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Gag Order

2023 •

Kemosabe / RCA

7.8
O último álbum de Kesha com a Kemosabe Records é, também, o seu mais vulnerável e honesto.
Kesha - Gag Order

Gag Order

2023 •

Kemosabe / RCA

7.8
O último álbum de Kesha com a Kemosabe Records é, também, o seu mais vulnerável e honesto.
29/05/2023

Após passar mais de uma década presa em um contrato com a Kemosabe Records e enfrentar diversas batalhas judiciais contra o infame produtor e empresário Dr. Luke, Kesha encerrou os trabalhos ao lado da gravadora com o lançamento de Gag Order, seu quinto álbum de estúdio. O título faz referência à ordem de silêncio decretada pela justiça americana que a impede de falar publicamente sobre os processos, ainda em aberto. Apesar disso, o disco é um ato de libertação para a cantora; um verdadeiro manifesto dos seus pensamentos que, por muito tempo, estiveram amordaçados.

Em um texto publicado na revista Nylon, Kesha relata que viveu um período conturbado após o lançamento de High Road, poucos meses antes do início da pandemia de 2020. O disco, que antecede o Gag Order, propunha um retorno à despretensiosidade e irreverência que marcou os anos iniciais da carreira da artista, mas a chegada da quarentena inviabilizou a divulgação do projeto. Isso lhe despertou um sentimento de vazio e, com ele, a vontade de fazer um álbum que, em suas palavras, “soasse como minha cabeça se sente: mergulhada em depressão, gratidão, raiva e esperança”. Ela, então, se juntou ao renomado produtor Rick Rubin para trabalhar em canções que, posteriormente, revelariam a imagem de uma Kesha mais vulnerável, mas que não se deixa levar pelo conformismo.

O que separa Gag Order dos outros trabalhos da cantora é, principalmente, seu caráter confessional. Kesha não está mais vestindo uma armadura “anti-hate” como no Rainbow e nem se rendendo à felicidade comprada do High Road — está, simplesmente, encarando a realidade da forma mais crua possível. É, por isso, que faixas como “Eat The Acid” e “Fine Line” funcionam tão bem. Com uma produção minimalista — sintetizadores distorcidos, teclados esparsos e a ausência de bateria constroem uma atmosfera etérea quase hipnotizante —, os holofotes ficam na lírica pessoal e corajosa. Especialmente na primeira, os vocais são editados de forma que os versos parecem mensagens de voz que ela enviou a alguém próximo, adicionando um caráter intimista à música, que toca em temáticas que já são reveladoras por si só, como o elo entre a artista e a religiosidade e a luta contra a autodestruição: “I am the one that I’ve been fighting the whole time / Hate has no place in the divine”. Na outra, Kesha fala mais diretamente sobre a comercialização da sua imagem, principalmente após os escândalos envolvendo Luke. A popstar afirma estar cansada de andar sobre as linhas tênues que a indústria colocou embaixo de seus pés — um discurso impactante e atípico no cenário da música pop contemporânea. 

Na verdade, Kesha sempre foi uma figura singular nesse meio. Enquanto outras cantoras almejavam a glamourização do estrelato, sua personalidade imprudente e seu senso de humor disruptivo ajudaram a moldar a cena da EDM do começo dos anos 2010 — a excêntrica “TiK ToK”, por exemplo, capturava perfeitamente a cultura caótica do mundo on-line e teve um impacto generacional. Felizmente, o caráter vanguardista que marcou a fase inicial de sua carreira continua presente em seus trabalhos atuais, contrariando a concepção imatura de que essa genialidade vinha de outra pessoa. No Gag Order, apesar de termos momentos onde Kesha se rende às baladas pop comerciais — algo que ela insiste em fazer desde o Rainbow e que já se tornou demasiado previsível —, os destaques ficam por conta daqueles em que a cantora ainda se mostra uma força criativa efervescente. Em “Only Love Can Save Us Now”, por exemplo, ela resgata o pop-rap debochado que fez parte de seus maiores hits e troca a sonoridade dance-eletrônica deles pelo hip-hop texturizado de Rubin, intercalando-o com um refrão gospel que se recusa a sair da cabeça de quem escuta. Já “The Drama” possui um flow desnorteante e os minutos finais parecem ter saído de um álbum da Fiona Apple — uma verdadeira viagem psicodélica. 

A capa do disco nos mostra uma artista sufocada pela plastificação de sua imagem, e o conteúdo impresso nele revela a urgência em libertar as emoções que estavam presas dentro desse saco plástico. Além disso, vemos uma Kesha que abraça sua excentricidade — “So get into it or get the fuck out”, exclama em “Peace & Quiet”. Gag Order desconstrói a figura idealizada de uma popstar e a humaniza, mas reforça seu caráter autêntico, mostrando que essa característica é intrínseca à cantora e independe da forma como ela escolhe se expressar artisticamente. Agora, livre de contratos, Kesha poderá explorar ainda mais as alternativas que a música pop oferece, e espera-se que ela continue ultrapassando os limites da criatividade — até porque ser básica nunca foi uma opção.

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