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ORQUÍDEAS

• Geffen Records

• 2023

8.0

ORQUÍDEAS sucede o seu antecessor com elegância e entusiasmo.

ORQUÍDEAS

• Geffen Records

• 2023

8.0

ORQUÍDEAS sucede o seu antecessor com elegância e entusiasmo.

PUBLICADO EM: 15/01/2024

PUBLICADO EM: 15/01/2024

 Mesmo que houvesse tido sua ocorrência prevista apenas para outubro daquele ano (2023), pudemos ter um vislumbre do brilho apaixonante da Lua Sangrenta, nome dado ao eclipse total da Superlua, graças a Kali Uchis e o lançamento de seu último álbum, o luxuoso Red Moon In Venus em março. A cantora latino-estadunidense agraciou a todos nós com a luz cintilante do luar com o subsequente “Moonlight” e espalhou a dócil fragrância das rosas com a maravilhosa “I Wish You Roses”, lead-single dessa era, apesar de as circunstâncias não serem propícias para o acontecimento desses eventos naquele momento. Isso, por si só, aponta a compositora como uma força da natureza, cuja imponência dobra as leis universais às quais estamos submetidos. E para confirmar a veracidade desse fato, Kali faz com que sintamos o perfume das orquídeas no verão caloroso de janeiro com o aparatoso ORQUÍDEAS.

 A simbologia por trás das orquídeas varia conforme a sua coloração. Se por acaso forem brancas, representam estabilidade emocional e longevidade em relacionamentos afetivos, assim como delicadeza e pureza, se forem cor-de-rosa, são uma representação clássica de feminilidade — sendo bastante usadas para decorar espaços majoritariamente frequentados por mulheres. Musicalmente, ORQUÍDEAS consegue englobar todas essas definições, e ainda abre margem para o desenvolvimento de novas ideias. Assim como Kali havia falado anteriormente, o disco esbanja a riqueza da cultura colombiana que a cantora carrega consigo, sendo quase inteiramente cantado em espanhol e tendo diversos ritmos latinos incorporados a sua estrutura.

 No entanto, das novas ideias desenvolvidas por Kali, a mais atrativa é o caráter dançante da produção do álbum, cuja colocação faz ORQUÍDEAS se diferenciar muito de seus antecessores. Indo totalmente contra o esperado, o novo disco de Uchis quebra as enormes expectativas postas pelo público por ser mais eletrônico e moderno do que analógico e tradicional. A colombiana não ousou apenas na premissa de confeccionar outro projeto artístico focado na linguagem espanhola e em suas vertentes musicais e culturais, mas também em aglutinar estes atributos à sua sonoridade contemporânea de forma concisa e coerente, criando canções únicas e sensacionais de dance-pop, R&B e reggaeton a partir de sua intrepidez.

 “¿Cómo Así?” inicia o álbum com palpitante batida eletrônica de house e downtempo. Mesmo não possuindo nenhuma familiaridade com tais gêneros, a cantora entra no ritmo acelerado da faixa com facilidade, demonstrando, mais uma vez, o seu talento e domínio na música. Na letra, Kali, mais uma vez, reconhece o enorme poder que possui sobre aqueles com quem resolve se relacionar, dizendo que os fazem implorar por sua estimada presença: “I make ’em beg for it, yeah / Make ’em pretty please”. E este encanto poderoso que ela diz lançar sobre todos ao seu redor também consegue enfeitiçar a nós, nos fazendo viciar no refrão cativante da faixa e sua atmosfera misteriosa.

 Em seguida, temos “Me Pongo Loca”, uma envolvente balada de amapiano e R&B, em que Kali reitera o que fora dito na faixa anterior com muita elegância. Em seguida, conferimos a tão estimada parceria entre a cantora e Peso Pluma, “Igual Que Un Ángel”. Nesta faixa, a compositora abre passagem para que seu convidado entre em seu universo, o fazendo sair de seu comodismo e testando a própria sorte sobre uma produção apaixonante de nu-disco e funk. Felizmente, ambos performam muito bem e conseguem criar química entre si. Na letra, a cantora e seu companheiro valorizam os seus pretendentes e sua essência, dizendo que corações como o dele, que visam mais o amor do que a fama e o sucesso, estão em extinção nos dias de hoje. A faixa funciona tanto como uma crítica a nossa sociedade e o aumento de relacionamentos superficiais como uma aparência meiga e adorável. Essa dualidade ajuda a adicionar ainda mais profundidade ao projeto. Depois, ouvimos “Pensamientos Intrusivos”, que se trata de uma continuidade das ideias sonoras propostas na música anterior, não havendo nada de muito especial, seguindo para a calorosa “Diosa” e suas batidas calorosas de afrobeats.

 Tão memorável quanto as músicas-tema de novelas mexicanas e tão poderosa e irreverente quanto um furacão, “Te Mata” surge e se estabelece como o ponto mais elevado do disco. Na letra, Kali despeja todo o ressentimento sentido com família pelos maus tratos que sofreu em sua infância, de forma simples, porém muito efetiva: “La que con todos tus maltratos se quedó siempre como si nada (Siempre como nada) / Y yo permitía tus acciones, me dolían como balas (Como balas)”. A canção é uma exaltação a força que Kali emprega para continuar firme e seguir seu caminho até sair dessa realidade tortuosa na qual ela se encontrava. A instrumentação majestosa de bolero engenha o palco para Kali brilhar numa performance vocal sublime e muito emocionante, que era justamente o que a produção da faixa requeria para funcionar.

 Uma das qualidades mais notáveis dos trabalhos de Kali é a sua consistência. Ela possui uma média qualitativa de lançamentos elevada e não decai com muita gravidade. Apesar disso, tal coerência acaba levando a uma redundância, o que torna suas obras um pouco maçantes de se ouvir do início ao fim, e ORQUÍDEAS não é uma exceção. Chegando próximo de seu fim, o álbum começa a se enfraquecer com a repetição das mesmas ideias apresentadas no início, só que, dessa vez, com menos inspiração. “Perdiste”, por exemplo, ainda que não seja ruim, acaba servindo apenas para aumentar a fadiga sentida pelo ouvinte por soar como uma réplica com menos vigor de “¿Cómo Así”, e “No Hay Ley Parte 2”, nova versão do single “No Hay Ley” com participação do cantor Rauw Alejandro, também termina por agravar mais a situação, pois se trata apenas de uma música genérica de reggaeton, o que desrespeita a sua versão original.

 Por fim, ORQUÍDEAS encerra com “Heladito” e “Dame Beso // Muévete”, duas das melhores faixas do disco ao lado de “Te Mata” e “¿Cómo Así?”. A primeira, consecutivamente, faz um resgate ao luxuoso Isolation, primeiro álbum de Kali Uchis, e sua sonoridade fabulosa de neo-soul. Os vocais de apoio e as batidas percussivas dão um ar de graciosidade muito convidativo e, mais uma vez, Kali faz uma performance excelente, irradiando o brilho estonteante de ícones do soul das décadas passadas. E a segunda é uma efervescente mistura de merengue e ritmos afro-cubanos, divididas em duas secções que marcam o momento mais divertido da carreira da cantora. A instrumentação é bem arrojada, com passagens audazes de piano, bateria, trompetes e saxofones.

 No final da segunda secção fervorosa do conjunto “Dame Beso // Muévete”, Kali faz sua despedida, agradecendo pela atenção e se mostrando ansiosa para encontrar-se conosco mais uma vez no futuro, que se mostra mais próximo do que podemos imaginar, visto que Kali já confirmou em entrevista que está trabalhando em um novo álbum que será lançado ainda esse ano. Normalmente uma frequência tão rápida de lançamentos seria bastante preocupante. São poucos os artistas que conseguem manter esse ritmo acelerado sem acabar abdicando de seu compromisso com o público de entregar trabalhos bem feitos. No entanto, com o lançamento desses últimos projetos, Kali vem provando fazer parte dessa seleta minoria. Não apenas ela vem entregando com maior frequência, como também vem melhorando e ousando mais a cada novo passo dado, algo muito admirável. A colombiana parece estar prestes a constituir uma das discografias mais consistentes dos últimos tempos.

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Red Moon In Venus, além de percorrer com excelência pelas emocões e vivências amorosas de Kali, proporciona ao ouvinte uma experiência sonoramente apaixonante.
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