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Feed The Beast

2023 •

Republic

6.5
Mesmo que tenha momentos divertidos, no geral, o aguardado álbum de estreia de Kim Petras é uma coleção desinteressante e incoesa de canções genéricas
Kim Petras

Feed The Beast

2023 •

Republic

6.5
Mesmo que tenha momentos divertidos, no geral, o aguardado álbum de estreia de Kim Petras é uma coleção desinteressante e incoesa de canções genéricas
30/06/2023

Kim Petras mostrou em seus primeiros trabalhos ser uma artista promissora. Faixas como “Heart To Break” e “I Don’t Want It At All” eram cativantes em suas produções e irresistíveis melodias de uma maneira extrema. Com as mixtapes Turn Off The Light e Clarity o grande talento da alemã para criar músicas pop envolventes mantinha-se perceptível. A primeira era um projeto para o halloween que conseguia trazer de forma excelente esse conceito inspirado na data festiva tanto nas letras quanto no som que entregava uma fantástica atmosfera arrepiante e sombria. A segunda, por sua vez, mesmo que não fosse um registro tão fascinante, era uma boa coleção de músicas divertidas. 

Apesar da ótima qualidade de sua discografia até então, o momento em que Kim fosse de fato lançar sua estreia foi diversas vezes adiado. Quando mais estava próximo deste registro ver a luz do dia, Problematique — inicialmente seu primeiro álbum —, é vazado na Internet e a artista toma a decisão de recriar o projeto que viria a se tornar seu debut. Durante o período de elaboração do disco, houve um acontecimento bastante marcante em sua carreira: sua parceria com Sam Smith, “Unholy”. Alcançando o topo da Billboard Hot 100, esse foi o momento em que Petras deixou de ser uma cantora conhecida apenas em nichos específicos para chegar ao mainstream. Essa assim era a perfeita oportunidade para a disponibilização de seu LP e, poucos meses depois da colaboração com o britânico, Feed The Beast é lançado. O problema, entretanto, é que esta obra mostra um nome que já havia trazido lançamentos fascinantes no passado, como Turn Off The Light, apresentando algo bastante inferior a suas mixtapes, pois, ainda que tenha momentos de diversão, Feed The Beast conta com muitos pontos baixos que prejudicam a experiência de escutá-lo.

         Algo que se é possível notar no disco é a grande influência de gêneros dance dos anos 90 em muitas de suas canções, e é nestas em que o caráter divertido de Feed The Beast mais se mostra. “King Of Hearts” explora uma tendência que está cada vez mais crescendo na indústria fonográfica de se inspirar no eurodance e, por mais que datada, o trabalho dos produtores, com os sintetizadores pulsantes, além das melodias, cativam bastante o ouvinte. Já em “Castle In The Sky”, esse som é feito de maneira ainda mais fascinante, conseguindo trazer formidavelmente a essência eufórica dos clássicos do estilo. “Claws”, por sua vez, traz o ritmo junto ao hi-nrg — vertente do EDM proveniente do electro-disco bastante popular nas boates gays do século passado. O resultado disso é excelente pois é a música mais envolvente de todo o projeto. A produção faz o uso dessas referências de forma fantástica por meio dos eletrizantes synths enérgicos típicos do subgênero da electronic dance music; enquanto que, as melodias vocais de Petras intensificam o nível de excelência dessa — não há um segundo sequer em que quem a escuta não se sinta cativado nesse sentido. Em todas as ideias do álbum, no entanto, nota-se altos e baixos e, ainda que seja entregue em muitos momentos ótima qualidade ao utilizar dessa sonoridade, há momentos em que ela erra nessa abordagem sonora. Em “Alone”, a escolha de criar a partir do sample de “Better Off Alone” — clássico do dance europeu noventista — um drill é bastante indigesta e, fora isso, a música soa mal finalizada, especialmente no refrão, que dá a sensação estar incompleto: ele tem uma estrutura build-up, dando a entender que virá logo depois um drop, porém, essa construção leva-o a lugar nenhum.

Essa nostalgia explorada por Kim também se estende para os meados dos anos 2000 e início do 2010, o que, como nas referências ao eurodance, funciona em certos momentos, mas, em outros, é feito uma utilização medíocre do electropop dessa época. A faixa-título volta seu olhar para a música eletrônica européia do início da década passada trazendo uma faixa com grande influência do romanian popcorn. É uma canção com melodias envolventes e uma produção com um uso divertido de sintetizadores, apesar de soar muito datada. Já em “uh-oh”, mantém-se o som referente a este período, no entanto, sem as qualidades de “Feed The Beast”. Melodicamente, não é muito cativante, além disso, o processamento vocal exagerado é intragável. Talvez, o único ponto positivo dessa seja a presença de algumas boas escolhas ao produzi-la, como o uso de técnicas de samples de disco provenientes do funky house.

Em uma entrevista para popsugar,  Kim afirmou que o registro surge da junção de ideias para diferentes álbuns. E isso fica perceptível em vários momentos do projeto, pois, fora a completa falta de coesão, surge ao longo desse músicas que dão a sensação de que elas de fato deveriam estar em outro lançamento da artista. “Thousand Pieces” é a canção em que isso mais fica evidente, pois, parece muito ter saído do Clarity, com seu pop mesclado ao trap-rap, entretanto, com uma produção que utiliza de maneira mais genérica dessas influências e uma performance nada cativante da cantora. Essas similaridades com seus projetos antigos, entretanto, nem sempre resulta em algo ruim. “Revelations”, ainda que tenha sido elaborada para Problematique tem muito do Turn Off The Light, com o synthpop sombrio parecido ao da mixtape. É essa característica obscura entregue tanto ao produzi-la quanto nos vocais de Petras que torna este um dos maiores destaques do disco. 

Ainda sobre a mescla de ideias de diferentes projetos, bastante do Problematique, além da já citada “Relevations”, foi reutilizado na criação de Feed The Beast. O problema, entretanto, é que, com tantas canções fascinantes, Kim faz a seleção das mais genéricas do projeto descartado para compor sua estréia. “Hit It From The Back”, por mais que conte com um groove funk divertido, entrega a sonoridade disco que anda sendo muito explorada nessa década de forma básica, soando como qualquer música do estilo lançada nos últimos anos. “Sex Talk”, embora tenha melodias de sintetizadores cativantes, traz consigo uma performance entediante da artista que falha em apresentar a sensualidade a qual ela tenta passar na faixa.

Ademais, deve-se falar sobre a parte conceitual do projeto. Na mesma entrevista em que Kim revelou que o disco era composto de ideias de diferentes lançamentos, também foi dito que traria um conceito relacionado a como artistas pop são incentivadas a incansavelmente lançar músicas de maneira a alimentar uma “fera” — a qual seria uma metáfora às gravadoras —, daí o nome, Feed The Beast. Diferentemente do que se pode imaginar — ser um registro que criticasse durante seu decorrer a indústria fonográfica —, na realidade, isso é apresentado de maneira extremamente rasa, pois, o trabalho artístico faz justamente o que ele deveria criticar. Por mais que divertido em alguns momentos, o álbum de estreia de Petras é apenas uma coleção sem coesão e desinteressante de canções genéricas confeccionado da maneira mais rápida possível de modo a conseguir ser lançado no período em que “Unholy” esteve em alta para chamar atenção dos ouvintes do hit ao disco e, assim, obter um maior êxito comercial — o que seria um banquete para essa criatura monstruosa.

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