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Gasoline

2022 •

SM Entertainment

8.0
No seu recente projeto, Gasoline, KEY escancara de vez o motivo pelo qual deve ser considerado por todos a estrela mais brilhante do k-pop.
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Gasoline

2022 •

SM Entertainment

8.0
No seu recente projeto, Gasoline, KEY escancara de vez o motivo pelo qual deve ser considerado por todos a estrela mais brilhante do k-pop.
09/09/2022

No ocidente, quando um artista masculino ousa desafiar os padrões estéticos, culturais e musicais do cenário em que faz parte, a sua idealização torna-se um objeto de comparação importantíssimo para compreender as fórmulas e os meios pelos quais a indústria fonográfica funciona com aqueles que ousam quebrar as normas. De David Bowie a Michael Jackson, passando por brasileiros como Ney Matogrosso, o que não faltam são exemplos ímpetos de subversão musical. Mas, no k-pop, longe de todo esse espectro, um nome específico chama a atenção por estar fazendo aquilo que quase nunca vemos ser feito: Key, que junto da sua representação vigorosa de identidade e protuberância artística, opera de forma semelhante a grandes personalidades da cultura pop.

Em sua performance no MBC Music Core, programa de televisão sul-coreano, ele surge no palco como uma figura mística, ornamentado com um look composto por ombreiras altas, um choker com spikes e uma cruz pregada na cintura enquanto desce de um trono para dar vida a uma apresentação extremamente emblemática. Aos 30 anos de idade, o vocalista, dançarino e rapper do SHINee é um artista veterano no k-pop, mas que está longe de ser resumido à normalidade. No seu recente projeto, Gasoline, Key escancara de vez o motivo pelo qual deve ser considerado por todos a estrela mais brilhante do k-pop.

Fortemente inspirado por uma estética cinematográfica, ele resgata referências de diversos filmes de terror que marcaram os anos 80 e 90, como os clássicos Re-Animator, Ghostbusters, The Goonies e Phenomena. Embalado pela nostalgia, ele optou por fornecer o material físico em formato disquetes e de fitas VHS, uma opção criativa e de encher os olhos, principalmente, após o desfalque causado pela saída de Min Heejin da SM Entertainment, nome responsável pelas melhores criações visuais da empresa ao longo de 17 anos. Ainda focado em usar da cultura pop oitentista como uma base material e volátil para experimentar alguns conceitos para lá de interessantes, Key, da mesma forma que Charli XCX em CRASH, um dos melhores álbuns pop do ano, vai muito além de meras referências. Musicalmente, Gasoline é um amplificador de ideias e sons dos quais apenas ele consegue trabalhar sem parecer óbvio demais.

Na faixa “Bound”, recheada por um sintetizador estilo “Comme des Garçons (Like the Boys)”, de Rina Sawayama, Key desperta os primeiros sinais da sua odisseia sonora marcada por diferentes texturas musicais. Na sequência, “Villain”, em parceria com Jeno, do NCT, mostra-se ser o ponto alto do álbum. Juntos, eles sintetizam toda proposta imersiva da obra criando, de forma cartunesca, uma música indispensável em qualquer playlist de Halloween. Enquanto isso, “Burn” tende a dar foco nos vocais de Key, mesmo que o melhor momento esteja nas beiradas ocupadas por distorções e um ritmo amolador. 

“Guilty Pleasure”, por sua vez, é a explosão que garante a mais astuta consideração de Key com a música pop. Aqui, a presença de sequenciadores que remetem aos usados em “Thriller”, de Michael Jackson, nos conduz para uma ruptura formulada em um synth wave característico e abundantemente rico. Não seria exagero dizer que, hoje em dia, apenas The Weeknd seria capaz de recriar a mesma energia postada nessa faixa. “G.O.A.T. (Greatest Of All Time)”, é um descarrego emocional cheio de vulnerabilidade, e o mais interessante, é que embora sirva para diminuir o ritmo, ainda assim podemos notar certas ligações com a lista de peças apresentadas no decorrer da produção, que, em partes, contou com o trabalho do sul-coreano IMLAY, conhecido por remixar vários projetos da SM, incluindo, os três discos lançados por Key até então. “I Can’t Sleep” e “Ain’t Gonna Dance” recuperam as batidas acentuadas e preparam terreno para “Another Life”, uma primorosa continência ao passado de Kibum. Apresentada anteriormente por ele, a canção se encaixaria perfeitamente em FACE, de 2019, e BAD LOVE, de 2021. 

E embora seja quase, ou, totalmente, focado em uma abordagem vintage, Gasoline não deixa de ser atual em nenhum momento. É nesse sentido que, estranhamente, a faixa-título “Gasoline” dá a impressão de fugir um pouco do conceito inicial. Isso, felizmente, é algo comum de acontecer e que, no geral, não interfere no conjunto excepcional apresentado por ele nesse trabalho. Por sorte, a força descomunal, cujo maior interesse de Key seja apresentá-la nessa sua nova fase, é algo que verdadeiramente acaba dando muito certo. Ousando nos visuais, cantando e dançando de maneira que nenhum outro cantor masculino — em quaisquer cenários atualmente — chegue perto de fazer igual, é o principal combustível da vontade e da persuasão dele. Pela sua demonstração de coragem e veemência, muitos fãs, principalmente os da comunidade LGBTQIA+, se sentiram, de certa forma, acolhidos e representados. Assim, além de criar fissuras no k-pop, Key também se revela uma figura necessária, transcendendo qualquer barreira imposta contra a sua determinação. Este é, sem sombra de dúvidas, um dos momentos mais incríveis da música pop sul-coreana em décadas. 

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