Mr. Morale & The Big Steppers
2022 • RAP/HIP-HOP • AFTERMATH/INTERSCOPE/TOP DAWG ENTERTAINMENT/PGLANG
POR GERSON MONTEIRO; 23 de MAIO de 2022
9.0
MELHOR LANÇAMENTO

Na indústria musical atual, é difícil encontrar artistas que causam tanto impacto como Kendrick Lamar, não só em termos de números e streams, mas também a um nível cultural. Quando observamos o trabalho do cantor, por exemplo, nas redes sociais, é possível verificar mais pessoas falando do conteúdo em si do que propriamente os feitos do álbum. Isso é algo bastante raro, dado que muitos dos ouvintes, hoje em dia, estão mais interessados se certo single atingirá o topo da parada, ou, se o disco terá mais sucesso que outro. O dono de um dos álbuns mais importantes da história musical, To Pimp A Butterfly, atingiu um patamar em que ele não precisa provar a sua credibilidade artística, sendo cada novo projeto apenas uma amostra do seu vasto talento como um dos maiores rappers da história. 

Em comparação ao seu ótimo antecessor DAMN., este projeto é ademais dinâmico e ambicioso em mesclar uma enorme quantidade de gêneros. Durante 1 hora e 13 minutos é apresentado variações de hip-hop experimental, jazz rap e até west coast hip-hop. O cantor é experiente em pegar inúmeras sonoridades diferentes e construir um trabalho coeso e coerente, e o quinto projeto do rapper não é exceção. Mr. Morale & The Big Steppers está dividido em dois discos, cada um com 9 músicas. Enquanto o primeiro se revela muito focado no desenvolvimento e complexidade das letras, revelando um lado bastante confessional e focado no relato de vários pensamentos do artista; a segunda parte é direcionada à experiência sonora, criando atmosferas densas que acompanham as histórias profundas do cantor. 

Uma das narrativas mais íntimas do álbum é, precisamente, “Mother I Sober”. Lamar instantaneamente se abre com uma letra sincera e pessoal, na qual ele luta contra seu trauma cara a cara. No início da canção, Lamar detalha sua educação e o impacto dela na sua vida. Ele detalha a experiência de sua mãe com abuso sexual e depois teme que ele próprio possa estar sofrendo desse ataque também (“Now I’m affected, twenty years later trauma has resurfaced / Amplified as I write this song, I shiver ’cause I’m nervous”). Posteriormente, Kendrick afirma que nunca esteve sujeito ao vício em drogas, mas sim à própria luxúria. O rapper sente uma sensação de desespero e desesperança quando se abre sobre as traições que ele já cometeu e o seu arrependimento e remorso perante elas.

Pouco depois, Lamar amplia seu ponto de vista sobre a cultura sexual tóxica enfrentada pela comunidade negra e como ela deve ser trazida à atenção. Ele exclama, no entanto, que o abuso sexual que muitas crianças negras enfrentam pode ser uma causa raiz dessa cultura, pois nossa sociedade não parece um espaço seguro. Isso é o que mais tarde é cunhado a “maldição geracional” que os negros enfrentam. Perto do final da música, é, então, que Kendrick metaforicamente se liberta a si mesmo e a todos os afetados pela toxicidade através do uso de transparência, orgulho e positividade, com o objetivo de quebrar a “maldição geracional”. 

A faixa “We Cry Together” também é um diamante polido em Mr. Morale & The Big Steppers. Kendrick Lamar e Taylour Paige tomam lados opostos na disputa de um casal agressivo que se vê insultando um ao outro por quase seis minutos. Durante a canção, a personagem de Taylor analisa os problemas emocionais mais profundos de Kendrick (“Find it funny you just can’t apologize / Egotistic, narcissistic, love your own lies”) e, a partir daí, ele perde todo o seu vigor na discussão, seja porque ele não quer se envolver, ou porque ela parou de “sapatear” em torno da conversa por um segundo (“Stop tap-dancing around the conversation”). A energia que os dois oferecem é fenomenal e é possível sentir os transtornos e medos de ambas as partes, soando verdadeiramente vulneráveis e magoados. Especial crédito para Taylour Paige por representar tão bem os detalhes e os pormenores da discussão, desde as falhas de voz até o ritmo melódico das falas, que conseguem acompanhar o ritmo eufórico de Kendrick.

Uma das faixas mais controversas do disco é “Auntie Diaries”. A canção é uma história sobre dois familiares de Kendrick cujas experiências com gênero e sexualidade moldaram a sua responsabilidade na família. Kendrick justapõe o uso indevido da palavra “N-word” com o uso da “F-word” por sua própria comunidade para denegrir as pessoas LGBTQ+. No entanto, ao fazer isso, usa a própria palavra que ele supostamente não deveria dizer, o que pode causar algum desconforto para pessoas queer que ouvem o álbum pela primeira vez. 

Em contraste, há quem acredita que o uso da palavra é justificado na da canção, servindo como um meio de representar a ignorância da sociedade e dentro da própria comunidade negra, que devia entender o lado de quem sofre de homofobia, já que eles próprios sofrem do racismo causado pela incultura da sociedade. Apesar deste “erro”, a mensagem da música acaba por sobressair, e dá a conhecer aos ouvintes habituais de rap sobre o significado prejudicial da palavra.

Uma das outras controvérsias de Mr. Morale & The Big Steppers é a presença de Kodak Black. O rapper do sul da Flórida foi acusado de estuprar uma adolescente dentro de seu quarto de hotel na Carolina do Sul. Muitos dos temas do disco estão enraizados no confronto de traumas em torno do abuso sexual e/ou da presunção de tal. O fato de Kendrick Lamar incluir Kodak nesse projeto é uma contradição, que é, de certa forma, mal vista. No entanto, não significa que a colaboração estrague a fluidez da narrativa. “Silent Hill”, com Black, é talvez o ponto baixo do álbum, mas, continua a ser mais enriquecido que destaques de, por exemplo, Drake. Apesar de não corresponder às expectativas trazidas por Kendrick, continua a ser uma peça interessante no contexto da segunda parte do disco.

No final das contas, Kendrick é apenas humano e é muito propenso a cometer erros e Mr. Morale & The Big Steppers mostra muito do seu lado vulnerável, desmistificando os seus traumas e mostrando o seu crescimento pessoal. Apresentando uma obra bastante confessional e de grande amadurecimento, Kendrick Lamar destaca-se através da sua genialidade álbum após álbum, havendo muitos poucos artistas nos dias de hoje que a ele se igualem neste sentido.