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All Life Long

2024 •

Ideologic Organ

8.0
Confeccionado durante três anos, Kali Malone retorna explorando o órgão de tubos em uma contemplação existencialista sobre religiosidade e profanação.
Kali-Malone-All-Life-Long

All Life Long

2024 •

Ideologic Organ

8.0
Confeccionado durante três anos, Kali Malone retorna explorando o órgão de tubos em uma contemplação existencialista sobre religiosidade e profanação.
28/02/2024

Unicidade tem sido um termo escasso ao falar de música ou qualquer outra mídia, pelo menos as ditadas pelo comércio lucrativo focado em criar produtos: a massificação e a replicação de suportes pré-fabricados tornam a relação cada vez mais genérica e invariável. Também sejamos sinceros, mesmo com tanta amplitude sonora e subgêneros que se ramificam levando para outros ambientes, não há lugar para onde correr a não ser se agarrar no que já é consolidado. No entanto, enquanto artistas novatos tentam romper as limitações dos gêneros encabeçando uma vanguarda experimentalista criativa, outros, como Kali Malone, preferem voltar ao passado e se debruçar no que não é mais comum, sem que a contemporaneidade deixe de influenciar seu som.

Quando se fala em produzir música fora do convencional, tem sido recorrente também esse resgate do passado e um olhar para o futuro, uma constituição de experiência e de expectativa. Qualquer musicista atual que se preze tenta olhar para as décadas anteriores se baseando no que os mestres produziram e o que eles podem tirar de proveito ao brincar com o contemporâneo, rompendo a linha do horizonte para se fixar num ponto além do cotidiano. Tudo isso vem se manifestando em revisitações, mas para acrescer a partir dessa reconfiguração, apenas revisitar não basta: é preciso explorar seu contexto e balancear os momentos históricos na concepção musical. softscars de yeule exemplifica isso se apossando de artistas do rock alternativo dos anos 1990 e 2000 e os entrelaçando as falhas sintéticas, as angústias cibernéticas e a conflituosa relação entre o digital e o real. A sua maneira, Malone também se encaixa nessa estrutura “revisionista”, apesar de que sua relação com o passado é muito mais intensa e desbravada, sem que escape sua linha contemporânea vislumbrada em seu propósito artístico ou nas suas modulações instrumentais.

Em Does Spring Hide Its Joy, disco lançado em 2023, a instrumentista trabalhou com três longas faixas constituídas basicamente por violoncelo, comandado por Lucy Railton, guitarra guiada por Stephen O’ Malley — seu produtor de longa data — e ela, regendo pequenas oscilações por sintetizadores. Aquele registro, complexo, taciturno e devidamente espantoso, faz relações com os dias intermináveis da pandemia de Covid-19: sua estrutura é lenta, mas abrasiva e cheia de turbulências que transmitem sentimentos angustiantes. Perpassado por um rearranjo complexo, ele recai numa relação entre música clássica revisitada no contemporâneo, seja pela temática que ela abraça ou pela configuração eletrônica. Diferente do que elaborou no antecessor, em All Life Long, Malone se volta para seu instrumento basilar explorado em The Sacrificial Code e Living Torch: o órgão de tubos, adicionando também a novidade de peças com coral e conjuntos de metais.

Composto durante 2020 a 2023, sua musicalidade faz uma visita histórica ao ser conduzida por instrumentos afinados dos séculos XV a XVII e gravado em igrejas antigas, como os corais registrados na Chapelle Notre-Dame-de-L’Immaculée-Conceptionem na França; a composição de tubos gravada em Église Saint-François, no mesmo país, assim como no Museu de Arte de Malmö na Suécia e em Amsterdã utilizando a sala de concertos Orgelpark; e em Nova Iorque utilizou-se o estúdio de gravação The Bunker Studio para compor o quinteto de metais. Desse modo, All Life Long possui uma incorporação quase litúrgica a partir de ciclos harmônicos que evoluem progressivamente e que ressoam desabrochando a canção com toques singelos e minuciosos.

A peça de abertura, “Passage Through The Spheres”, instaura uma novidade na discografia ao surgir com uma interpretação lírica. Utilizam-se letras em italiano do ensaio “In Praise of Profanation”, de Giorgio Agamben, entoadas pelo coro de Macadam Enseble. Agamben define profanação como o retorno ao social e ao comum daquilo delimitado como segregado e apenas digno do reino sagrado: é a ideia de aproximar coisas que parecem distantes do mundano, tornando-as comum e acessíveis como modo de subverter as instituições de poder que buscam controlar certos aspectos da vida social. Essa introdução constitui bem a linha do álbum, especialmente porque Malone foi desafiada, no ano passado, por protestos de extrema-direita que impossibilitaram a realização de um concerto na Igreja Saint-Cornély, na cidade francesa de Carnac. Os fundamentalistas alegavam “profanação” e usavam cartazes dizendo “Electro na igreja, o que os bispos estão fazendo?”. Além disso, a faixa “Sacer Profanare”, do disco The Sacrificial Code, também foi utilizada como argumento alegando profanação: traduzindo do latim, seria algo como “profanar o sagrado”. 

Percebe-se que essa métrica envolvendo religião tem certa constância nas peças da musicista. Todo esse contexto envolvendo atos de profanação fazem entender o que Malone quer com All Life Long: sua introdução com o ensaio de Agamben não é por acaso, é uma escolha premeditada que simboliza aquilo que ela faz. Quando a artista adentra esse espaço considerado sagrado para realizar sua arte e transmiti-la para a audiência de seus concertos, é uma forma de profanação que se ampara na debatida pelo filósofo: é aproximar esses instrumentos clássicos, empoeirados e perdidos no tempo do comum e do público. Não somente como materialidade, mas também como um tipo de música distante, quase rara de se ver e ouvir, e por isso a instrumentista é tão valiosamente única fora da enorme esfera de consumo musical. Assim, toda essa temática é carregada com peso para o registro, seja por esses momentos de coral ou pela utilização dos órgãos de tubo enfurnados em igrejas construídas durante a Idade Média.

As peças de Kali Malone são sempre muito instigantes e desafiadoras — ela parece prender o tempo em sua mão e usá-lo a seu favor estendendo notas por segundos seguidos em vibrações fervorosas. Cada nota investida transmite sentimentos ímpares, e se em Does Spring Hide Its Joy o som soava áspero e cataclísmico, no novo disco a construção é mais serena e suave. Após a simbólica introdução em coro, os órgãos de tubos dominam em “All Life Long (for ogan)” sendo possível sentir a tensão nas teclas, os ruídos da gravação e o ar saindo dos tubos se transformando em música aguda que preenche o espaço ressoante. Já em “No Sun To Burn (for brass)” esse instrumento sai de cena e o quinteto de metais ocupa o local em uma mistura sinfônica entre as notas e respiração do grupo. E assim o álbum se constrói intercalando faixas em que apenas os tubos se destacam, outras na qual os metais brilham e algumas onde o coro de Enseble forja confecção litúrgica. Nas linhas contemplativas, cada direção ganha sua devida atenção sem que necessariamente elas coexistam no mesmo ambiente; na verdade, a separação por instrumentos dominando peças específicas é inteligente e faz de All Life Long o trabalho mais extenso de Malone em número de músicas, justamente pela variabilidade investida. 

O título do álbum vem de um poema de Arthur Symons “The Crying of Water”, que Malone descobriu quando adolescente em “As Almas do Povo Negro” de W.E.B Du Bois. Tanto que a letra enredada por luto de “All Life Long (for voice)” é inspirada nesse mesmo texto, assim como a peça “Slow Of Faith” deriva da poesia “The Present Crisis”, de James Russell Lowell. Esses poemas retirados do livro do sociólogo tiveram peso no material da instrumentista à medida que eles dialogam sobre sofrimento e libertação, comenta Malone sobre a sorte das sílabas e os versos combinarem com sua música, sendo “[…] pessoal e vulnerável olhar para esses textos que me inspiraram quando era adolescente”. E como arte visual para suas notas extensas e contemplativas, carregadas de pessoalidade, a artista escolheu uma foto tirada nas montanhas rochosas do Tennessee usando um uniforme de seu pai que integrava a Força Aérea dos Estados Unidos. Em meio a ruínas militares de um centro de treinamento de montanhismo, a imagem neutra e sua postura enrijecida, com o olhar focado no horizonte, simbolizam seus tensionamentos e o que ela aprendeu com o disco; usando suas próprias palavras: “Este álbum me ensinou muito sobre a vida”. E isso vem da relação com o lugar escolhido para a foto, pela forma como Malone se relaciona com a religião e sua presença nas igrejas como diagnóstico de profanação, além de toda a gama de interpretações e sentimentos díspares que suas notas podem sintonizar para quem se dedica a desfrutar cada espaço, cada camada dessa atmosfera espectral.

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