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I Love You Jennifer B

2022 •

Rough Trade

8.2
O disco de estreia do Jockstrap é um trabalho amplo e que atira para todos os lados, mas nunca se sente incompleto ou confuso.
Jockstrap - I Love You Jennifer B

I Love You Jennifer B

2022 •

Rough Trade

8.2
O disco de estreia do Jockstrap é um trabalho amplo e que atira para todos os lados, mas nunca se sente incompleto ou confuso.
28/09/2022

Bandas, geralmente, possuem nomes que carregam, de certa forma, seu som e estética. Se você parar para pensar, grupos como Radiohead, Spice Girls, Nirvana e Blur parecem ser intitulados com base em sua própria sonoridade. Era como se, de alguma maneira, o nome fosse a última coisa que eles escolhessem. Com o Jockstrap, dupla formada por Georgia Ellery e Taylor Skye, o caminho é o contrário: totalmente divergente do acessório masculino desenhado para esportes, mas usado entre homossexuais em relações sexuais casuais, em banheiros públicos e vestiários, as canções do duo britânico raramente sequer mencionam sexo gay. No lugar, suas músicas são ordinariamente misteriosas, sempre procurando por um sentido maior.

 Nos dois primeiros EPs lançados por Ellery e Skye, as faixas mostravam grande potencial de conquista, mas quase nunca realmente conquistavam algo. Embora seu segundo lançamento, Wicked City, de 2020, tenha aprofundado e quase acertado os maiores problemas de Love Is the Key to the City, de 2018, trazendo uma abordagem mais cavada e intensa, ainda havia muito caminho pela frente em rumo a uma unidade universal dentro de um só projeto. I Love You Jennifer B, o primeiro disco de estúdio do grupo, por sua vez, finalmente resolve todos os problemas e brilha como uma luz para os dois. Com um drama quase cinematográfico, a estreia de Georgia e Taylor atira para todos os lados, mas nunca se perde ou se sente incompleto. Esse é um álbum de amplitude, mas que, diferente do esperado, não carece em suas poucas pinceladas divergentes. 

De fato, existe uma imensidade dentro de I Love You Jennifer B, desde sonoridades que contemplam os artistas experimentais das últimas décadas até aqueles que se preocupam em se manter dentro das tendências, cantando sobre o poder da tristeza, bem como sobre buscar a felicidade nos lugares sem esperança. Similarmente, suas estruturas se expandem desde simples serenatas até grandes e fortes imagéticos. Indo além, ainda, há uma forte reminiscência de artistas do passado, como as cordas iniciais no começo de “Agsnt” e “Glasgow”, que facilmente lembra o trabalho entregue por Björk nos anos 2000, bem como vocais que ressoam em tons de Kate Bush em “Lancaster Court”, uma canção repleta de terror, solidão, tristeza e desesperança. 

Embora grande parte das canções de I Love You Jennifer B atuem em tons mais sombrios e melancólicos, ainda é fácil achar beleza nisso tudo. Voltando para “Glasgow”, que revive os tons intrigantes de Vespertine, tudo se quebra quando uma viagem de carro em uma estrada empoeirada estoura no meio da canção. “Wishing I was on the road / You tipped me off that Glasgow could be a place to go / I said to you, ‘Yes,’ but I probably won’t”, ela canta, quase assinando com uma gravadora de Nashville. “What’s It All About?”, por sua vez, é o maior testemunho de que o Jockstrap contratou uma orquestra de 18 músicos para auxiliar na produção. “My good friend / I noticed you, yes / The hostess / And I knew you liked me / As I was waited on”, paira em nossas cabeças enquanto os vocais, cordas e percussão soam lindamente enternecedores. 

“Greatest Hits” e “Concrete Over Water” são as duas melhores canções do álbum, que, de certa forma, se complementam. Ao passo que a primeira brilha e se destaca pelo som, a segunda apresenta a melhor composição do álbum. Iniciada com repetições que lembra canções de rap dos anos 1990 e atingindo picos que se estendem desde o disco dos anos 1970 até o pop dos anos 2000, “Greatest Hits” incorpora tudo que um grande sucesso significava pelos últimos 40 anos, com uma lírica que também acena para um resgate saudosista: “Imagine I’m the Madonna / Dressed in bluе / No, dressed in pink / Gabbana Feathеr boa / Marie Antoinette / You wanna know her”. Mas, é “Concrete Over Water” que entrega a melhor letra do registro — se não da carreira deles —, com lindos testemunhos de uma metáfora sobre a fusão de um amante com a noite e uma carta de amor eterno:  

I’m glad you take me as I am

Whatever shape with woman, man

Black or blue, a filthy cheat I am

And you still come to see the band

Light and dark at once

The space behind the sky

In which the darkness depends on

In the creation of light

Essas palavras, sintonizadas pelos ternos vocais de Georgia, escorrem enquanto os sintetizadores criam um ambiente que concretiza e eterniza uma noite etérea. Ainda que apenas em sua mente, a magia continua viva. 

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