Friends That Break Your Heart
2021 • ALTERNATIVO/POP • REPUBLIC
POR LEONARDO FREDERICO; 13 de OUTUBRO de 2021
6.8

Para James Blake, o quinto disco é um ponto importante na carreira de um artista. Segundo ele, o quinto álbum de um cantor — ou, no caso dele, também produtor e compositor — surge de anos de práticas de criação, após diversas mudanças de estilos e direção, num contexto em que você só quer ser você mesmo. No cenário do britânico, as canções de seus três primeiros discos eram amálgamas perfeitas entre estilo e essência, fundindo harmonias e melodias quebradas como uma atmosfera densa e inegavelmente inegavelmente de James, que semeava tensão em quem ouvia seu trabalho. Foi essa característica singular da produção de Blake que levou ele a trabalhar com Beyoncé, Kendrick Lamar, Travis Scott e Frank Ocean. Assim como Jack Antonoff, James estava ganhando o mundo por simplesmente fazer aquilo em que era melhor.

Todavia, algo mudou no último disco de Blake, Assume Form, de 2019 — e eu não estou falando sobre esse ser o único trabalho no qual o rosto do britânico pode ser visto claramente, sem ser um borrão de tinta ou um vulto fantasmagórico. Se, no começo da década, Blake era um produtor e cantor alternativo que teve a sorte de poder andar com Bon Iver, em Assume Form, ele passou a sentar na mesa das crianças mais legais — Moses Sumney, ROSALÍA e Travis Scott. Porém, o fato decisivo desse disco foi o caráter da música, que, apesar de ainda contar com composições recheadas de sentimentos ímpares que eram convertidas em palavras as quais só o jeito único de Blake era capaz de pronunciar, estava trocando sua direção. Pela primeira vez em sua carreira, as batidas deixaram de ser um enfeite para as letras sentimentais resultantes de catarses emotivas, e assumiram o papel principal, o qual, também, se perdia sobre momentos entediantes. 

Em Friends That Break Your Heart, essa mudança se acentua com o estilo, estética sonora e modismo das batidas quebradas repletas de reverbs atmosféricos, tornando-se o ponto principal das faixas. No entanto, por mais que essas músicas ainda sejam carregadas da produção única de Blake, tudo parece soar sem essência alguma, admitindo um papel de arte pela arte, de estilo pelo estilo, sem se preocupar com seu verdadeiro significado. Quando Blake disse que o quinto disco é o melhor de vários artistas, coloca-se uma ênfase na palavra “vários” e na ausência da palavra “todos”. Se ele não se encaixou com os demais anteriormente, agora ele não se encaixa nesse quesito do melhor álbum também, já que Friends That Break Your Heart, ainda que seja seu trabalho mais acessível, repleto de baladas melodramáticas, é o seu álbum mais fraco até então. 

Como mencionado previamente, a pior consequência dessa progressão orgânica e (quase) inevitável da carreira de Blake é o teor que suas últimas músicas assumiram. O britânico, agora, está muito mais preocupado em como suas canções vão soar do que com o seu conteúdo. De fato, a qualidade sonora de James só aumentou com o tempo, mas, ao mesmo passo, sua lírica ficou cada vez menos identificável, única e rara. Olhe, por exemplo, para faixas como “Coming Back” e “Frozen”, que são inegavelmente bem produzidas, porém, nas camadas mais profundas, carecem de personalidade e daquilo que fez o trabalho de James serem o que eram. Enquanto a primeira é cansativa, a segunda é pretensiosa, soando mais forte e potente do que realmente é. Em outras palavras, diversas canções do cantor, agora, são como uma fachada bonita de uma casa vazia. 

Contudo, para majorar ainda mais a situação, nem todas as escolhas de estilos que Blake faz aqui são adequadas. Se antigamente ele pareceu, de alguma forma, visionário e, em alguns momentos, futurista na sua fusão de alternativo com eletrônico, em Friends That Break Your Heart ele soa perdido, defasado, para trás de todos aqueles que uma vez ele esteve à frente. “I’m So Blessed You’re Mine” é a pior canção da carreira de Blake. A faixa conta com inúmeros sintetizadores, sendo o principal uma voz que anda na linha tênue entre uma euforia robótica e uma mensageira alienígena, mas que soa como um modismo de quatro anos atrás. Muito mais do que apenas datado, em certos instantes, chega a ser vergonhoso e brega. Da mesma forma, “Life Is Not the Same” conta com elementos que parecem vir direto de Blue Neighbourhood, álbum de 2015 de Troye Sivan, e “Foot Forward” e “Show Me” aparecem como as próximas piores faixas do álbum: enquanto a primeira não consegue fazer a tarefa mínima de seguir um ritmo bem-direcionado, a segunda parece uma canção de ninar alternativa EDM com vozes de crianças sonolentas. 

Independente de tudo, no entanto, Blake sempre teve a sorte de ter uma mão de ouro e até mesmo seus trabalhos mais fracos e enjoativos — esse e Assume Form — entregam momentos de prazer. A abertura, por exemplo, sobrepõe batidas semeadas por um DJ em uma balada no subsolo de Londres em harmonia e ritmos de trap. Enquanto isso, “Funeral” é melancólica, sendo o único momento no qual as vozes sintéticas em que Blake decide insistir parecem ornar com os outros elementos da canção. Ademais, é um dos poucos instantes em que a composição de Blake volta para o patamar de anos atras. “And I know this feeling too well / Of being alive at your own funeral / Goin’, ‘Don’t give up on me’”, ele canta. Nos momentos finais, na faixa título e em “If I’m Insecure”, o cantor atinge seu ponto mais honesto em anos, talvez. Mas, ah, se todas em Friends That Break Your Heart fossem tão honestas.