overgrown EP
2022 • ELETRÔNICA/EXPERIMENTAL • INDEPENDENTE
POR MATHEUS JOSÉ; 20 DE JUNHO DE 2022
7.8

Grande parte do que consumimos em relação à música, costuma partir de gravadoras ou conglomerados empresariais gigantescos  que dominam o mercado musical. Distante deste cenário, há um mundo inteiro a ser explorado. No underground, o que não falta são artistas empenhados em produzir bons sons e transmitir suas mensagens de maneira diferente na maioria das vezes e, quase sempre, optando pela criatividade. Ao olharmos para a cena brasileira, é possível enxergar mais que uma dúzia de nomes que estão em constante crescimento artístico. Um deles é KURE MOTHRI, um produtor independente cujo trabalho remonta alguns dos melhores aspectos da música eletrônica experimental. 

Como uma pessoa queer, KURE parte de experiências pessoais únicas para nutrir suas canções, que, de certa forma, podem também causar identificação em qualquer um que as ouça. Seu novo EP, overgrown, é um exemplo perfeito disso. Entre arranjos singulares, melodias desconstruídas e uma produção cheia de riqueza, o artista parece não se conter em momento algum para criar uma atmosfera densa e simultaneamente acessível. Partindo de um substrato emocional extraído através de alguns momentos em que o autor se viu impossibilitado de alcançar uma saída de sua angústia, a obra soa como uma mistura de dor com felicidade; de descontentamento com agrado, ou então, de tudo na medida certa para transmitir uma impressão de escapismo. “Improve”, canção que abre o EP, possui uma ambientação bastante específica: os sons nela dispõem de uma dualidade sensorial em que ora parecem se aproximar, ora se distanciar do nosso subconsciente. Essa técnica funciona muito bem para nos introduzir ao universo desenvolvido pelo artista.

A segunda peça apresentada por ele, “Shot”, faz um uso literal da palavra. Nela, os barulhos de tiro que remetem ao som produzido pelas cápsulas de projéteis deflagradas tomam conta de toda atmosfera. É como se não pudéssemos fugir dos disparos vindos em nossa direção, presos e prontos para sofrer com o pior. Aprisionar o ouvinte em sua audição, é algo que KURE mostra fazer muito bem. A faixa “Grow”, intensa e com mais de oito minutos de duração, prova que nada feito por ele é em vão, assim como em “Break” e “Overgrown”, que encerram o disco na mesma proporção que ele começou. E se ideia inicial era transmitir a sensação de não encontrar uma escapatória mesmo diante da liberdade, vemos isso acontecer perfeitamente nos arranjos melodramáticos que falam por si só ao longo da experiência catártica programada por ele nos 21 minutos de pura expressão solutiva.