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Raven

2023 •

Warp

8.5
Através de paisagens íngremes e sofisticadas, Kelela aborda a complexidade da jornada do amor em sua obra mais introspectiva e profunda.

Raven

2023 •

Warp

8.5
Através de paisagens íngremes e sofisticadas, Kelela aborda a complexidade da jornada do amor em sua obra mais introspectiva e profunda.
10/03/2023

Kelela é, por si só, uma força musical inerente. Ao surgir na indústria em 2013 com a mixtape CUT 4 ME, ela já demonstrava possuir e dominar uma forma única de fazer música. Porém, os anos em que se manteve afastada da cena após o lançamento de TAKE ME A_PART, THE REMIXES, em 2018, foram não apenas torturantes, mas esclarecedores. Sua musicalidade, que é difusa em articular diversos elementos da música eletrônica, não poderia jamais ser replicada por outrem. Embalada em sua voz suave, que ressoa como o canto de uma sereia envolta por melancolia, a artista etíope-americana pincela os sentimentos do ouvinte em relação a sua arte de maneiras simultaneamente distintas e até contrastantes, ora palpáveis, abstratas ou distantes, e que interagem entre si ao ponto de se colidirem. É um arco-íris disforme e belo, na maneira mais tangível de se dizer. 

Em setembro de 2022, “Washed Away” emergia não apenas para fomentar o retorno oficial da cantora. Era o convite sublime para entrar no universo de Raven, através de uma viagem sensorial e, até então, indefinida. Posteriormente anunciada como a faixa de abertura do disco, etéreo é o seu sinônimo mais forte. Paisagens sonoras se misturam com sintetizadores atmosféricos, que estão num estado letárgico de devaneio e elevação. Em apenas quatro linhas, Kelela faz uma descrição assertiva de como é o terreno físico e emocional dessa jornada que se inicia: 

“The mist, the light, the dust that settles in the night 

The hope, the longing, fade away, blurry-eyed

Riding out on metal rays

Moving on, a change of pace, and I’m (far away)”

Depois de uma introdução inspiradora, “Happy Ending” é o início de fato. Agitada, mas dormente, a temática que permeia todo o disco começa a se formar daqui. Viver na pele, decifrar e tentar acertar o rumo do amor é, com toda certeza, uma tarefa árdua e que está permeada em trajetos íngremes. A progressão dessas nuances estão divididas em dois na obra: a primeira parte com luzes coloridas, neons e incandescentes, contrastando com os tons escuros e negrumes de sua finalização. Já o espaço-tempo é localizado de uma maneira muito singular: é o limiar entre o final da festa e o retorno para casa, algo que poderia ser inferido entre às quatro e seis da manhã. A sensação de euforia se esvaindo e da tranquilidade e calmaria se apossando, enquanto os raios de sol começam a aparecer. E, apesar disso, nada é completamente definido. Nem sempre sabemos onde estamos, e a dúvida, a incerteza e a não-linearidade são elementos importantes para a total compreensão.

Ao dar seguimento na escuta, mais facetas são desembrulhadas. Da primeira parte, é necessário destacar principalmente a sua finalização. “Closure”, parceria com Rahrah Gabor, funciona como “holy terrain”, faixa de FKA twigs para o disco MAGDALENE: é o ponto mais comum e confortável, funcionando quase como uma pausa de alívio para a tempestuosa imersão emocional que estamos enfrentando. Na sequência, “Contact” brilha como um artefato banhado a ouro. Faixa mais dançante da obra, até parece que desviamos do caminho: voltamos algumas horas, estamos prestes a sentir o fervor do pico da festa. É aquele momento de se arrumar para viver uma noite memorável. Mas esse momento é um relapso, uma memória doce, e “Fooley” rompe o andamento da imaginação com um vazio denso e pontiagudo. A fantasia acabou. 

As próximas faixas estão desesperadas em abandonar tudo o que não funciona mais. É uma etapa complicada, cheia de incongruências, que afagam com o fervor do sexo em “Sorbet” e as consequências ásperas de “Divorce”. Mas nem tudo está perdido. “Enough for Love” é a aspiração máxima de que, no final, tudo deu certo. Melodicamente apaixonada, os amantes estão finalmente prontos para mergulhar de vez no amor. Maduros, estáveis, sem mais tentativas de fugas ou incertezas. E os ouvintes vão precisar partir. “Far Away” é um adeus progressivo, relaxante, adornado pelas ondas do mar. Até parece que retornamos ao ponto de partida, mas esse local é diferente. Definitivamente, não somos mais os mesmos.

Raven é, acima de tudo, a materialização do renascimento de ከለላ (nome da artista em amárico). Apostando em uma abordagem mais reflexiva e menos expansiva, o seu segundo álbum de estúdio reflete o seu amadurecimento e franqueza. Sua presença é inconfundível e notoriamente importante: um ícone queer e de negritude, que dialoga e é trilha sonora para uma comunidade inteira. Mas, além disso, ela também é uma antítese primorosa do que se espera de artistas que se aprofundam na seara da música eletrônica. Dubstep, house, UK grime, entre outras cenas, estão dominadas por uma euforia agressiva, de perspectiva masculina, tanto na sonoridade quanto na dança. Ela é o completo oposto, e isso está latente ao máximo nesse registro. Com transições e faixas que funcionam como uma aquarela prestes a desbotar, Raven é o produto lapidado de uma mente criativa que não pode, e nem deve, ser moldada pelas expectativas. Devemos apenas mergulhar profundamente, e se surpreender com tudo o que Kelela é capaz de fazer.

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