Teenage Dream
2010 • POP • CAPITOL
POR KAIQUE VELOSO; 23 de JANEIRO DE 2022
7.0

Não só a aceitabilidade do público quanto à característica radiofônica do gênero, mas também o cenário dance-pop teve seus anos de ouro no período em que Teenage Dream foi lançado. Precedido por The Fame, de Lady Gaga, Blackout e In The Zone, de Britney Spears, e mesmo One of The Boys, da própria Perry; o panorama estava muito mais que propício para o solavanco dançante, com gosto de algodão-doce, e para a estabilidade de Perry no imaginário popular. Decerto, esses são fatores que contribuíram fortemente para a grande euforia da projeção de Teenage Dream: o álbum que dominou o início dos anos 2010 e imortalizou a imagem, extrovertida e sensual, da qual Katy Perry jamais será desassociada.

Um mundo colorido artificialmente, o sabor adocicado ad nauseam, a efervescência de batidas pop, um dom natural de ditar melodias cativantes, suaves e permanentes, tudo isso — e mais um pouco — é o que compõe o maior trabalho de Perry. Nesse sentido, o disco representa um registro histórico de grande afetividade para uma geração, haja vista sucessos, como “Last Friday Night (TGIF)” e “California Gurls”, que sintetizam a essência do YOLO de jovens irresponsáveis, mas que possuem certa razão em querer festejar — afinal, você só vive uma vez. Embora a segunda apareça, em alguns momentos, ligeiramente brega, como o sintetizador que imita um baixo ou os vocais distorcidos na desassossegada saída da canção, ou, ainda, mal finalizada, com a estranheza dos “ooh-ooh-ooh”; a primeira é divertida em sua forma despreocupada, visto que trata-se da exaltação da confraternização entre estranhos, unidos pelo sentimento de urgência pela liberação do espírito: a festa. Isso, é claro, sem negligenciar um comentário social sobre o começo da massificação das redes sociais e o impacto desse fato na sociedade: “Pictures of last night ended up online / I’m screwed, oh well”, ela se desespera com a possibilidade da veiculação de seus próprios atos, pois, óbvio, o que fazemos não é necessariamente aquilo que gostamos de mostrar a todos no Instagram

Além disso, é interessante notar como Teenage Dream consegue conter dois lados muito distintos de Katy Perry: a Katy engraçada — a palhaça de Smile — e a Katy imponente, que aproveita tanto o início de uma paixão, quanto o fim dela. A faixa-título é, muito provavelmente, sua melhor canção, a que melhor a representa, capaz de unir as características básicas de um hit número um e a letra de romance clichê, mas completamente necessária. Somam-se a essa “The One That Got Away” e “Not Like The Movies”, a primeira sendo direcionada para o eletropop, no estilo “dance enquanto chora”, na medida em que remói as lembranças de um caso de amor falido; a segunda, por sua vez, recai sobre os moldes de uma clássica balada sob o piano — apesar de ligeiramente previsível e pouco empolgante, tal faixa permanece sincera e fiel quanto aos objetivos de Katy. Por outro lado, nem em seus sonhos mais selvagens, a sagaz cantora imaginaria que “Peacock” teria o mesmo efeito em português que possui em inglês. Essa hilária canção sobre desesperadamente querer ver algo que seu parceiro sexual esconde foi a prova da habilidade de persuasão da artista, a qual teve de convencer sua gravadora a aceitar, em seu segundo álbum de estúdio, uma faixa com esse teor cômico e lascivo. Ainda que Katy se agarre sobre ela como um “hino gay”, “Peacock” é, em última instância, sem vergonha, sobre sexo. 

Convém destacar, ademais, um caso à parte dentro do projeto, que viria a tornar-se um tema recorrente entre as músicas do catálogo da cantora de “I Kissed A Girl”: a faixa “Firework” e a saga dos discursos motivacionais. É quase imprescindível ouvir, de tempos em tempos, alguma canção de mensagem puramente clichê de autoajuda: “Roar”, “Smile” e, nesse caso, “Firework”. Grosso modo, todas elas aspiram à grandiosidade, seja pela força dos vocais, seja pela humildade com que são concebidas. A reviravolta é que, apesar da falta de brio e refino na elaboração do discurso motivacional, esses momentos são aqueles em que Katy soa mais autêntica. É como se ela, de fato, fosse devota do que canta, ou seja, ainda que seja simples, é a sua fé. “You don’t have to feel like a waste of space / You’re original, cannot be replaced”, diz ela.

Enfim, o disco Teenage Dream representa muito para Katy Perry e para a música pop em si. Ele foi importante para validar Katy na indústria; ela desejava mostrar, portanto, que One of The Boys não foi sorte, foi a concretização de sua capacidade como hitmaker. O álbum foi protagonista do momento em que o gênero mais popular no mundo era o pop — o que é diametralmente oposto aos dias de hoje, no ano em que o CD completa 12 anos, o rap e hip-hop dominam. Sem dúvidas, esse não é um dos melhores álbuns de 2010, quiçá da década inteira; ele é, contudo, o álbum que estabeleceu os moldes que tanto Katy quanto a indústria musical em geral seguiriam a partir de então.