Donda
2021 • RAP/HIP-HOP • G.O.O.D. MUSIC/DEF JAM
POR MATHEUS JOSÉ; 05 de SETEMBRO de 2021
5.9

Ao mesmo tempo em que presta homenagem a sua falecida mãe em Donda, Kanye West também abre espaço para falar sobre Deus e, ironicamente ou não, se divertir ao lado de DaBaby e Marilyn Mason — um homofóbico e um abusador acusado de ser neonazista. Depois de uma espera onde cada sinal de lançamento era semelhante a uma fagulha que ia aos poucos se alastrando e causando um verdadeiro incêndio sobre um pasto de grama seca, o então décimo álbum do rapper surgiu a partir do espetáculo proporcionado por ele em três audições realizadas como um show, com direito a performances e uma locação bem interessante, o Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, lugar onde o artista chegou a ficar hospedado enquanto finalizava a produção das faixas que estariam presentes nesse trabalho.

Desse contexto de apresentações em estádio e uma divulgação colossal, era de se esperar que todo o espetáculo armado em volta do Donda fosse valer a pena quando o disco saísse. Mas, por mais interessante que possa ser alguns dos aspectos presentes na obra, o conjunto geral está longe de ser aquilo que se pode esperar vindo de um dos maiores artistas de todos os tempos. Afogado em ambições, Ye — sempre conhecido por se envolver em algumas polêmicas que marcaram a música pop ao longo dos anos — parece ter perdido o ritmo que tinha antes desde que começou sua fase de rendição, colocando o cristianismo no centro de suas narrativas. No começo, essa ideia até que deu certo, em partes, pois apesar da recepção mediana do álbum Jesus Is King, era óbvio que as experimentações feitas pelo artista pesariam no julgamento do público e crítica. Com isso, a grande expectativa geral se debruçava no fato de que em seu novo álbum, Kanye voltaria a fazer música secular, se distanciando de vez do gospel presente no projeto anterior.

Contudo, se as opções de quem aguardava ansiosamente o retorno do artista com músicas inéditas se limitasse na questão sobre essas músicas serem ou não serem cristãs, estavam enganados, pois, mais uma vez confirmando a sua imprevisibilidade, Ye resolveu misturar as duas coisas. O resultado não poderia ser outro: uma geleia musical. Interessante, porém nada coesa. E como se não bastasse a bagunça narrativa, o álbum enfrenta outro problema: a duração. Longe de ser algo ruim, discos longos sempre costumam surpreender positivamente, principalmente quando se trata de artistas conceituados, como são as obras do Swans, cujo os materiais sempre passam da média de duas horas de audição. No entanto o balanceamento nessa objeção costuma considerar a variação e os pontos marcantes ao longo do disco, duas coisas das quais se fazem ausentes em Donda.

Depois da introdutória e repetitiva “Donda Chant”, “Jail” com os riffs de guitarra conseguem explorar de maneira assertiva a atmosfera crua da produção desenvolvida ao longo do álbum e o sentido colaborativo dele através de uma ótima parceria com JAY Z, porém, esse aspecto acaba não sendo um diferencial que exerça um peso significativo nos 102 minutos restantes. Ainda dissecando os pontos positivos, “Hurricane” e o tom acessível ganham espaço entre as melhores faixas, junto de “Believe What I Say”, que remonta o bom senso do artista em sempre manusear samples de maneira entusiasmada e única. Dessa vez, o clássico “Doo-Wop (That Thing)” da Rainha do Rap Lauryn Hill, foi o escolhido para dar margem ao que Kanye mais sabe fazer de melhor. Sem surpreender ninguém, era esperado que após toda questão envolvendo a saúde mental e, consequentemente o seu divórcio, algum momento Ye teria que abordar esses dois pesares em sua obra, o reflexo disso pode ser notado na faixa “Lord I Need You”, onde o tom pessoal é orquestrado por uma narrativa sensível em que ele canta sob um dos melhores versos da sua carreira, cheio de sentimentos e absurdamente tomado pela consciência da sua vida amorosa e familiar em declínio, então ele clama por ajuda divina e sua prece expõe algumas feridas:

Startin’ to feel like you ain’t been happy for me lately, darlin’

‘Member when you used to come around and serenade me, woah

But I guess it’s gone different in a different direction lately

Tryna do the right thing with the freedom that you gave me

Your gun off safety

Speak first, don’t break me

Harsh words, you’re angry

Lord, don’t take me, oh, oh

Após percorrer por uma gama de diferentes narrativas e experimentações sonoras encaixadas de maneira abrupta ao longo do disco, Kanye tenta repetir a dose dos bons momentos várias vezes, porém o resultado é extremamente desanimador, exemplo disso é a sequência “Jail, Pt.2” e “Ok Ok, Pt. 2”, ambas desnecessárias, porém, a situação fica ainda mais perturbadora ao notar que a primeira contém a presença de Marilyn Manson e DaBaby mesmo após toda repercussão negativa gerada pela aparição deles na última audição do álbum. West definitivamente não tem limites, mas ultrapassar a linha para apenas causar e dar o que falar deixou de ser algo bom e divertido vindo dele há muito tempo.

Prosperando a presença divina em monólogos estendidos ao longo do álbum, Kanye nos momentos mais próximos de Deus consegue encaixar um coro gospel em sintonia com os sons de um órgão batizado em faixas que beiram o ambiente construído no passado pelo Sunday Service Choir. Já na contramão de todo esse lado banhado de religiosidade, os convidados — polêmicos ou não — estendem suas mãos em direção à música profana que se mistura aos picos narrativos pouco coesos e muitas vezes sem noção, como quando o artista declama suas situações de “problemas de um bilionário”. Irônico ou não, nenhum desses furos soam adequados. No geral, Donda é um esforço duvidoso e pouco atraente. Sem rumo, Kanye West desenvolve um impressionante esquema de marketing, uma gloriosa divulgação, um evento que fez história em 2021, mas infelizmente, nenhum desses atos programados pelo artista servem para acrescentar ou dar credibilidade na confusa e desordenada direção tomada por ele em seu tão aguardado álbum.