“The Heart Part 5”
2022 • RAP/HIP-HOP• AFTERMATH/INTERSCOPE/TOP DAWG ENTERTAINMENT/PGLANG
POR LEONARDO FREDERICO; 09 de MAIO de 2022

Avaliação: 5 de 5.
MELHOR LANÇAMENTO

Eu gosto de pensar que as músicas do Kendrick Lamar são como cebolas: elas têm camadas e, a cada camada, elas ficam mais e mais intensas. É uma analogia barata, mas funciona. Me lembro quando “HUMBLE.” foi lançada, em 2017, e no auge do seu sucesso, algumas pessoas acreditavam que a canção era um simples hino suburbano sobre humildade e ganância, especialmente aquelas que ouviam canções nos serviços de streaming, uma espécie de linha de montagem mercadológica, em que raramente prestam atenção ao que estavam ouvindo. Mas a faixa, assim como grande parte do trabalho de Lamar, ia muito além de apenas um jogo sobre poder monetário e suas críticas eram muito mais cirúrgicas e potentes do que pareciam. Kendrick, dessa forma, fez sua obra funcionar em todos os níveis possíveis, e em todos eles, ela era ótima. 

“The Heart Part 5” é o novo single de Lamar, bem como a peça mais recente da sua série de singles The Heart, na qual os “episódios” são lançados antes de grandes lançamentos — enquanto a “Part 1” foi lançada há doze anos, “Part 4” surgiu pouco antes do lançamento de DAMN., em 2017. Nessa nova música, Lamar entrega uma de suas versões mais honestas até hoje. No começo, um agradecimento aos seus fãs é seguido por episódios de violência em sua juventude, temáticas recorrentes e estruturais para seus álbuns mais antigos, como good kid, m.A.A.d city, de 2012. “I come from a generation of pain, where murder is minor / Rebellious and Margielas’ll chip you for designer / Belt buckles and clout, overzealous if prone to violence / Make the wrong turn, be it will or the wheel alignment”, ele canta. O lirismo de Lamar é tão cirúrgico e preciso, mas, ao mesmo tempo, ecoa quase passivo: “Water in between us, another peer’s been executed / History repeats again / Make amends, then find a nigga with the same skin to do it”, ele recita. Por mais que ela não atinja diretamente alguém, suas palavras são altamente associadas. Em uma passagem dolorosa, ele conclui: “But that’s the culture, crack a bottle”, internalizando, enquanto uma amálgama de jazz e rap se fundem no fundo, completados por samples de “I Want You”, de Marvin Gaye.

Além disso, Lamar lançou simultaneamente um clipe para canção, que da mesma forma, completa um conjunto fechado. Honestamente, embora a faixa seja uma das melhores que Kendrick lançou nos últimos anos, ela parece funcionar melhor com o clipe, que por sua vez, é singular. Com uma produção simplista, Lamar aparece em um plano de fundo e a câmera fixa, seguindo para ele realizando metamorfoses inteligentes. Quando ele canta: “Friends bipolar, grab you by your pockets”, seu rosto assume a face de Kanye West. OJ Simpson, Will Smith, Jussie Smollett, Kobe Bryant e Nipsey Hussle também estão entre as identidades que Lamar assume. Voltando para nossa metáfora da cebola, é junto com o vídeo que você atinge a última camada dessa canção, que, sinceramente, já soa como um clássico instantâneo.