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To Pimp a Butterfly

2015 •

Top Dawg / Aftermath / Interscope

10
To Pimp a Butterfly é o testamento máximo do rap estadunidense da década de 2010, e sua posição de álbum de vanguarda é incontestável.

To Pimp a Butterfly

2015 •

Top Dawg / Aftermath / Interscope

10
To Pimp a Butterfly é o testamento máximo do rap estadunidense da década de 2010, e sua posição de álbum de vanguarda é incontestável.
25/09/2022

A indústria fonográfica e todos os segmentos da arte e do entretenimento estadunidense estão presenciando um movimento imponente, que desponta de uma maneira que é impossível de ignorar: é o chamado Renascimento Negro, em que artistas e pessoas negras assumem o protagonismo de muitas das melhores e mais interessantes produções dos Estados Unidos nos últimos anos. Ibram X. Kendi, historiador e ativista antirracista, se debruça sobre o tema em seu artigo de 2021 pela revista Time, “Ibram X. Kendi: This Is the Black Renaissance”. Ele traça o movimento como o terceiro grande renascimento cultural de negros estadunidenses, após o Harlem Renaissance da década de 1920 e o Black Arts Movement das décadas de 1960 e 1970. Nas palavras do próprio, “se o Renascimento do Harlem instigou pessoas negras a se verem, se o Movimento das Artes Negras instigou pessoas negras a se amarem, o Renascimento Negro está instigando pessoas negras a serem elas mesmas. Totalmente. Sem remorso. Livremente”. Agora, a preocupação pela validação branca se dissipa para dar lugar à complexidade, riqueza e imperfeição das narrativas negras.

Kendi define o ano de 2015 como um possível ponto de partida para o Renascimento Negro sair do estágio de fermentação e começar de verdade, com o Black Lives Matter se expandindo concretamente como movimento. Coincidentemente ou não, é o mesmo ano de lançamento de To Pimp a Butterfly, terceiro álbum de estúdio de Kendrick Lamar. O disco dá sequência ao brilhante e estratosférico good kid, m.A.A.d city, de 2012, responsável por alavancar o rapper ao estrelato, em que ele versa suas histórias de adolescência na cidade californiana de Compton. Como prosseguir, sem perecer ao tropeçar nas armadilhas que a indústria e o capitalismo intencionalmente arquitetam para os seus talentos negros? Em 1 hora e 18 minutos e 16 faixas, Lamar mergulha em todas as nuances que esse impasse pode oferecer, num álbum que já nasceu monumental e se reafirma como um dos melhores da história do rap à medida que os anos se passam.

É inviável sintetizar em poucos parágrafos todas as ideias e interpretações que a narrativa central e as letras de To Pimp a Butterfly propõe – é justamente por isso que a segunda temporada do podcast “The Big Hit Show” é dedicada em detalhar todo o processo criativo e significação do universo do álbum, com cinco episódios produzidos em parceria com o rapper. Mas, é possível pincelar uma fatia desse ecossistema: a metáfora utilizada é a de uma lagarta, que vira borboleta. Felizmente, as questões de Kendrick se transformam em autoconhecimento e amor próprio no final do disco, mas o caminho para chegar nesse processo é tortuoso. Temas como amor próprio e ódio, fama, depressão, violência, raça e política sustentam o alicerce lírico, enquanto o panorama sonoro pode ser definido como a inclusão de jazz, funk e poesia falada em meio ao seu hip-hop político e rimas rasgadas e ausentes de qualquer traço de medo. Com uma lista de colaboradores de peso, incluindo nomes como Thundercat, Pharrell Williams e Dr. Dre, o resultado das fusões propostas é de um deleite incomum. 

“Wesley’s Theory” abre de maneira arrebatadora, com o sample de “Every Nigger Is a Star”, de 1964, do cantor jamaicano Boris Gardiner. Nela, o ouvinte já está ambientado: o eu-lírico, infelizmente, se desviou do seu propósito de ser uma voz do gueto, tornando-se a figura estereotipada de rapper recém-rico em ascensão e lubridiado na luxúria da fama e nos abusos da indústria do entretenimento. Os desdobramentos dessa situação se entrelaçam e ganham complexidade, caindo em quase desgraça na visceral “u” , sexta faixa do disco e um dos registros mais difíceis da carreira do rapper, com versos honestos e crus sobre desilusão, arrependimento e a depressão que o atormenta. É uma verdadeira evocação ao desespero, em que o eu-lírico se machuca e se dilacera. É doloroso ouvir ele chorando enquanto se auto deprecia (e mente para si mesmo) no segundo verso, mas é o combustível necessário para ele se superar. E “i”, penúltima música, é sua antítese mais definitiva: uma aura de esperança e superação de desafios. Se dividir o cerne narrativo desse trabalho em três atos fosse a possibilidade mais interessante de entendê-lo, essas seriam as faixas escolhidas, só que estamos diante de uma fonte inesgotável, sendo assim, necessário observar por outras perspectivas. 

“Alright” é, talvez, a música mais importante do catálogo de Kendrick e, também, uma das mais importantes do rap estadunidense desse século. Logo após a cólera aguda das palavras de “u”, é onde a confiança que as coisas ficarão melhores começa a crescer. Motivada pelas dores latentes e nunca cicatrizadas da brutalidade policial e do racismo antinegro, o questionamento imediato é se os EUA já vivenciou algum progresso real na equidade racial. A resposta mais sincera não é animadora, então a alternativa é construir escapes e travar lutas. A faixa se tornou tão imponente e impactante que “We gon’ be alright” é uma declamação permanente nos protestos do movimento Black Lives Matter desde então. Já “Mortal Man”, é um dos momentos mais fortes do rap nos últimos anos. O rapper finaliza o disco com uma faixa com mais de 12 minutos, em que seu ápice é a simulação de uma entrevista com Tupac Shakur, que consegue revelar todas as nuances e aprendizados que rondavam a cabeça de Lamar. Com os registros de voz de 2Pac, retirados de uma entrevista concedida para a rádio Sveriges Radio Station (P3) em 1994, o poema que constantemente aparece nas outras músicas finalmente ganha sua versão completa. Depois de tudo o que o ouvinte experienciou, terminar o álbum assim é a constatação de que estava diante de uma obra triunfal e irretocável.

To Pimp a Butterfly é um álbum que pode esbanjar o título de verdadeiro testamento do hip-hop deste século. Congregando um arranjo complexo de críticas, rimas e elementos sonoros, ele é atrevido, mórbido, didático, desesperador e catalisador de fé e felicidade, simultaneamente. Mas, ele é parte, não todo. Kendi enfatiza sobre a imperfeição, e eu traçarei essa linha com mais precisão. São trabalhos como esse que nos lembram que, além de tudo, pessoas negras são humanas, não fórmulas, estatísticas nem objetos. Kendrick não é perfeito, sente rancor, tristeza, foi e é negligente (como com a gravidez de sua irmã e com a morte do seu amigo Chad Keaton, contadas em “u”). É possível discordar de algumas de suas conclusões em “Mortal Man”, ou não ser um adepto convicto do cristianismo (já que Deus e a fé do rapper é quase onipresente nesse álbum). O ponto aqui é que finalmente construímos um espaço sólido para expressão própria, com possibilidade de erro, de discordância, de incompletude… mas, com a certeza de que o que está sendo feito é de excelência e que é válido por si só. E não há nada mais reconfortante do que saber que um trabalho tão impactante esteja repleto do que tanto foi negado para nós: humanidade.

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