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Heart Under

2022 •

Partisan

7.0
O segundo disco Just Mustard conta com uma produção hipnotizante, mas nem sempre apresenta uma lírica concreta e um valor de replay alto.
Just Mustard - Heart Under

Heart Under

2022 •

Partisan

7.0
O segundo disco Just Mustard conta com uma produção hipnotizante, mas nem sempre apresenta uma lírica concreta e um valor de replay alto.
19/10/2022

No final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, dentro do circuito alternativo de apresentações amadoras, grupos de rock indie britânico começaram a experimentar com suas performances ao vivo. Diferente do padrão seguido na época, alguns grupos, muitos deles que nunca foram creditados, moldaram sua forma e som no palco: eles permaneciam imóveis e olhavam para o chão, ao passo que tocavam um instrumental que abafava todas as vozes e melodias, constituído por longos riffs de cordas, crescendo e fortes quebras. Esse gênero, nomeado shoegaze, constantemente confundido com o dream pop, foi concretizado quando My Bloody Valentine lançou seu segundo disco, loveless. Desde então, embora sua referência, é, até certo ponto, difícil de se consumir. 

Em seu segundo lançamento, Heart Under, o quinteto irlandês Just Mustard dá continuidade para sua narrativa shoegaze, pincelando ainda mais as influências do post-punk e noise-rock. Lançado pela Partisan — diferente de seu último registro, o auto-produzido Wednesday, de 2018, distribuído pela Pizza Pizza Records —, Heart Under aprofunda ainda mais os melhores aspectos da estreia. Esse é um álbum intensificado de caráter atmosférico, apoiando-se na ajuda de cordas sombrias, baterias secas e sintetizadores assombrados. Com forte viés aterrorizante, as canções contam com uma produção hipnotizante, mas nem sempre com uma lírica concreta e um valor de replay alto.

Embora não seja uma novidade dentro do gênero, a produção de Heart Under é seu ponto principal. Grande parte das faixas são, em maioria, de tirar o fôlego. Elas não só espelham e imitam grandes cavernas obscuras ou florestas noturnas, mas também são assustadoras. Na abertura, “23”, uma corneta anuncia o começo do álbum. Slowburn, a canção cresce com distorções de sintetizadores em cada refrão, estabelecendo uma sequência imagética tenebrosa. Em seguida, “Still” conta uma bateria seca e sons sintéticos que recriam metais sendo arrastados em salas fantasmagóricas escuras. Todavia, o destaque acaba sendo “Blue Chalk”, o único momento no qual os vocais de Katie Ball — que são muito semelhantes ao de Grimes, sustentados por uma bateria abafada e digitais rotativos que lembram o trabalho de Godspeed You! Black Emperor — conseguem espaço para respirar. 

Historicamente falando, um dos pontos do shoegaze em oposição aos outros subgêneros de rock é a dominância sonora sob a pontuação lírica. Isso é, diferente de outros movimentos que buscavam um equilíbrio, o shoegaze preferia dar prioridade total para a composição sonora das suas músicas. Dessa forma, as composições em Heart Under são genuinamente inferiores. Em geral, elas são repetições cansativas de linhas curtas e apertadas, para além de raramente fazerem sentido. Não digo, contudo, nem em questão de abstração, mas sim de parecem ideias soltas sem conexão, como “23” e “Still”. Em certos momentos, isso funciona, como em “I Am You”, na qual as repetições se fundem com o som abissal e, juntos, criam a sensação de Ball estar implorando por sua vida para uma entidade maior. “Early” e “Rivers” são as duas únicas em que há uma certa coesão e coerência, mas ainda assim são esquecíveis. Isso, aliado ao fato do disco carecer de uma maior variação na segunda parte, deixa Heart Under com status de meio cozido: tem muito potencial aqui, mas não muito tempo para realmente crescer e desenvolver. 

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