Fear of the Dawn
2022 • ALTERNATIVO/EXPERIMENTAL • THIRD MAN
POR LEONARDO FREDERICO; 15 DE ABRIL DE 2022
4.4

Por mais curioso que pareça, Jack White aparenta ter saído de um filme do Tim Burton. Digo isso, principalmente, pelo caráter caricato e levemente estranho que todo o estilo do cantor carrega: enquanto seu cabelo brinca entre todo o espectro entre o azul-claro e o preto, estando bagunçado ou incomumente fixo e arrumado, suas roupas são escuras ou trabalhadas em tecidos platinados e plastificados, complementados por um forte uso de maquiagem. Em certos momentos, seu visual era, genuinamente, homólogo a uma fusão do protagonista de Edward, mãos de tesoura com Willy Wonka, da versão de 2005 de A Fantástica Fábrica de Chocolate, com pitadas de Michael Jackson, vivendo no mundo de A Noiva Cadáver. Uma combinação não somente única, mas com forte potencialidade. 

No entanto, por mais indagador e singular que Jack White pareça, sua música nunca refletiu seu estilo, propriamente dito. No começo de sua carreira, trabalhando ao lado de Meg White na dupla The White Stripes, White viu o potencial da experimentação em álbuns como White Blood Cells, de 2001, e Elephant, de 2003, ambos os quais, ainda que apresentassem elementos usuais, possuíam um viés progressivo. Nesses discos, haviam tanto faixas que fossem a tradução pura do que era rock e punk dos anos 2000, bem como o blues e folk, mas também, nos detalhes de produção, com arranjos mais afiados e distorções de sintetizadores e cordas surgiam como os elementos diferenciais da dupla — o que até rendeu para Jack o trabalho de produtor da cantora country Loretta Lynn em seu disco Van Lear Rose, de 2004. Contudo, a experimentação nunca pareceu ser prioridade, seja por um desejo pessoal ou preferência por continuar em seu lugar seguro.

Isso mudou quando, já em sua carreira solo, Jack White se viu arriscando em álbuns que fossem totalmente voltados para experimentos musicais. Da mesma forma que ocorreu em seu projeto com Meg, que terminou em 2011, a discografia de White foi evoluindo gradualmente. Enquanto o primeiro disco dele, Blunderbuss, de 2012, era basicamente uma reprodução daquilo que ele vinha fazendo até ali, Lazaretto, de 2014, apareceu com as mesmas características, no entanto, elevadas e construídas mais minuciosamente. Todavia, tudo se perdeu em Boarding House Reach, de 2018, um registro que saiu atirando para todos os lados e, embora tenha entregado algo realmente experimental, ressoava estreitamente raso. Em seu último álbum, Fear of the Dawn, White continua sua narrativa e embora não seja tão perdido e opte por uma direção coesa, tudo ainda soa… mais batido, datado e desinteressante. 

O maior problema do álbum é justamente a produção, algo que White sempre foi referência, pelo menos no começo da última década. Em Fear of the Dawn, grande parte das músicas parecem ser muito mais longas do que realmente são. Isso se dá pelas composições do disco, que raramente são marcantes, memoráveis ou de destaque e sofrem pelo fato de White ter as deixado em segundo plano. Entretanto, o vilão é, verdadeiramente, o lado sonoro, que quase nunca consegue construir alguma coisa interessante e com tensão. O melhor exemplo disso é a faixa título que, além de soar como um simples prolongamento da canção de abertura, conta com sintetizadores apoiados por reverbs que criam essa sensação de tentativa de esconder algo ruim. Em outras palavras, toda instrumentação me lembrou aquelas músicas amadoras que tentam esconder suas condições precárias de gravação com efeitos na pós-produção, ao invés de simplesmente abraçar seu teor mais delicado e realista. Por outro lado, White não estava à mercê de situação duvidosa, no entanto, seu resultado faz parecer justamente o contrário. 

Infelizmente, esse viés aparentemente desvalido e carente é reproduzido em diversas canções. “The White Raven”, no caso, traga transições bruscas e marcadas, resultando em uma sensação de uma colagem de sons que raramente conseguem estabelecer uma fluidez, uma conversa. Mais tarde, “What’s the Trick?”, ainda que tenha uma orquestração decente, padece de uma conexão necessária entre os vocais de White e seu plano de fundo, o que, lamentavelmente, não acontece, dando a sensação de um produto criado às pressas, ao desalento e desatenção. Até mesmo “Eosophobia”, uma das canções mais marcantes do disco, é genérica e sem personalidade, como se fosse uma tentativa barata de White de recriar algo feito pelos Talking Heads, mas em um molde usual. 

Embora Fear of the Dawn seja um álbum com forte tendência do blues, um fato impressionante para 2022, não é um ponto tão forte assim. “Into the Twilight”, o instante onde essas referências ficam claras, é uma das peças mais legais do disco, mas, considerando o talento e experiência de White, era de se esperar que tivesse aproveitado melhor os elementos do blues na criação do seu universo maluco. “Hi-De-Ho”, apesar de ser divertida, parece ter saído de um filme de Burton, o que não é necessariamente ruim, mas também não é bom, e “Taking Me Back” é o único ponto onde tudo parece conversar em um pacote fechado. Por fim, “Morning, Noon and Night”, prova que White é melhor fazendo o usual, aquilo que é definido como “mais do mesmo”, porém que ainda apresenta qualidade, qualidade essa que passa longe de Fear of the Dawn