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That! Feels Good!

2023 •

Interscope

8.7
That! Feels Good! opta por tonalidades mais sutis e menos ousadas, mas que nem por isso carecem do mínimo para dar voz para Ware.
Jessie Ware - That! Feels Good!

That! Feels Good!

2023 •

Interscope

8.7
That! Feels Good! opta por tonalidades mais sutis e menos ousadas, mas que nem por isso carecem do mínimo para dar voz para Ware.
03/05/2023

O nascimento da música disco pode ser rastreado ao final dos anos 1960 e início da década de 1970, durante um período de agitação social e política nos Estados Unidos. O gênero surgiu de uma cena cultural vibrante e diversa que incluía, principalmente, as comunidades negras e LGBTQIA+, em grandes cidades como Nova York, Chicago e Filadélfia. Ele nasceu do desejo de criar um novo tipo de música dançante que apelasse a públicos diversos e promovesse a união e a liberação. Enquanto as comunidades negras, que, há muito tempo, eram marginalizadas das cenas musicais mainstream, foram atraídas pelos ritmos pulsantes, linhas de baixo do funk e melodias carismáticas; o público LGBTQIA+ encontrou um lar nas boates de disco, onde podiam se expressar livremente. Os pontos de encontro, nesse sentido, tornaram-se espaços seguros para comunidades marginalizadas se reunirem e se conectarem, criando um senso de pertencimento e camaradagem que muitas vezes faltava em suas vidas cotidianas, sendo esse seu legado até hoje.

O disco atingiu forte popularidade nos anos seguintes, mas isso não impediu que ele também fosse um alvo fácil do conservadorismo norte-americano, essencialmente aquele emergente desde o pós-Segunda Guerra e contemporâneo à Guerra do Vietnã. Lembre-se da infame Noite da Demolição da Disco, em 1979, quando um evento promocional em um estádio de beisebol em Chicago se transformou em um tumulto, com milhares de pessoas destruindo discos em um ato simbólico de rejeição. Embora resistência, o disco foi perdendo espaço na cena mainstream, até que em 2020, artistas de grande apelo comercial, como Dua Lipa e Kylie Minogue, trouxeram seu renascimento, ao passo que o mercado alternativo, com Jessie Ware e Róisín Murphy, novas formas de pensar os moldes do gênero. 

That! Feels Good! é a segunda instância disco de Jessie Ware, sucedendo o memorável What’s Your Pleasure, de 2020, esse o qual foi uma quebra com tudo que ela vinha construindo até ali. Se em seus primeiros três álbuns, ela já vinha trabalhando sua sensualidade, mas em cima de estruturas que nem sempre canalizavam toda sua substância da melhor forma — Glasshouse, de 2017 —, ou que, ainda que o fizessem, não soava tão especial e único — Devotion, de 2012 —, em What’s Your Pleasure ela firmou sua assinatura em trabalho energético que, finalmente, teve o poder de estruturar todo seu… tesão no som. That! Feels Good!, como a própria Ware disse, dá continuidade nessa jornada, mas optando, dessa vez, por tonalidades mais sutis e menos ousadas, mas que nem por isso carecem do mínimo para dar voz para Jessie. 

Uma das grandes diferenças entre esses dois álbuns é a forma pelas quais Ware lida com as relações humanas dentro da pista de dança. Se em What’s Your Pleasure as relações interpessoais eram o elemento sustentador de todas as canções, That! Feels Good! demonstra uma independência maior da artista e sua persona, fazendo da conexão do indivíduo para com arte da dança seu maior porto seguro. “Free Yourself”, por exemplo, é uma ode para libertação catártica que ocorre nas boates disco, uma ilusão indireta histórica ao processo de construção da identidade LGBTQIA+ e da cultura negra. Na canção seguinte, “Pearls”, Ware trabalha em cima de sintetizadores brilhantes para enaltecer a potencialidade da dança como forma de expressão e terapia: “Let it go, let me dance / And shake it till the pearls get lost”. 

Sensualidade foi o ponto mais marcante de What’s Your Pleasure — ainda que isso não tenha sido inaugurado na discografia de Jessie nesse álbum, foi o instante em que ela optou por fazer desse sua marca assinada. Nova e diferentemente, se a personagem do anterior era rebelde e fugaz, a mensagem principal de That! Feels Good! é que existe elegância e ternura na sensualidade e sexualidade. Na faixa-título, riffs de baixo e saxofone reforçam a teatralidade canalizando o sentimento de, puramente, libertação sexual: “Freedom is a sound, and pleasure is a right”. “Hello Love”, por sua vez, converte o apartamento casualmente cheio de amigos de What’s Your Pleasure em cenas de delicadeza e romance de um filme dos anos 1970. “Lightning”, por sua vez, localizada no final, usa de sintetizadores cíclicos e puxões em um baixo de cordas ásperas de aço para construção de te(n)são, um suprassumo e um quase orgasmo. 

That! Feels Good! tem uma energia cosmopolitana em suas matrizes, que incrementam ainda mais toda experiência de relato de tesão sufocado e libertação das energias. Um diário dos supostos sacrifícios cotidianos surge em “Begin Again”, facilmente convertendo a experiência da classe trabalhadora durante o dia em sua justificativa para celebração noturna. “Freak Me Now” é ainda mais palpável: com uma construção acelerada, uma metáfora para correria surge ao passo que a luta por manter o prazer em primeiro lugar entre as prioridades continua. “Shake the Bottle”, por fim, é um retrato (quase) feminista do empoderamento feminino urbano: “I don’t need a rock on my finger or a locket and picture or a bottle of nice champagne / Just promise not to start it and stop it once you’ve fired up the rocket”, ela canta.

That! Feels Good! é essencialmente mais raso que seu antecessor: suas composições são mais simples, cíclicas e nem sempre consegue pintar cenas com fidelidade — divergente do que aconteceu no disco anterior — , como em “Beautiful People”, inegavelmente tola, ainda que encapsule bem os anos 1970 em seu som e síntese. Por outro lado, sua capacidade de ser mais direto ao ponto e, de certa forma, menos ambicioso, colocou ele em um nível onde tudo funciona um pouco melhor: ele não é tão longo e não tem tantas pontas soltas. No final do dia, Ware está fazendo o certo em ter o tempo de sua vida nas pistas de dança, mas, mais do que ninguém, deve saber que há sempre o tempo certo para apagar as luzes e ir embora. 

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