga apresentar a canção em uma apresentação ao vivo, com passagens sonoras que poderiam preencher as danças de Gaga e remixes genéricos que certamente não fazem justiça à versão original. Enquanto isso, a releitura de Madeline Edwards e Brittney Spencer de “Highway Unicorn (Road To Love)” resultou em algo que ao mesmo tempo não soa diferente do original, mas também não soa nada parecido — é apenas… estranho. Finalmente, “Yoü and I”, cantado por Ben Platt, apesar de sua incrível performance e de alguns momentos orquestrais, soa como qualquer cover que você veria no The Voice.

Os únicos momentos minimamente bons nestas novas versões são “The Edge of Glory”, cantada por Years & Years, que conseguiu capturar a essência da faixa original e a manteve enquanto trabalhava nas principais características da banda; e “Born This Way (The Country Road Version)”, que soou linda e poderosamente na voz espessa e forte de Orville Peck. Em ambos os casos, você pode sentir que a releitura não prejudicou a versão original. Finalmente, a intenção de Gaga de introduzir as reinterpretações das canções foi muito interessante, no entanto, a apresentação foi catastrófica. Embora a maioria soe como remixes baratos que muitas vezes nem sequer querem prestar homenagem às canções originais, o fato de que apenas seis faixas foram escolhidas é curioso. Talvez, se ao menos tivesse sido o álbum inteiro assim, teria sido mais tolerável e menos assustador. No final, é melhor esquecer que essa edição já existiu porque não faz nenhum favor à versão de 2011.